247 – O presidente licenciado da Federação Árabe Palestina do Brasil (Fepal), Ualid Rabah, relacionou as derrotas eleitorais do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o do senador Flávio Bolsonaro (PL) à associação política de ambos com o governo do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu. De acordo com o dirigente, “nos EUA e no Brasil, o mais acertado é saber que o sionismo e sua criatura colonial em forma estatal, ‘Israel’, estão no fim”.
“Quem se associar a este regime e a esta ideologia, a sionista, estará fadado ao fracasso e ao lixo da história. E se faltassem EUA e Brasil como casos concretos, o apoio ao genocídio na Palestina provocou terremotos eleitorais na França (junho e julho de 2024) e na Inglaterra (julho de 2024), países nos quais as manifestações contra ‘Israel’ levaram milhões às ruas”, afirmou Rabah.
Israel foi denunciado na Corte Internacional de Justiça (CIJ) pelo crime de genocídio na Faixa de Gaza, onde, segundo o Ministério da Saúde local, mais de 74 mil palestinos morreram desde outubro de 2023, quando começaram os ataques israelenses. O Tribunal Penal Internacional (TPI) também chegou a emitir um mandado de prisão contra Netanyahu, em 2024, mas o premiê, apoiado pela extrema direita dos EUA, não foi preso.
No cenário eleitoral, a derrota de Trump ocorreu nas eleições legislativas. Na atualização divulgada nesta quarta-feira (4), os democratas somavam 54 cadeiras no Senado, contra 44 dos republicanos, enquanto duas disputas permaneciam indefinidas.
Na Câmara dos Representantes, o Partido Democrata conquistou 237 assentos, ante 147 dos republicanos, com outras 51 vagas ainda em aberto. Na eleição brasileira, questionada por Trump mesmo sem provas, o presidente Lula (PT0 venceu Flávio Bolsonaro (PL) por 51,79% (64 milhões de votos) a 48,21% (549 milhões).
O segundo turno aconteceu no dia 25 de outubro. Vance aponta guerra e relação com Israel entre fatores eleitorais
Um dos principais argumentos apresentados por Rabah envolve as declarações do vice-presidente dos Estados Unidos, JD Vance, após o resultado das eleições de meio de mandato realizadas em 3 de novembro. Em publicação na rede X, Vance apontou quatro preocupações identificadas entre eleitores que abandonaram os republicanos: o conflito com o Irã, o custo de vida, a defesa dos interesses nacionais e a necessidade de rever a relação de Washington com Israel.
O vice-presidente escreveu: “The reason we lost is the war” (A razão de termos perdido é a guerra). Entre os pontos levantados, também incluiu a necessidade de “Change our relationship to Israel” (Mudar nossa relação com Israel).
Para Rabah, as declarações demonstram que o alinhamento com o governo Netanyahu passou a representar um problema político para o Partido Republicano. O autor também relaciona a decisão de Trump de anunciar o encerramento da ajuda militar anual de aproximadamente US$ 4 bilhões a Israel ao desgaste eleitoral do tema.
O presidente norte-americano declarou, em 3 de novembro, que o financiamento terminaria até o fim de 2026, embora tenha afirmado que Washington continuaria prestando assistência caso necessário. Artigo relaciona apoio a Netanyahu à derrota de Kamala Harris
Rabah recupera também a eleição presidencial estadunidense de 2024, quando Donald Trump derrotou Kamala Harris, então candidata democrata e vice-presidente de Joe Biden. Na interpretação do dirigente da Fepal, o apoio do governo democrata à ofensiva israelense na Faixa de Gaza afastou parte do eleitorado, especialmente entre os jovens e setores progressistas.
O autor menciona uma pesquisa do Instituto para a Compreensão do Oriente Médio segundo a qual 29% dos eleitores de Biden em 2020 não apoiaram Harris em 2024 por causa de sua posição sobre Israel. Outros 36% teriam declarado que votariam na democrata caso ela tivesse repudiado a ofensiva em Gaza.
Na avaliação de Rabah, os resultados demonstram o impacto eleitoral da questão palestina nos Estados Unidos. Ele argumenta que o posicionamento sobre o conflito deixou de ser apenas um tema de política externa e passou a influenciar diretamente a relação entre candidatos e parcelas do eleitorado.
Flávio Bolsonaro e a aproximação com Netanyahu no Brasil No cenário brasileiro, o presidente licenciado da Fepal estabelece um paralelo entre a trajetória política de Jair Bolsonaro e a candidatura de seu filho, Flávio Bolsonaro.
O autor afirma que a aproximação do ex-presidente com Netanyahu e a defesa do governo israelense tiveram peso na disputa presidencial de 2022, quando Lula venceu a eleição. O presidente licenciado da Fepal também critica a viagem de Flávio Bolsonaro a Israel durante sua movimentação política para disputar a Presidência da República.
Segundo o dirigente, o senador procurou apresentar sua relação com Netanyahu como um diferencial político, enquanto Lula adotou uma posição de condenação às ações militares israelenses em Gaza. O autor do artigo mencionou a atuação de Cláudio Lottenberg, identificado como um dos interlocutores do setor favorável à aproximação com Israel.
