Desenhos de mais de 200 anos são descobertos em casarão histórico de Ouro Preto (MG); veja imagens
Vinte e seis desenhos arqueológicos foram descobertos em uma parede durante obras em um casarão histórico de Ouro Preto, na região central de Minas Gerais. Os registros foram localizados em um porão estreito, úmido e de difícil acesso, que fica no subsolo de uma residência localizada na rua Conde de Bobadela, no centro histórico da cidade, e passaram despercebidos até algumas obras no imóvel revelarem, aos moradores, os grafismos.
As imagens mostram cenas do cotidiano do período da escravidão no Brasil e, segundo os pesquisadores, o ambiente escuro e sem energia eletrica, até a década de 1980, ajudou a preservar os desenhos por mais de dois séculos.
Desenhos de mais de 200 anos são descobertos em casarão histórico de Ouro Preto (MG)
Caroline Ferreira
Em entrevista à CBN, o historiador e arqueólogo Leonardo Klink contou que o estudo dos desenhos faz parte de um projeto de doutorado na Universidade Federal de Minas Gerais. “O mural foi feito sobre uma camada de argamassa aplicada na estrutura da casa, inclusive no porão subterrâneo. Esse material, comum em construções sacras e civis da época, mistura fibras vegetais e animais, areia, cal e argila. Os desenhos foram produzidos com instrumentos improvisados e incorporam fragmentos de vidro e louça que haviam sido descartados. O pigmento preto, feito principalmente de carvão, aparece com destaque", explicou.
'Hoje, o mural reúne 26 figuras, entre elas animais, como aves e felinos — possivelmente onças ou leopardos —, além de elementos da vegetação e figuras humanas em interação”
Parte das imagens só foi identificada com iluminação especial e tratamento digital.
Para os pesquisadores, o principal valor do achado está na dimensão humana preservada nas paredes do porão. Ainda não é possível afirmar a autoria dos desenhos ou em qual período exato eles foram feitos, mas a hipótese é que tenham sido criados por pessoas escravizadas, que viveram no imóvel entre os séculos XVIII e XIX, auge da exploração do ouro durante o período colonial. “Os desenhos dialogam muito com cenas do cotidiano e evocam memórias e lembranças do continente africano. Alguém dedicou um tempo — impossível de medir com precisão — em algum momento do dia ou da noite, para produzir essas imagens. Pelo menos três ou quatro desenhos têm uma carga contextual muito rica", afirma.
"Podemos classificar essa obra como um vestígio da cultura afro-brasileira e também da diáspora africana (...). Os registros revelam a permanência de memórias que sobreviveram a processos de ruptura e violência, tanto física quanto psicológica, no plano individual e coletivo"
Um parecer técnico oficializou a recomendação para a homologação do cadastro do local como o sítio arqueológico “Inscrições Afrodiaspóricas” no Sistema Integrado de Conhecimento e Gestão do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.
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