O recuo do gelo marinho na Antártida está alterando a alimentação dos pinguins-de-adélia e pode estar contribuindo para a redução de algumas colônias da espécie. A conclusão é de um estudo publicado na revista científica Current Biology em julho, que analisou cerca de 4 mil imagens de satélite feitas ao longo de três décadas para identificar mudanças na dieta das aves. Vídeo: Hipopótamo persegue veículo em estrada na Colômbia Seca severa: Entenda como El Niño 'estrangula' o Canal do Panamá, que adota restrições a partir desta sexta A pesquisa utilizou imagens do programa Landsat, da Nasa, para analisar o guano — as fezes dos pinguins — acumulado nas áreas onde as colônias se concentram. A quantidade de excrementos é tão grande que pode ser identificada do espaço. Mais do que a presença do material, os pesquisadores observaram sua coloração, que fornece pistas sobre o que as aves estão comendo. A técnica se baseia nas diferenças entre os alimentos consumidos. Quando os pinguins comem mais krill, pequenos crustáceos semelhantes a camarões, o guano tende a adquirir uma tonalidade rosada ou avermelhada devido ao exoesqueleto dos animais, que não é completamente digerido. Já uma alimentação com maior participação de peixes produz uma coloração diferente. Os pesquisadores combinaram essas informações com dados sobre as condições do gelo marinho. O resultado mostrou uma relação consistente: em regiões onde havia mais gelo, os pinguins tendiam a consumir mais peixes. Quando a cobertura de gelo diminuía, o krill passava a representar uma parcela maior da dieta. Para estabelecer a relação entre a cor do guano e a alimentação, a equipe coletou amostras em diferentes pontos da Antártida e analisou o material com um espectrômetro, instrumento capaz de medir suas propriedades de cor. Parte desse trabalho foi realizada em um laboratório improvisado a bordo de um navio durante expedições ao continente. Os dados foram posteriormente associados às imagens de satélite e analisados por modelos estatísticos. Galerias Relacionadas O estudo analisou a distribuição global do pinguim-de-adélia entre 1984 e 2013. Segundo os pesquisadores, trata-se da primeira vez que observações feitas por satélites são usadas para acompanhar, em escala continental e ao longo de décadas, mudanças na cadeia alimentar e sua relação com a dinâmica populacional da espécie. Impacto nas colônias A mudança na dieta não é apenas uma alteração no cardápio. Os pesquisadores encontraram uma associação entre o consumo de peixes e a evolução do tamanho das colônias. Filhotes alimentados com peixes tendem a atingir maior peso antes de deixar o ninho, característica relacionada a maiores chances de sobrevivência até a idade adulta. Nas últimas décadas, as colônias onde os pinguins consumiam menos peixes apresentaram redução no número de indivíduos. Já aquelas com maior acesso a peixes permaneceram estáveis ou cresceram. O resultado sugere que mudanças na disponibilidade de alimento podem ajudar a explicar parte das diferenças observadas na trajetória das populações. O cenário ocorre em meio a mudanças significativas no ecossistema antártico. O gelo marinho da região passou por quedas históricas desde a década de 2010, enquanto outras espécies também alteram sua distribuição. Na Península Antártica, por exemplo, a recuperação das populações de baleias que se alimentam de krill e o deslocamento de pinguins-gentoo para o sul podem aumentar a competição pelos mesmos recursos.
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Derretimento do gelo faz pinguins da Antártida mudarem de dieta, revela estudo que avaliou cocô das aves
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O Globo
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