Ações do Tesouro dos EUA e do Fed ampliam incertezas - QTU Questões do Universo

Ações do Tesouro dos EUA e do Fed ampliam incertezas

Fonte: Bandeira da fonte

Kentaro Takahashi/Bloomberg
Pela primeira vez em quase 30 anos, o Banco Central do Japão e o Tesouro americano realizaram operação conjunta na sexta-feira para sustentar o iene, que aprofundava sua desvalorização.
A 164 ienes por dólar, a moeda teve a maior cotação em 40 anos, e, com a intervenção, recuou para 157 ienes, após gastos estimados de US$ 53,8 bilhões do lado japonês e compra de ienes com euros pelo Tesouro dos Estados Unidos em quantidade não divulgada.
A investida americana, que surpreendeu os mercados, pode se repetir, disse o secretário do Tesouro, Scott Bessent, ex-operador de mercado que já especulou contra a moeda japonesa em 2013 quando trabalhava em fundo de investimentos de George Soros.
Ela adiciona novo elemento de incerteza e volatilidade nos mercados à recusa do novo presidente do Federal Reserve, Kevin Warsh, de fornecer orientação futura sobre ações do banco e sua intenção de suprimir entrevistas ao fim das reuniões que definem a política monetária.
A desvalorização do iene em relação à moeda americana foi de 3,5% no primeiro semestre, mas ameaçava uma depreciação contínua após o Banco Central japonês ter decidido manter os juros em 1% ao ano — quase nada, ainda assim a maior taxa desde 1995.
Com a inflação em alta, pressionada pela perda de valor da moeda e pelo aumento do petróleo, todo ele importado, os investidores esperavam uma ação mais firme do BC, que não veio.
O grande diferencial de juros erodiu o valor da moeda, ao manter o estímulo de investimentos japoneses no exterior, com venda de ienes, e facilitar o carry trade, operação pelo qual fundos se financiam em moeda com juros menores para aplicar em outras moedas de países com juros maiores e melhores rendimentos.
O Brasil é um dos alvos prediletos dessas operações, pois seus juros reais estão entre os maiores do mundo.
Um aumento do juro japonês reduz o diferencial favorável do carry trade, valoriza o iene e abre caminho para repatriação de investimentos nacionais em moeda estrangeira.
Os motivos de Bessent, em sua segunda aventura de socorro a moedas, abrem o leque de intervenções possíveis, até então raras por parte do Tesouro americano.
Em 9 de outubro de 2025, Bessent patrocinou uma operação de swap de US$ 20 bilhões para salvar Javier Milei, presidente da Argentina e fanático adorador de Donald Trump, de uma desvalorização do peso que punha em risco seu programa econômico e, mais ainda, ampliava suas chances de derrota nas eleições legislativas, o que limitaria muito a capacidade de ação do governo argentino.
Milei obteve uma boa vitória.
A intervenção com o Japão não teve o contorno político típico da ação na Argentina, e sim o de autoproteção.
O Japão tem US$ 1 trilhão em reservas internacionais e é o maior detentor de títulos do Tesouro dos EUA, que vende nos mercados todas as vezes que precisa sustentar o iene.
Com a elevação da dívida americana, que já crescia antes de Trump acelerá-la com cortes de impostos e aumento de gastos com defesa, o Tesouro está tendo de aumentar as emissões de títulos para rolar os papéis que vencem.
Após a reunião do Fed de julho, que manteve os juros mesmo com sinais de resistência de uma inflação (3,7%) muito acima da meta, os papéis de 30 anos atingiram seu maior rendimento desde 2007, de 5,27% ao ano, indicando que os investidores visualizam inflação maior ao longo do caminho.
Diante dos aumentos de juros, o Tesouro americano começou a mudar o perfil da dívida, encurtando prazos para não pagar taxas mais altas em títulos longos.
No total, o Tesouro tem de girar nada menos de US$ 800 bilhões por semana, em uma dívida que se alimenta de déficits nominais que superam 6% do PIB, cujo valor é de US$ 39 trilhões.
Uma venda maciça de títulos pelo Japão elevaria seus yields (o retorno pago aos investidores) e o custo de financiamento da dívida pública americana.
É o mesmo motivo pelo qual a intervenção foi feita em euros, para não envolver títulos soberanos dos EUA nem emissões de moeda.
O Tesouro tem em seus fundos de estabilização de câmbio e junto ao Fed o correspondente a US$ 23,6 bilhões na moeda do bloco europeu (FT, ontem), que foram total ou parcialmente usados na intervenção conjunta.
Além de Scott Bessent introduzir um elemento de instabilidade sobre operações de câmbio nos mercados globais, misturando objetivos políticos aos econômicos, outro indicado pelo presidente Trump, Kevin Warsh, novo presidente do Fed, reforçou a dose de incertezas com a falta de orientações do banco.
Warsh, em entrevista após reunião que manteve os juros em 3,5%-3,75%, não deu qualquer explicação razoável sobre a decisão, ressaltando que os mercados estavam fazendo o serviço do banco central — elevando juros.
Warsh quer diminuir entrevistas após as reuniões do Fed e é contrário ao BC indicar quais poderiam ser suas reações futuras diante da evolução dos indicadores.

Com uma boa dose de voluntarismo nas intervenções cambiais do Tesouro e o mutismo do banco central mais poderoso do mundo, os escolhidos por Trump para guiar a economia ajudam a espalhar a incerteza e imprevisibilidade que marcam a gestão de seu chefe.