Descoberta no Saara mapeia estruturas funerárias de uma civilização desaparecida há milhares de anos
Entre o rio Nilo e o Mar Vermelho, em uma das regiões mais áridas do Saara, arqueólogos identificaram centenas de estruturas funerárias milenares escondidas sob o deserto do leste do Sudão. A descoberta, feita com auxílio de imagens de satélite, revelou 260 monumentos até então desconhecidos e reacendeu o interesse sobre povos nômades que viveram na região milhares de anos antes da formação do deserto atual.
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O estudo foi publicado na revista científica “African Archaeological Review” e conduzido por pesquisadores ligados ao Atbai Survey Project, iniciativa internacional que investiga vestígios arqueológicos no chamado Deserto do Atbai, entre o Nilo e o Mar Vermelho. Ao todo, os cientistas mapearam 280 estruturas circulares de pedra espalhadas entre o sul do Egito e áreas próximas da Eritreia.
Mapas mostram a distribuição das estruturas funerárias conhecidas como “Atbai Enclosure Burials” no deserto entre o Nilo e o Mar Vermelho; pontos indicam os monumentos identificados por arqueólogos no leste do Sudão e sul do Egito
Reprodução / African Archaeological Review
Os monumentos são conhecidos como “Atbai Enclosure Burials”, espécie de cemitérios cercados por muros baixos de pedra. Algumas das estruturas chegam a mais de 80 metros de diâmetro. Escavações anteriores em sítios semelhantes já haviam encontrado restos humanos e ossadas de bovinos, cabras e ovelhas enterrados dentro dos círculos, o que levou os pesquisadores a associar os monumentos a antigas comunidades de pastores nômades.
A distribuição das estruturas chamou a atenção dos arqueólogos. A maior parte delas aparece próxima de antigos leitos de rios, áreas de passagem e pontos que teriam concentrado água durante períodos mais úmidos do Saara. Segundo o estudo, isso reforça a hipótese de que os grupos dependiam da criação de gado e utilizavam o deserto como rota de deslocamento em busca de pastagens.
Os pesquisadores acreditam que esses povos viveram durante o chamado “Saara Verde”, fase climática em que a região era menos seca e possuía áreas de vegetação e savana. Esse período teria ocorrido entre cerca de 15 mil e 5 mil anos atrás, antes do avanço gradual da desertificação no norte da África.
Para localizar os monumentos, os cientistas utilizaram um sistema de análise remota com imagens de satélite de alta resolução. A técnica permitiu identificar padrões circulares de pedra em áreas extremamente remotas do deserto, muitas delas hoje inacessíveis devido ao conflito armado no Sudão e à dificuldade logística das expedições terrestres.
O trabalho também sugere que essas populações eram mais organizadas socialmente do que se imaginava. Algumas estruturas apresentam um grande túmulo central cercado por enterros menores de pessoas e animais, o que pode indicar hierarquia social ou a existência de líderes tribais entre os grupos nômades.
Além da importância histórica, os arqueólogos fizeram um alerta sobre a preservação dos sítios. Segundo o estudo, ao menos 12 estruturas já sofreram danos provocados por mineração de ouro e vandalismo. Nos últimos anos, a região passou a receber um fluxo crescente de garimpeiros e grupos armados em busca de ouro no deserto sudanês.
Os pesquisadores afirmam que parte desses monumentos pode desaparecer antes mesmo de ser escavada ou estudada em campo.
