“Se estivesse na cédula eleitoral teríamos vencido com uma vitória esmagadora”, afirmou o presidente dos EUA, Donald Trump, na madrugada de ontem, em meio à apuração das eleições de meio de mandato, contrastando com o recado de rejeição a seu governo dado pelos eleitores nas urnas.
Agora, depois de ter sua aprovação testada pelo eleitorado, Trump terá de lidar com os efeitos do avanço expressivo dos democratas no Congresso dentro do próprio Partido Republicano. Segundo especialistas, a magnitude da derrota republicana nas eleições de meio de mandato surpreendeu integrantes do partido e deve desencadear mudanças profundas na forma como a legenda será conduzida daqui para frente.
O resultado deve abrir espaço para disputas em torno de sua liderança e provocar um afastamento de Trump. “Esse tipo de derrota obviamente abre a possibilidade concreta de que o presidente Trump não consiga mais controlar o Partido Republicano”, diz Pope “Mac” McCorkle, professor na Escola de Políticas Públicas Sanford da Universidade Duke e ex-consultor de políticas públicas para candidatos políticos.
“O termo que costumamos usar é pato-manco, utilizado para se referir a um presidente em fim de mandato, com poder político enfraquecido.” Candidatos democratas conquistaram vitórias em estados que não elegiam representantes do partido para o Senado há décadas, como Carolina do Norte, Iowa, Carolina do Sul, Texas e Kansas.
Nessas localidades, a última vitória democrata para a Casa havia ocorrido em 2008, 2008, 1998, 1988 e 1932, respectivamente. No Maine, a republicana Susan Collins também perdeu, após 30 anos no Senado.
Não demorou para que as derrotas provocassem reações dentro do próprio Partido Republicano. Integrantes da legenda passaram a responsabilizar Trump pelo resultado, argumentando que a preocupação do presidente com a construção de seu legado e o pouco interesse demonstrado pelas preocupações dos eleitores prejudicaram os candidatos.
“Chamar isso de onda não seria totalmente preciso. É o equivalente político a um impacto de meteoro”, afirmou o governador republicano da Flórida, Ron DeSantis.
“Isso se aproxima de um evento de extinção para os republicanos.” Já o vice-presidente J.D.
Vance, que está entre os principais nomes republicanos para suceder Trump nas eleições de 2028, afirmou que razões para os eleitores do partido terem “abandonado” os republicanos nesta eleição teriam sido especialmente por conta da guerra contra o Irã, elencando também outros fatores como o custo de vida.
“É difícil imaginar uma Casa Branca que tenha sabotado candidatos à Câmara e ao Senado mais do que esta”, afirmou Marc Short, ex-diretor de assuntos legislativos da Casa Branca no primeiro mandato de Trump, em publicação no X. “É hora de os republicanos fazerem uma profunda reflexão.”
Em entrevista ao Valor, Short afirmou que a derrota republicana reflete uma rejeição mais profunda com a legenda sob Trump. No entanto, ele avalia que o partido também “perdeu o rumo” sob a liderança do presidente ao aceitar, sem oferecer resistência, a adoção de políticas comerciais, a ampliação da intervenção do governo em empresas privadas e o afastamento de aliados tradicionais dos EUA.
“Os republicanos no Congresso também fizeram muito pouco para se diferenciar de Trump e de suas políticas”, disse. “Não conseguimos enfrentar o problema da inflação.
[...] Se acrescentarmos a isso todas as denúncias de corrupção que estão surgindo na Casa Branca, temos a receita perfeita para os republicanos perderem o poder”. Refletindo a impopularidade atual do presidente, os resultados das eleições de meio de mandato também revelaram que Trump foi incapaz de persuadir o eleitorado em geral a apoiar suas escolhas de candidatos.
Uma das rejeições mais impressionantes ocorreu na Carolina do Sul, onde Trump venceu por 18 pontos percentuais em 2024. Nesta eleição, o presidente apoiou Darline Graham, mas a democrata Annie Andrews conquistou a vaga em uma vitória surpreendente.
Outros candidatos apoiados por Trump na Carolina do Norte, Texas e Michigan também sofreram derrotas esmagadoras. “A presença dele acabou mobilizando ainda mais os eleitores democratas e afastando ainda mais os independentes”, diz McCorkle.
“É como um time esportivo que está perdendo e começa a tomar medidas desesperadas para tentar virar o jogo, mas acaba ficando ainda mais atrás.” Para o professor, o resultado deve acelerar o afastamento de republicanos em relação ao presidente, em meio à pressão por uma mudança de rumo da legenda.
“Será um período difícil para os republicanos. Está claro que eles precisam mudar de rumo, mas têm essa grande figura, o presidente Trump, pelos próximos dois anos.
E não é do feitio dele sair do caminho”. Nesse cenário, Short considera inevitável um debate sobre a orientação ideológica do Partido Republicano, que se afastou de posições tradicionais defendidas por presidentes como Ronald Reagan e George W.
Bush desde a chegada de Trump na política. Ele avalia, porém, que a influência de Trump sobre a legenda provavelmente adiará tal discussão para os próximos anos.
“Não tenho dúvida de que esse debate virá. Ele poderá começar depois destas eleições e ganhar força após a eleição presidencial de 2028”, diz.
“Acho que será uma combinação dos dois momentos.” Além disso, os especialistas avaliam que as eleições legislativas também marcam o início de uma nova etapa na disputa pelas lideranças do partido, especialmente para a sucessão de Trump em 2028.
Antes uma disputa dividida entre Vance e secretário de Estado, Marco Rubio, agora a legenda deve passar a considerar outros nomes que se destacaram na corrida, como os de governadores e outros políticos menos associados ao governo. “À medida que avançamos em direção a 2028, parece claro que o candidato republicano à Presidência precisará ser algo novo”, diz McCorkle.
“Tenho certeza de que muitos republicanos que não são trumpistas, os republicanos tradicionais, estão olhando ao redor e se perguntando: será que existe um futuro para o partido depois de Trump ou não? Essa é uma questão enorme.”
Valor