Depois do pioneirismo, a presença: conheça as mulheres que redesenham o Brasil no século XXI
O pioneirismo não é apenas história para brasileiras do século XXI. Se no passado a luta era por direitos fundamentais, como o voto e a autonomia civil, hoje o desafio é institucional: ocupar os centros de comando, liderar pesquisas globais e romper o "teto de vidro" em áreas historicamente masculinas para garantir a diversidade e representatividade feminina. Neste século, elas vêm quebrando recordes mundiais, liderando e recebendo prêmios pela primeira vez na história do Brasil.
Neste Dia Internacional da Mulher, a CBN destaca as trajetórias que estão moldando o presente e abrindo caminhos para o futuro.
Educação: De Pioneiras para Pioneiras
As mulheres ocupam cerca de 80% dos cargos de diretoria e gestão escolar, segundo o Censo Escolar. Nomes como o de Débora Seabra, a primeira professora com Síndrome de Down do Brasil, provam que a sala de aula é um espaço de resistência, inovação e principalmente de inclusão.
No entanto, a ocupação desses espaços ainda é marcada pelo desafio de romper o descrédito institucional. Débora Garofalo, reconhecida em 2026 como a educadora mais influente do mundo, revolucionou o ensino ao unir robótica e sustentabilidade em áreas de vulnerabilidade.
Débora Garofalo revolucionou o ensino ao unir robótica e sustentabilidade
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Mesmo no topo, ela recorda que o caminho foi pavimentado pela necessidade de provar, constantemente, seu conhecimento técnico diante de colegas homens.“Olhavam para mim e me questionavam o tempo todo que eu estava fazendo artesanato com os meus estudantes, e não robótica”, relata.
Garofalo iniciou a revolução na Escola Municipal Almirante Ary Parreiras, em São Paulo. A ideia surgiu como contraponto à vulnerabilidade social dos alunos como solução para um problema recorrente: o despejo irregular do lixo. Com as meninas, o trabalho foi apresentar um universo antes distante. “Elas podem, sim, projetar uma casa, mas uma casa inteligente, com Internet das Coisas (IoT). Precisamos mudar esse paradigma cultural e histórico que nos distancia da tecnologia”, explica.
No mundo acadêmico, a presença feminina massiva no ensino superior só ganhou força entre as décadas de 1960 e 1970. Hoje, as mulheres são maioria nas graduações brasileiras, honrando o legado de figuras como Enedina Alves Marques, a primeira engenheira negra do país, e Sônia Guimarães, a primeira mulher negra doutora em Física no Brasil e primeira professora negra do ITA. Contudo, para as mulheres negras, o acesso ao topo da academia ainda enfrenta barreiras raciais profundas, cujo enfrentamento ganhou escala com a implementação das cotas.
Ivete Sacramento, primeira reitora negra do Brasil na Universidade do Estado da Bahia (UNEB), é o rosto dessa reparação histórica e da democratização do saber. Ela ressalta que, no Brasil, “não basta ser uma negra ocupando um espaço na educação, mas a gente tem que fazer desse espaço um espaço de abertura de fato para as políticas públicas e ações afirmativas”.
Ivete Sacramento, primeira reitora negra do Brasil na Universidade do Estado da Bahia (UNEB)
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Para ela, sua gestão resultou em mais acadêmicas, mestres e doutoras, algo nunca antes visto na história. “Estamos formando mestres, doutores e cientistas negros que hoje comandam pesquisas vitais para este país”, celebra.
Lugar de Menina é na Tecnologia e na Ciência
No terceiro milênio, as mulheres já lideram grandes descobertas na ciência. Brasileiras como Jaqueline Góes, que liderou o sequenciamento genético da Covid-19, mostram que os laboratórios são, sim, lugar de mulher. E ressaltam que elas podem e já são referências em suas pesquisas, como Mariângela Hungria, a primeira cientista brasileira a vencer o "Nobel da Agricultura" (World Food Prize) por pesquisas na área de microbiologia do solo e sustentabilidade agrícola.
