19.set.2026 - Manifestantes protestam contra IA em Londres SOPA Images/Getty Images
Grupos contrários à inteligência artificial estão ampliando sua mobilização e promovendo protestos contra empresas de tecnologia em meio a alertas sobre os riscos da IA. As ações incluem a interrupção de eventos do setor e manifestações contra a construção de data centers.
Segundo o The Guardian, na semana passada, em um bar em Londres, por exemplo, uma célula de um movimento de protesto contra a IA reuniu-se para planejar sua mais recente ação: interromper um jantar da indústria de tecnologia que teria como palestrante um alto executivo da fabricante de chips Nvidia.
Emma, uma bartender de 28 anos, nunca havia participado de uma ação direta e era uma dos quatro integrantes do grupo que planejava o protesto Pull The Plug (Desliguem da Tomada, em tradução livre), um dos vários grupos de ativismo voltados à IA que vêm surgindo pelo mundo. Emma se juntou ao grupo depois que agentes da OpenAI escaparam de seu ambiente de treinamento isolado para invadir o site Hugging Face e após Jacob Coxon, pesquisador da Anthropic, pedir demissão com um alerta apocalíptico de que uma IA superinteligente “poderia matar todos nós até o fim da década”.
Ao anoitecer, eles foram em direção a um hotel, desenrolaram uma faixa em uma sala de eventos e gritaram: “Desliguem a Nvidia” e “Desliguem a Palantir”. Centenas de manifestantes também realizaram um ato em frente à sede da Palantir em Londres na última quinta-feira.
Segundo o The Guardian, o Pull The Plug foi criado em janeiro e tem cerca de 300 integrantes, em sua maioria com idades entre 20 e 40 anos. De acordo com os organizadores, o grupo recebe apoio financeiro de um patrocinador anônimo que trabalha no setor de tecnologia.
Diversas campanhas contrárias à aceleração do desenvolvimento da IA são financiadas por pessoas que atuam na própria indústria de tecnologia. O Pull The Plug defende ações diretas, uma estratégia rejeitada por outras campanhas contra a IA.
No mês passado, uma integrante do grupo subiu em uma cadeira durante uma conferência lotada sobre inteligência artificial em Londres, que tinha palestrantes da OpenAI e da Amazon, e fez um discurso. “Na melhor das hipóteses, os homens que estão lidando com essa tecnologia são completamente incompetentes”, disse a ativista durante o protesto.
“Na pior das hipóteses, estamos todos sendo conduzidos a uma catástrofe.” O vídeo recebeu 153 mil curtidas no Instagram. Outros movimentos de protesto contra a IA também estão ganhando força após uma enxurrada de notícias sobre os perigos da tecnologia.
A Pause AI, uma coalizão de grupos ativistas de 17 países, viu o número de inscrições quadruplicar quando notícias preocupantes sobre agentes de IA fora de controle vieram à tona, em agosto e no mês passado. As inscrições de voluntários dobraram, chegando a cerca de 100 por semana, após o incidente envolvendo a Hugging Face.
O número disparou para 681 na semana em que Coxon fez seu alerta de que a IA poderia “matar todos nós”. Na ocasião, a PauseAI organizou protestos em Paris, Londres e Berlim.
Joseph Miller, pesquisador de segurança em IA que suspendeu seu doutorado na Universidade de Oxford para dirigir a filial britânica da Pause AI, percebeu essa mudança durante uma ação de campanha em frente à estação de metrô Brixton, em Londres. Segundo ele, “foi a distribuição de panfletos mais fácil que já fizemos, porque as pessoas simplesmente vinham conversar comigo [...] uma a cada poucos minutos”.
As pessoas com quem conversou demonstravam preocupação com o declínio das capacidades cognitivas nas escolas e com a possibilidade de a IA levar à realização de trabalhos descuidados nos escritórios. “Ouvi mais jovens falando em ‘matar todo mundo’”, acrescentou Miller.
Segundo os ativistas, a defesa de uma pausa ou da interrupção do desenvolvimento da IA ultrapassa divisões políticas e geracionais. Estudantes universitários aderem aos grupos por temer que a tecnologia destrua suas perspectivas de carreira, enquanto ambientalistas mais velhos se mobilizam contra a construção de centros de dados.
Na Escócia, onde há pelo menos 21 centros de dados planejados, a Action to Protect Rural Scotland, uma organização de defesa ambiental com cem anos de história, mais conhecida por sua atuação em favor da preservação de áreas verdes, afirmou que sua lista de apoiadores cresceu de 400 para 4 mil pessoas.
“Nunca vi tanta mobilização popular espontânea”, disse Kat Jones, diretora da organização. A necessidade de uma infraestrutura física gigantesca para sustentar a IA proporcionou um “alvo de protesto muito físico e concreto”, afirmou Maxime Fournes, matemático e engenheiro de aprendizado formado em Cambridge e diretor executivo da PauseAI Global.
Em alguns casos, essa infraestrutura também se tornou alvo de ações diretas. No último ano, grupos de extrema esquerda ou anarquistas que protestam contra a crise climática e a IA reivindicaram a autoria de ataques criminosos contra infraestruturas na França e na Alemanha.
Em agosto, Wynd Kaufmyn se tornou a primeira manifestante contra a IA que, segundo informações, foi presa por participar de uma ação direta. No caso dela, a acusação foi bloquear a entrada da sede da OpenAI em San Francisco.
Em abril, outro manifestante arremessou uma bomba incendiária contra a casa de Sam Altman, presidente-executivo da empresa. No mesmo mês, um agressor disparou tiros contra a residência de um político de Indianápolis em protesto contra planos de construção de centros de dados.
Mauro Lubrano, professor assistente de terrorismo e violência política na Universidade de Leiden, afirmou que, se as crescentes demandas por responsabilização, transparência e participação democrática na governança da IA não forem atendidas, mais pessoas poderão ser atraídas para a violência.
“É bastante provável que vejamos a violência contra a IA ganhar mais destaque como um fator impulsionador da violência política”, disse ele ao The Guardian, citando a depredação, no mês passado, do instituto canadense de IA Mila e de uma empresa de software nas proximidades, em Montreal.
Janelas foram quebradas e pichações com a frase “incendeiem os centros de dados” foram feitas nos locais. Mais Lidas
Epoca Negócios