Depois do feminejo, é a vez do feminindie
O clássico logotipo; o som sujo e vibrante, as fotos dos shows insanos, sempre em preto e branco, revelando muita energia masculina... é o que vem à mente quase sempre que alguém lembra da Sub Pop, gravadora independente americana que, no começo dos anos 1990, revelou bandas de Seattle como Nirvana, Soundgarden e Mudhoney — figuras centrais do grunge, que abalaria o rock mundial com muita eletricidade e atitude punk.
Hoje, em tempos de redes sociais e streaming, a Sub Pop segue com a missão de revelar música nova e estranha — indo além do rock, com muitas figuras femininas do pop e da eletrônica, como a inglesa Suki Waterhouse, a nigeriana radicada no Canadá Debby Friday e a sueca Waterbaby. É uma história que pode ser contada por Tony Kiewel, copresidente da Sub Pop Records & Publishing. Há 26 anos na gravadora, ele vem para o Rio2C, onde participa, dia 29, às 14h, no Palco SoundBeats, do painel “A música independente no mundo”, dia 29, às 14h.
Com Kiewel, estarão Mark Meyer (CEO da Random Sounds) e Rafael Farah (co-fundador da Balaclava Records), com mediação de Talita Cordeiro (diretora geral da Associação Brasileira de Música Independente — ABMI). Maior evento de criatividade e inovação da América Latina, o Rio2C acontece dos dias 26 a 31, na Cidade das Artes, na Barra da Tijuca, Zona Sudoeste do Rio.
Será a primeira viagem ao Brasil do executivo, que também irá a São Paulo.
— Incluí uma parada lá para encontrar minha amiga Luíza, do Cansei de Ser Sexy (banda paulistana que já foi da Sub Pop), com quem nunca passei um tempo em sua cidade natal — conta por Zoom o americano, que, ainda no Rio, assistirá no dia 27, na Audio Rebel, a uma shows de artistas da música alternativa como Lê Almeida (do Oruã), Vera Fischer Era Clubber e Natália Lebeis e Gueersh, em evento organizado pelo produtor Felipe Llerena com a ABMI.
Começo como fanzine
Iniciada no dia 1º de abril de 1988 (“quando os fundadores se mudaram para um escritório e decidiram que aquele seria o seu trabalho diário”, conta Kiewel), a Sub Pop nasceu com Bruce Pavitt e Jonathan Ponenam editando um fanzine que se dedobrava em coletêneas de bandas novas em fitas cassete. Kiewel entrou para a gravadora em 2000, depois de passar pela Geffen e pela Dreamworks. A bonança do grunge era passado.
— A Sub Pop enfrentava alguns desafios econômicos. Mas isso acabou nos beneficiando. Tínhamos o Iron & Wine, The Postal Service (projeto paralelo, synthpop, despretensioso do cantor Ben Gibbard, do Death Cab For Cutie), Hot Hot Heat e The Shins. Os discos deles que saíram entre 2002 e 2003 acabaram vendendo muito bem — recorda-se. — Todos feitos com orçamentos baixos, não são de fidelidade sonora muito alta.
Não apenas a Sub Pop prosperou. Foi a época em que a Matador descobriu a Interpol, a Touch & Go estourou o TV on The Radio, a Merge foi de Arcade Fire. De repente, um novo mundo indie, de sucesso comercial, começava a surgir.
E assim começou uma nova era de ouro das gravadoras independentes que o executivo atribui, entre outros fatores, à popularização do MySpace (uma das primeiras redes sociais do mundo, focada em música) e a jovens da época que começaram trabalhando em rádios universitárias ganharem posições de destaque no cinema e na TV.
— Nos sentíamos parte de uma geração que acreditava na criação de comunidades independentes, baseadas no apoio mútuo. De repente, parecia que os macacos tinham tomado conta do zoológico — brinca. — As redes sociais eram algo novo, apenas pessoas conversando umas com as outras sem nenhum tipo de controle. Os artistas colocavam uma música no MySpace e ela tocava automaticamente se você visitasse a página.
Mas isso acabou com a ascensão do streaming.
— Antigamente, o desafio para as gravadoras independentes era chegar ao rádio, que era, em grande parte, um clube privado. Tínhamos apenas alguns minutos por dia e podíamos tocar um número limitado de músicas — compara Kiewel. — Agora, teoricamente, temos espaço infinito. Mas não atenção infinita. Mesmo para nós, que estamos no topo da comunidade de gravadoras independentes, (popularizar os nossos artistas) é um desafio.
Ele reconhece que o catálogo da Sub Pop é hoje um ativo poderoso, mas a função da gravadora continua sendo “ajudar a construir público para novos artistas que buscam criar novos sons, desenvolver uma comunidade e divulgar sua arte e sua mensagem”. O que o levou a esse contingente feminino do qual fazem parte Suki Waterhouse, Debby Friday e Waterbaby.
— Ninguém tinha pensado muito nisso (que hoje há muito mais mulheres no catálogo da Sub Pop), mas fico feliz que estejamos pensando mais a respeito — opina Kiewel, lembrando que Kurt Cobain, falecido líder do Nirvana, “era um feminista dos mais fervorosos”. — Um amigo empresário nos mandou as primeiras gravações da Waterbaby e ficamos obcecados pelas suas músicas. E a mesma coisa aconteceu com a Debby Friday, que entrou no nosso radar porque estava na faixa de uma banda com a qual trabalhamos, o Clipping.
Suki Waterhouse, ele diz, foi um caso diferente: “sua música chegou até nós por meio de um empresário muito fã do Father John Misty” (cantor de rock alternativo e um dos artistas mais populares da Sub Pop).
— Levamos um tempo para levá-la a sério. Não foi legal nem justo da nossa parte, porque não era comum recebermos músicas de atores (Suki é atriz) — justifica-se. — Quando a conhecemos, ficamos encantados porque ela é engraçada demais, nos contou várias histórias malucas de quando saía com uns roqueiros britânicos esquisitos, como os Libertines, e era muito nova para andar com eles.
Como comunicar os valores da Sub Pop às novas gerações?
— Está cada vez mais difícil conquistar um público para uma banda que começa do zero. Se têm menos de mil ouvintes mensais no Spotify e 200 seguidores no Instagram e TikTok, chegar a centenas de milhares é uma tarefa árdua, e ainda mais quando sua empresa tem apenas 50 funcionários — lamenta. — Mas não queremos simplesmente lançar o quarto álbum de uma banda que já atingiu um certo patamar. (Nos orgulhamos de que), seja de Fleet Foxes, The Shins, Postal Service, Hot Hot Heat, Band of Horses, Father John Misty, Orville Peck ou Suki Waterhouse. Fomos nós que lançamos os álbuns de estreia.