Nas carreiras na Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática (STEM), as mulheres reinventam soluções dos tempos modernos. A inovação dos 'empregos do futuro' já passa por elas que, desde a infância, aprendem que meninas podem operar máquinas ou criar códigos. Afinal, a própria origem da programação tem rosto de mulher: no século XIX, Ada Lovelace criou o primeiro algoritmo da história destinado a uma máquina. Na nossa era, até mesmo a Inteligência Artificial tem uma "madrinha", a cientista chinesa Fei-Fei Li.
Camila Achutti foi a primeira latino-americana a receber o prêmio Women of Vision
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Dando continuidade a essa linhagem de mentes brilhantes, Camila Achutti fez história como a primeira latino-americana a receber o prêmio Women of Vision. À frente da Mastertech, ela trabalha para converter o pioneirismo individual em uma ocupação coletiva e irreversível. Para ela, no século XXI, deixaram de ser apenas usuárias para se tornarem as mentes por trás dos códigos.
“Não existe uma questão associada a gênero, a inclinação. O que existe é uma construção cultural que distanciou a gente da possibilidade de acreditar que a gente pode aprender.”, explica.
No entanto, o título de "pioneira" ainda carrega um sabor agridoce. Para muitas, ser a primeira significa, durante muito tempo, ser a única. “Isso fez parte da minha trajetória inteira no mundo de tecnologia, de computação, porque eu era a única menina da minha turma, eu me formei sozinha, em muitas ocasiões, até hoje, eu sou a única mulher, a única especialista técnica”, analisa a programadora. Camila relata que o reconhecimento internacional divide espaço com o incômodo de ainda encontrar salas de reunião onde a presença de uma mulher na liderança técnica causa surpresa.
Segurança Pública e Forças Armadas
As mulheres avançam também por outras instituições tradicionalmente masculinas, como as Forças Armadas. Do heroísmo de Maria Quitéria de Jesus, passamos pela participação clandestina de Ana Vieira da Silva na Guerra Constitucionalista em São Paulo e chegamos ao século XXI com cerca de 10% do efetivo total e conquistando postos de comando.
A amazonense Joyce de Souza Conceição gravou seu nome na história como a primeira mulher a comandar uma unidade aérea. Abriu caminhos para a tenente-coronel aviadora Adriana Gonçalves Reis, hoje comandante de unidades aéreas importantes e destacando-se na região Norte do país.
Tenente-coronel aviadora Adriana Gonçalves Reis
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Formada na primeira turma de aviadoras, de 2006, Adriana explica que os estudos e treinamentos são iguais aos masculinos. Para ela, embora o treinamento seja rigoroso e igualitário, a presença feminina traz um diferencial competitivo para a tropa.
“Temos uma maneira de pensar diferente e isso é muito engrandecedor, amplia as capacidades das Forças, tomadas de decisão, às lideranças”.
Para a comandante, ocupar essa cadeira vai além do dever militar; é um compromisso com o futuro. “Quero fazer dar certo para que as gerações que vem depois vejam que é possível, que é capaz e tenham como referência, né? Coisas que gerações para trás não tiveram, coisa que eu mesmo para a minha função, não tive”. Ela ressaltou o compromisso das Forças em adaptar processos e espaços para receber cada vez mais mulheres nas instalações para que mais mulheres possam sonhar e estar neste lugar.
Gerações de meninas que, desde 2025, podem se alistar voluntariamente: uma permissão inédita nas Forças Armadas. O resultado já se vê em 2026, com o início da primeira turma do serviço militar feminino. 1.467 novas voluntárias foram incorporadas como soldados. No território nacional, nos mares ou nos céus brasileiros, no século XXI as mulheres já ocupam postos de comando. Há poucos dias, conhecemos a primeira mulher general do Exército Brasileiro: a médica Cláudia Lima Gusmão Cacho.