Rabah sustenta que a mobilização de grupos ligados ao sionismo brasileiro teve participação na disputa eleitoral e na articulação política em torno da candidatura de Flávio. “O ex-presidente Jair Bolsonaro, hoje presidiário, deu mais importância a ‘Israel’ e sua amizade com Netanyahu que ao povo brasileiro durante a pandemia”, disse Rabah.
“O foragido Flávio Bolsonaro fez até pior: foi a ‘Israel’ legitimar sua candidatura à Presidência, algo que, até então, tinha os EUA como o endereço certo – antes dele, Javier Milei, a quem admira como modelo, inaugurou essa vigarice inglória. Apresentou, expressamente, sua amizade com o genocida Netanyahu como uma qualidade para presidir o Brasil”.
O membro da Fepal comparou a conduta de Flávio Bolsonaro com a do atual governo. “Lula, ao contrário, denunciou o genocídio em Gaza, rebaixou as relações com o regime genocida e acusou os EUA de não permitirem uma solução que leve ao Estado da Palestina”, continuou.
Dirigente critica atuação de grupos ligados ao sionismo Outro eixo do artigo é a denúncia de uma articulação que, na interpretação de Rabah, envolve organizações políticas, representantes institucionais e empresas de tecnologia.
Entre os nomes citados estão a Meta, responsável por plataformas como Facebook e Instagram, e o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça. O autor questiona a participação de Mendonça em uma viagem a Israel organizada pela Confederação Israelita do Brasil (Conib), durante o período da ofensiva em Gaza.
Rabah também critica manifestações do ministro sobre as acusações de antissemitismo dirigidas ao presidente Lula em razão de suas declarações sobre a guerra. Ao abordar a Meta, o dirigente acusa as plataformas da empresa de restringir a circulação de conteúdos relacionados às denúncias de violações de direitos humanos contra os palestinos.
Essas afirmações integram a argumentação política apresentada no artigo. “Para Trump e os sionistas, ganhar no Brasil era estratégico.
Para nós também e o dissemos já no primeiro turno, quando até progressistas calaram. Foi difícil, por exemplo, encontrar eco para nossa denúncia da ação decisiva de um grande conluio contra a democracia brasileira gestada pelo lobby sionista, da Meta, a mesma que suprime as denúncias do genocídio em suas plataformas, às ações do ministro do STF André Mendonça, aquele que foi a ‘Israel’ em pleno curso do genocídio, em caravana organizada pela CONIB (Confederação Israelita do Brasil) e, retornado ao Brasil, a primeira coisa que fez foi defender as ações genocidas de ‘Israel’ e acusar Lula de ‘antissemita’”.
Projeto sobre antissemitismo entra no centro da discussão No Brasil, Rabah aponta o Projeto de Lei 1.424/2026, de autoria da deputada federal Tabata Amaral (PSB-SP) e outros parlamentares, como uma das principais disputas políticas relacionadas ao tema.
A proposta estabelece uma definição de antissemitismo para orientar políticas públicas nacionais e utiliza parâmetros da Aliança Internacional para a Memória do Holocausto (IHRA). O dirigente da Fepal considera que a iniciativa pode restringir manifestações de solidariedade à Palestina e críticas ao governo israelense.
Ele questiona especialmente a possibilidade de interpretações jurídicas que aproximem críticas ao Estado de Israel de manifestações de preconceito contra judeus. A tramitação oficial da proposta, contudo, registra que o texto estabelece expressamente que críticas a Israel semelhantes às dirigidas a qualquer outro país não podem ser consideradas antissemitas.
O projeto também não estabelece, em seu texto original, a pena de dois a cinco anos de prisão mencionada por Rabah no artigo. A discussão envolve a distinção entre antissemitismo, que caracteriza preconceito e discriminação contra judeus, e críticas às políticas do Estado israelense, que integram o debate político internacional.
A proposta ainda precisa avançar pelas comissões da Câmara dos Deputados. Argentina aparece como próximo foco da disputa regional
Na parte final do artigo, Rabah amplia sua análise para a América Latina e a Europa. O dirigente cita as eleições francesas e britânicas de 2024 como exemplos de disputas nas quais o posicionamento sobre a ofensiva em Gaza ganhou espaço nas manifestações populares e no debate político.
O presidente licenciado criticou a ajuda da Argentina para a fuga de Flávio Bolsonaro do Brasil. “Para surpresa de alguns, a fuga de Flávio Bolsonaro para os EUA com ajuda de ex-agente do Mossad, via Argentina, de momento o paraíso sionista nas Américas”.
O autor também direciona sua atenção à Argentina, governada por Javier Milei, aliado de Netanyahu e defensor de uma aproximação política com Israel. Para Rabah, o país representa um dos próximos espaços de enfrentamento entre forças políticas alinhadas ao governo israelense e setores que defendem a causa palestina.
Brasil 247