Descoberta de arqueólogos mostra, enfim, onde nasceu Paris 

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Cinco décadas antes de Cristo, após quase dez anos de sangrenta campanha militar, Júlio César conseguiu conquistar a Gália, a vasta região da Europa que hoje compreende a França. O maior feito do famoso general abriu caminho para que Roma se consolidasse como um poderoso império, com domínios por quase todo o continente.

Seus relatos, reunidos no documento Commentarii de Bello Gallico (Comentários sobre a Guerra da Gália), compõem o mais relevante registro sobre a vida dos gauleses, o povo que habitava aquelas bandas e que acabou subjugado — incluindo os habitantes de Lutécia, a cidade que deu origem a Paris.

Eis que, depois de uma série de escavações arqueológicas, vieram à tona, agora, resquícios do que o líder romano definiu como um dos mais relevantes duelos travados por seu exército naquelas paragens. A descoberta pode encerrar um acalorado debate, em meio a tantos que mobilizam a população, que tem seguido nestes dias em marcha nas ruas, sobre o exato ponto onde a capital francesa, então fincada sobre solo pantanoso, nasceu para se tornar a Cidade Luz.

PROVA - A muralha: ruínas carbonizadas corroboram relato de Júlio CésarSIMON WOHLFAHRT/AFP O achado se deu na Île de la Cité, a bela ilha no meio do Rio Sena, sempre apinhada de turistas, que ali se amontoam para apreciar de perto a Catedral de Notre-Dame.

Foi durante as obras para ampliação do vizinho Hôtel-Dieu, um dos mais antigos hospitais parisienses, que um grupo de arqueólogos esbarrou com um muro de cerca de 20 metros de comprimento, o qual desconfiam fazer parte das fortificações da velha aldeia. Em seus escritos, César afirma que Lutécia estava abrigada em um lugar cercado por água, ponto favorável para o povo daquelas cercanias se fixar, justamente pela dificuldade que o inimigo teria para atacá-la.

Uma ala de acadêmicos, porém, defendia que os primeiros Parisii, como era conhecida a tribo celta por lá baseada, teriam erguido suas casas a oeste, na comuna de Nanterre, a quinze minutos da Torre Eiffel. “Pela primeira vez, temos indícios concretos de uma ocupação que parece ser contemporânea ao relato de César”, afirma Dorothée Chaoui-­Derieux, responsável pelo acompanhamento científico das escavações.

A ofensiva romana foi liderada por Labieno, exímio estrategista a quem César confiava as tropas que levaram o assentamento parísio ao chão. Foi um capítulo fundamental, uma vez que havia na área uma coalizão de diversas aldeias dispostas a frear o avanço romano, ainda que em desvantagem bélica.

“Em Lutécia, eram tomadas as grandes decisões da confederação gaulesa, como planos de combate, quem iria comandar a resistência e quais forças seriam convocadas”, diz o historiador Rodrigo Rainha, da Uerj. Conhecedores do terreno, os guerreiros celtas se anteciparam à movimentação dos invasores e encurralaram os opositores antes que chegassem à vila.

Deu certo por um tempo, mas os romanos conseguiram reverter a batalha e, quando estavam prestes a tomar as instalações de assalto, foram surpreendidos por um incêndio ateado pelos próprios moradores — a medida extrema impedia que o povoado e todos os seus recursos caíssem em mãos inimigas.

Continua após a publicidade GRAÇA - Asterix: personagem pop frequentava a velha LutéciaReprodução/.

Encontrada no subsolo do hospital, a muralha estava carbonizada e próxima da ponta de uma lança, arma tipicamente gaulesa, e de pedaços de cerâmica e sementes queimadas. O valioso conjunto corrobora o que dizia César e permite alongar a investigação, na tentativa de cravar a precisa data do duelo.

Com uso de carbono radioativo, os pesquisadores pretendem determinar o intervalo cronológico ao qual os resíduos pertencem — exames preliminares sugerem entre 30 e 200 anos antes de Cristo, período compatível com o domínio gaulês. A ideia dos cientistas é levar tudo para um museu, já que as ruínas estão em uma zona de difícil acesso para visitação.

“Será feita uma moldagem para reproduzir um trecho da muralha, incorporando as pedras originais”, diz Edward de Lumley, diretor regional de assuntos culturais de Paris. Continua após a publicidade

O domínio romano sobre a Gália povoa os livros de história e chegou até a cultura pop, inspirando os quadrinhos de Asterix, do escritor René Goscinny e do ilustrador Albert Uderzo. O bravo e franzino guerreiro, que dá nome à imperdível coleção, tem um único medo: que o céu caia sobre sua cabeça, “por Tutatis!”.

Resiste à ocupação romana com a mãozinha de uma poção mágica que lhe confere força descomunal. Junto de seu inseparável amigo, Obelix, e do adorável cão Ideafix, ele vire e mexe viaja de seu vilarejo para ir a Lutécia, retratada como uma cidade moderna.

Era mesmo uma aldeia central para o poder gaulês, para a qual confluíam prósperas rotas comerciais que desembocavam no Sena. Agora se sabe que foi naquelas margens que a efervescência de Paris começou.

Publicado em VEJA de 23 de outubro de 2026, edição nº 3018 Publicidade

Publicação Original Notícias Veja veja.abril.com.br
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