Da Liberdade Financeira às Reuniões como CEO
As mulheres, que até o século passado precisavam de autorização do “chefe do lar” para trabalhar, hoje são 53% da população feminina no mercado de trabalho. Contudo, o desafio da equidade permanece: os homens são mais de 70% do mercado de trabalho e ganham mais. Mais escolarizadas que os homens, as mulheres ainda recebem cerca de 20% menos e dedicam dez horas semanais a mais às tarefas domésticas.
Em 2025, elas já ocupavam 39% dos cargos de liderança, número ainda baixo que já prova que o comando do dinheiro e das grandes instituições têm novos rostos. Tarciana Medeiros fez história em 2023 ao tornar-se a primeira mulher a presidir o Banco do Brasil em mais de dois séculos.
No mundo digital, Cristina Junqueira, cofundadora do Nubank, já foi reconhecida como uma das principais pioneiras do setor de fintechs no Brasil, está entre os bilionários da Forbes, sendo uma das poucas mulheres a fundar um unicórnio. Já Rachel Maia, a primeira mulher negra a presidir uma multinacional no Brasil, transformou sua trajetória em um manifesto contra o preconceito e a falta de oportunidades.
Para acelerar essa mudança, a estratégia é o fortalecimento coletivo e a profissionalização das mulheres. Adriana Barbosa, fundadora do Festival Feira Preta, é o símbolo dessa transformação. Reconhecida pelo Fórum Econômico Mundial como uma das maiores inovadoras sociais, ela transformou a necessidade individual em um ecossistema de prosperidade.
“Eu comecei também pela necessidade, comecei vendendo minhas roupas em feiras de rua e quando eu identifiquei um mercado de consumo, eu coloquei na minha cabeça que era importante a partir dessa percepção criar um lugar para que as mulheres negras pudessem viver de uma maneira tranquila e não só sobreviver…”, ressalta.
Adriana Barbosa, fundadora do Festival Feira Preta
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Barbosa explica que o propósito da Feira Preta é, antes de tudo, reconhecer mulheres negras como empresárias. “Tem vulnerabilidade? Tem. Tem escassez? Tem, mas tem muita criatividade. Então, vamos olhar pelo copo cheio e vamos fazer as transformações necessárias e a partir daí, criar um um sistema um ecossistema mesmo, um mercado, né, potente. O Brasil realmente é a referência na América Latina no campo do empreendedorismo negro”, reafirma.
"A disparidade demonstra a necessidade urgente de ações afirmativas, como programas de mentoria específicos”.
A inovação já alcança também as novas gerações, com as brasileiras passando a figurar na lista Forbes 30 Under 30. Em 2025, a mineira Luana Lopes Lara tornou-se a primeira brasileira a integrar a prestigiada lista global do MIT ao cofundar a Kalshi, empresa de tecnologia que atrai investimentos milionários no mercado financeiro global.
Empresária brasileira Luana Lopes Lara.
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Seja no comando de bancos centenários ou na vanguarda das novas tecnologias, as brasileiras do século XXI mostram que a liberdade financeira foi apenas o primeiro passo.
No Topo dos Pódios
Marta é homenageada no Fifa The Best
Adrian DENNIS / AFP
O Brasil, que por mais de 30 anos proibiu legalmente as mulheres de praticarem esportes como o futebol, assiste hoje a uma revolução. O século XXI consolidou o reinado da Rainha Marta, a única pessoa no planeta a ser eleita seis vezes a melhor do mundo pela FIFA. Dos campos de futebol, as conquistas brilham ainda nas águas, nos tatames, pistas de skate, automobilismo e velocidade do atletismo.
Terezinha Guilhermina é conhecida mundialmente como a cega mais rápida do mundo. Dona de recordes e medalhas paralímpicas, ela revela que ser pioneira exige enfrentar o descrédito duplo: pela deficiência e pelo gênero.
