Dermatilomania: transtorno ainda pouco compreendido ganha visibilidade após relato de Giulia Costa

 

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Quando Giulia Costa, de 25 anos, contou ter recebido o diagnóstico de dermatilomania após uma viagem internacional, o tema ganhou as redes e abriu espaço para uma conversa ainda rara fora dos consultórios. Ao associar o início dos sintomas a um período de maior pressão psicológica, a atriz colocou em evidência um transtorno psiquiátrico pouco compreendido pelo público e frequentemente reduzido a "mania" ou descuido estético.

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A dermatilomania, porém, está longe de ser vaidade ou falta de força de vontade: trata-se de um sofrimento psíquico que se manifesta na pele. Caracterizada pela compulsão de coçar, cutucar ou ferir a própria pele, a condição pode deixar marcas visíveis, mas seus impactos ultrapassam a superfície. Vergonha, culpa e isolamento costumam acompanhar as lesões. Em muitos casos, o comportamento surge como resposta automática a níveis elevados de estresse, ansiedade e sobrecarga emocional, um mecanismo de alívio momentâneo que, paradoxalmente, aprofunda o ciclo de tensão.

Especialistas explicam que a dermatilomania integra o grupo dos transtornos obsessivo-compulsivos e relacionados. Não se trata de um hábito voluntário, mas de um padrão repetitivo que o cérebro aciona quando a capacidade de regulação emocional é excedida. Mudanças bruscas de rotina, exposição social intensa, períodos de cobrança interna elevada ou esgotamento físico e mental costumam funcionar como gatilhos. Nessas circunstâncias, os sintomas tendem a se intensificar.

Para Jessica Martani, que atua com medicina integrativa e psiquiatria, é comum que pacientes cheguem ao consultório sem compreender por que machucam a própria pele, mesmo conscientes da dor e do constrangimento envolvidos.

"A dermatilomania é uma resposta do organismo a um nível de estresse que ultrapassou a capacidade de regulação emocional da pessoa. O ato de cutucar a pele gera uma sensação imediata de alívio, mas logo depois surgem culpa, vergonha e mais ansiedade, criando um ciclo difícil de romper", esclarece.

Segundo a especialista, o transtorno frequentemente se associa a traços como perfeccionismo, hipervigilância, dificuldade de lidar com frustrações e necessidade de controle.

"Muitas vezes, são pessoas funcionais, produtivas e exigentes consigo mesmas, que aprendem a silenciar emoções. O corpo acaba encontrando uma forma de expressar aquilo que não está sendo elaborado emocionalmente", afirma.

A abordagem, ressalta Jessica, não deve se limitar à dimensão dermatológica. "Quando olhamos apenas para a ferida, ignoramos a causa. O tratamento precisa ser integrado, envolvendo acompanhamento psiquiátrico, psicoterapia e, em alguns casos, medicação para reduzir a ansiedade, a impulsividade e a compulsão. Além disso, é fundamental trabalhar estratégias de regulação emocional e redução do estresse no dia a dia", pontua.

O fato de figuras públicas compartilharem diagnósticos psiquiátricos tem contribuído para ampliar o debate e reduzir o estigma em torno da saúde mental. "Quando uma pessoa conhecida compartilha sua experiência, ela ajuda outras a se reconhecerem no sintoma e a entenderem que buscar ajuda não é sinal de fraqueza, mas de maturidade emocional", destaca a psiquiatra.

Ao trazer a discussão para o espaço público, relatos como o de Giulia ajudam a desmistificar o transtorno e a contextualizá-lo em um cenário mais amplo. Em uma sociedade marcada por cobranças constantes, hiperexposição nas redes sociais e dificuldade de descanso emocional, quadros relacionados à ansiedade e ao controle tendem a se tornar mais frequentes. Reconhecer os sinais, compreender os gatilhos e buscar acompanhamento especializado são passos essenciais para interromper o ciclo e tratar não apenas as marcas na pele, mas as feridas emocionais que as originam.