Derrubada do Elevado Trinta e Um de Março pode levar à construção de dois mergulhões no Centro do Rio
A prefeitura estuda construir, em parceria com a iniciativa privada, dois conjuntos de mergulhões na estrutura que vai substituir os dois quilômetros do Elevado Trinta e Um de Março, por onde hoje circulam 80 mil veículos por dia, ligando a Zona Sul à região central. O plano de botar abaixo o viaduto, previsto para ser concluído em 2028, é um dos carros-chefes do projeto Praça Onze Maravilha, série de intervenções urbanísticas cujo projeto de lei está em tramitação na Câmara do Rio. A ideia é revitalizar o entorno do Sambódromo, incluídos os bairros do Catumbi e do Estácio, além da Praça da Cruz Vermelha. A região ganharia regras mais flexíveis para a construção de moradias, a exemplo do que foi feito no Porto Maravilha, na Zona Portuária.
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Os mergulhões fariam parte de uma via expressa que vai substituir o Trinta e Um de Março. Um deles começaria nas bocas do Túnel Santa Bárbara, passando abaixo das ruas Frei Caneca e Salvador de Sá, e livre de sinais de trânsito. De lá, o motorista seguiria direto na pista, rente ao chão, até o Santo Cristo. O traçado prevê ainda a travessia pela Avenida Presidente Vargas, que seria rebaixada, ganhando o segundo mergulhão para a passagem dos motoristas rumo à Praça da Bandeira ou à Candelária.
Nova cidade do samba
Há outras alterações programadas. Estão na lista uma nova Cidade do Samba para as escolas do Grupo Especial, na Avenida Presidente Vargas; e a Biblioteca dos Saberes, na área onde hoje fica o Terreirão do Samba, um projeto do prestigiado arquiteto Francis Kéré, de Burkina Faso.
O conceito original da obra, divulgado pela prefeitura em novembro de 2025, partiu da análise de sugestões de duas consultorias privadas que se interessaram por estudar a região, no que é conhecido como Procedimento de Manifestação de Interesse (PMI). Na época, a solução foi fazer o trânsito seguir em nível pelo futuro Boulevard do Sambódromo, que seria implantado com a derrubada do elevado. Apenas uma passagem subterrânea seria construída, para os acessos ao Santo Cristo.
Essas consultorias apresentaram parâmetros para a revisão de gabaritos, incluindo em Áreas de Proteção ao Ambiente Cultural (APACs) no Catumbi e na Praça da Cruz Vermelha. Os dados subsidiam uma revisão das áreas protegidas, que está em andamento no Instituto Rio Patrimônio da Humanidade (IRPH).
— O mergulhão é a melhor alternativa viária. E o projeto também reorganizará os acessos ao Santo Cristo — diz o empresário Leonardo Mesquita, da construtora Cury, à frente da proposta.
Mesquita, que também preside a Associação de Dirigentes de Empresas do Mercado Imobiliário (Ademi-RJ), explicou que, entre os estudos de impacto viário, a opção pelo mergulhão, com a demolição do elevado, também libera mais terrenos públicos, que a prefeitura poderá vender à iniciativa privada para financiar as obras. Essa etapa, porém, só acontecerá após a aprovação da legislação.
No total, foram testados quatro cenários:
— A pior opção seria derrubar apenas as alças de acesso e o trecho que cruza a Avenida Presidente Vargas, mantendo o resto da estrutura. Em outra, estudamos estender o mergulhão até o cruzamento com a Presidente Vargas, mas isso causaria um gargalo nos sinais. Também haveria problemas se não implantássemos o mergulhão e deixássemos o trânsito em nível — explica a diretora de Incorporação da Cury, Bruna Santini.
O plano tem a simpatia do Executivo, mas não é consenso entre especialistas em urbanismo e vereadores. Na próxima etapa de sua implementação, que deve durar quatro meses a partir da oficialização da alternativa escolhida, será analisada a necessidade de intervenções complexas: a região afetada abrange rios, o Canal do Mangue, linhas de metrô — existentes ou projetadas, como o plano da ligação Estácio-Carioca — e os trilhos da SuperVia.
O secretário de Desenvolvimento Econômico, Osmar Lima, diz que a prefeitura estima em R$ 1,7 bilhão o custo do projeto, a ser financiado com a venda dos terrenos. Mas o valor pode mudar:
— Uma intervenção como essas exige muito cuidado e responsabilidade. A tendência é optar pelos mergulhões, mas o PMI ainda não foi concluído.
Questões na Câmara do Rio
O projeto de lei para viabilizar a obra foi enviado ao Legislativo no fim do ano passado, mas pontos ainda indefinidos, como estudos que confirmem os custos, reduziram o ritmo da tramitação. Convocada pela Comissão de Assuntos Urbanos, uma audiência pública marcada para o último dia 8 foi adiada.
— Com a demolição do elevado surgirão novos lotes públicos. A venda deles é suficiente para cobrir os custos? — questiona o presidente da comissão, Pedro Duarte (PSD).
O presidente do Conselho de Arquitetura e Urbanismo (CAU), Sydnei Menezes, se preocupa com a falta de respostas, embora ache positiva a iniciativa para revitalizar a região.
— Ainda que o projeto tenha sido enviado ao Legislativo, há carência de informações — aponta Sydnei.
O arquiteto Rodrigo Azevedo, líder do grupo que apresentou a proposta de PMI na qual a prefeitura se baseou ao divulgar o projeto em novembro, adotou tom crítico.
— Trocar um elevado por vários mergulhões é pensar a cidade como se ainda estivéssemos na primeira metade do século XX.
Na semana passada, uma reunião no CAU levantou mais controvérsia. No sentido Santo Cristo do Boulevard do Samba, o projeto propõe a construção de prédios com até 92 metros de altura, o que poderia bloquear a vista de quem está no Largo das Neves, em Santa Teresa, que fica a 70 metros.
Secretário municipal de Desenvolvimento Urbano, Gustavo Guerrante argumenta que o projeto ainda pode passar por modificações na Câmara. E defende que não há risco de impacto significativo em Santa Teresa:
— O bairro está em Área de Proteção Ambiental (APA), que estabelece uma série de restrições para licenciar construções.
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