Desconfiança: venezuelanos dizem que 'nada muda' com Delcy Rodríguez na presidência

 

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Os venezuelanos do sul do país têm buscado levar uma vida normal após a captura de Nicolás Maduro pelos Estados Unidos. Apesar de ruas e comércios estarem cheios neste domingo e de o movimento turístico na região da Gran Sabana ter permanecido estável, moradores relataram desconfiança em relação ao que está por vir. Parte deles diz acreditar que nada mudará no país com a ascensão de Delcy Rodríguez, vice nomeada presidente de forma interina.

A avaliação é que o grupo político de Maduro segue no poder e Donald Trump não teria interesse em promover a democracia na Venezuela, mas sim em explorar recursos naturais e o petróleo do país. 

O GLOBO conversou ao longo deste domingo com moradores, comerciantes e indígenas do sul da Venezuela, durante um percurso de cerca de 200 quilômetros por cidades fronteiriças com o Brasil.

Muitos afirmam ter medo de falar com a imprensa e sofrer represálias do regime. Mas uma parte ressalta que Delcy representa a continuidade do grupo político chavista.

O técnico de comércio exterior Antonio Cárdenas, de 46 anos, morador de Santa Elena de Uairén, afirma não acreditar que Trump vá resolver a vida dos venezuelanos nem instaurar a democracia no país.

— O que os EUA fizeram foi um show. Uma mentira. Maduro foi embora, mas o regime fica. Não foi uma invasão, foi uma negociação. Negociaram a saída do Maduro. O povo segue sofrendo, essa é a verdade. Nosso futuro é incerto. Não há um poder democrático na Venezuela. Os extremos, de direita e de esquerda, são essa mentira. Quem está no meio sofre: o povo trabalhador, que quer uma economia pujante. As pessoas estão decepcionadas e com muito medo, porque afinal não houve liberdade na Venezuela. Não acredito que os EUA vão solucionar nada. Eles não estão interessados na Venezuela, estão interessados nos recursos da Venezuela — afirma.

No sul da Venezuela, população segue rotina apesar de apreensão sobre o futuro do país

A avaliação vai ao encontro do que diz um morador que pediu para não ser identificado nem fotografado.

— Tudo o que estamos vendo é uma grande decepção para quem acreditava em mudança. Nada vai mudar na nossa vida do ponto de vista da repressão e do medo, porque o grupo de Maduro continua no comando. E tudo tende a piorar com outro país querendo ditar regras. Não tem liberdade sem autonomia — diz o venezuelano de Santa Elena de Uairén.

Por causa da distância de Caracas — cerca de 1.200 quilômetros da fronteira com o Brasil —, muitos não acreditam que a região será atingida por um possível segundo ataque dos Estados Unidos. 

Ainda assim, temem que a vida nas cidades do sul do país fique ainda mais difícil nos próximos dias, com falta de combustível e mantimentos, já que o acesso à região e o trânsito no país, de forma geral, têm sido dificultados por patrulhas e pontos de bloqueio do Exército.

— A Delcy nada mais é do que a continuidade do Maduro no poder. Se nada mudar de fato, se um governo legitimamente eleito não tomar posse, vamos continuar com os mesmos problemas. Um país sem infraestrutura, sem emprego, sem renda e ainda mais isolado do mundo. Não sabemos mais a quem recorrer. E não acredito que o Trump queira realmente mudar a vida do povo venezuelano. Ele está olhando apenas para os próprios interesses — diz outro morador, um comerciante de 29 anos que se identificou apenas como Ruan.