Terezinha Guilhermina é conhecida mundialmente como a cega mais rápida do mundo
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“Em vários momentos e lugares da minha vida em que eu era completamente ignorada. Eles viam a atleta, falavam com o meu guia ou com a pessoa que tava do meu lado como se eu não existisse”, relembra.
Para ela, o desconforto, deu lugar ao protagonismo e a necessidade de se mostrar como mulher nas pistas. “Eu usava vendas coloridas, com bastante detalhe e brilho, u posso não estar vendo, mas eu quero que quem me veja, me veja feliz, me me veja colorida, divertida e veja que eu estou fazendo aquilo que eu gosto”, comenta.
A resiliência de Terezinha, que marcou época entre as Paralimpíadas de Atenas e do Rio, ecoa em outras modalidades. No judô, Rafaela Silva quebrou paradigmas ao tornar-se a primeira brasileira a conquistar, na mesma categoria, o ouro mundial e o ouro olímpico.
Rafaela Silva disputa medalha para o Brasil no judô feminino
Alexandre Loureiro/COB
“Eu saí de uma comunidade que eu não tinha metas, não tinha objetivos, nunca imaginei que eu fosse conhecer São Paulo e hoje tá vivendo tudo que o esporte que o judô me proporcionou funcionou, então, eu tô muito feliz de ter esse papel de poder inspirar novas gerações, novas mulheres a transformarem a vida, assim como o judô, o esporte transformou a minha vida”, comenta a atleta ao explicar o entendimento de que a medalha carrega uma responsabilidade de incentivar o esporte para novas gerações.
“Eu acredito que ao longo dos anos a gente foi conquistando o nosso espaço. Hoje, inclusive, os melhores resultados que a gente tem no judô brasileiro tá vindo do judô feminino”, completa.
No triatlo, Fernanda Keller inscreveu seu nome no Hall da Fama do Ironman mundial como a única latino-americana a alcançar tal feito, mantendo-se por décadas como a atleta mais consistente do planeta. Até em territórios antes estritamente masculinos, como o automobilismo, as mulheres estão acelerando. Hoje, nomes como o de Bia Figueiredo, a piloto de maior sucesso na história do país, inspiram jovens e derrotam estereótipos para colocar o Brasil sobe ao lugar mais alto do pódio.
O Palco das Pioneiras
Nas artes, essa resiliência também ecoa. O que começou com Maria Firmina dos Reis, a primeira romancista brasileira, chegou hoje ao lugar de reconhecimento. Na literatura, por exemplo, Conceição Evaristo, imortalizada na Academia Mineira de Letras, trouxe a "escrevivência" da mulher negra para o centro do debate contemporâneo.
No cinema, Fernanda Torres colocou o Brasil no topo do cinema mundial ao vencer o Globo de Ouro. "Ano incrível para as atuações femininas", disse na comemoração.
Fernanda Torres com o prêmio do Globo de Ouro.
Robyn Beck / AFP
Na sétima arte, a produção audiovisual de mulheres trans ganha destaque e nome. Seguindo os passos de Julia Katherine, a primeira cineasta trans a entrar no circuito comercial, na Paraíba, Danny Barbosa rompeu paradigmas ao se tornar a primeira profissional trans a produzir audiovisual no estado.
"Sou uma das poucas pessoas pretas e transexuais que conseguiu burlar a estatística dos 35 anos de vida da população travesti e transexual. Esse pioneirismo vem da necessidade de podermos contar nossas histórias, mas sem ser a história que alguém pensou para nós", enfatiza.
Essa resiliência perpetua o caminho de todas as brasileiras. Ser pioneira no Brasil de hoje significa, muitas vezes em uma jornada solitária, resistir. Na música, o século XXI também coroou Liniker, a primeira artista transgênero a vencer um Grammy Latino e a ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Cultura. O legado de Chiquinha Gonzaga e a independência de Cátia de França ecoam em novos ritmos nas vozes delas em estilos antes cantados por homens.
