Democratas apontam falas de Trump e Vance como indícios de que uso de armas nucleares contra o Irã estaria em discussão; Casa Branca nega
A horas do fim do prazo estabelecido pelo presidente dos EUA, Donald Trump, para um acordo com o Irã sobre o Estreito de Ormuz ser finalizado antes de um prometido ataque contra infraestruturas civis na nação persa, a Casa Branca se envolveu em um esforço para desmentir especulações de que o uso de armas nucleares estaria sendo considerado para as possíveis operações na noite desta terça-feira. A suposta articulação foi apontada por ativistas e políticos democratas após falas de Trump e de seu vice, JD Vance, sobre as ações militares contra Teerã — com alguns parlamentares sugerindo que as ameaças sejam usadas como argumento para afastar o presidente do cargo.
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As falas de Trump e Vance aconteceram em contextos diversos. O presidente fez uma publicação na Truth Social, em que escreveu que "uma civilização inteira morrerá esta noite", referindo-se à falta de acordo com o Irã. Em viagem à Hungria para apoiar a nova candidatura do líder de extrema direita Viktor Orbán, Vance se referiu à proximidade do encerramento do prazo do ultimato e às dificuldades na negociação, e citou possíveis desdobramentos militares.
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— Temos ferramentas em nosso conjunto que, até agora, não decidimos usar. O presidente dos EUA pode decidir usá-las. E ele decidirá usá-las se os iranianos não mudarem seu curso de conduta — disse Vance a repórteres.
O trecho da fala do vice-presidente foi recortado e repercutido nas redes sociais após a publicação de Trump na Truth Social. Uma conta ligada a ex-vice-presidente Kamala Harris afirmou que a fala de Vance "reforça a nova publicação de Trump que ameaça 'toda uma civilização morrerá esta noite' e insinua que Trump pode usar armas nucleares". A acusação foi rejeitada pela conta de Resposta Rápida da Casa Branca.
"Literalmente, nada do que o @VP disse 'dá a entender' isso, seus palhaços absolutos", reagiu à publicação.
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A suspeita não ficou restrita à militância. Deputados e senadores do Partido Democrata exigiram explicações adicionais sobre a pretensão de usar o arsenal nuclear do país, e ameaçaram iniciar um movimento para tirar o presidente do cargo.
"A ameaça do presidente de destruir a civilização iraniana sugere que ele está considerando usar uma arma nuclear ou quer que o Irã acredite que ele o faria. Israel e Irã já atacaram instalações nucleares próximas uma da outra", escreveu o deputado democrata Joaquin Castro (Texas) no X, exigindo explicações.
Aliados históricos dos EUA na Europa e especialistas em direito internacional expressaram nos últimos dias preocupação de que as ameaças públicas de Trump ao Irã indicassem uma predisposição ao cometimento de crimes de guerra. Em meio às críticas, o republicano afirmou na segunda-feira, na Casa Branca, que "não se importava" com as repercussões das ações militares, e que crime de guerra seria permitir que o Irã desenvolvesse armas nucleares.
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Apelos pelo afastamento
Vários democratas citados pelo jornal The Hill, especializado na cobertura política em Washington, pediram que parlamentares republicanos se opusessem a Trump ou que ele fosse destituído do cargo, seja por meio de impeachment ou pela invocação da 25ª Emenda — que permite que um presidente seja destituído do cargo por diversos motivos, inclusive em caso de incapacidade.
"A ameaça genocida do presidente dos Estados Unidos de cometer crimes de guerra é ilegal sob as leis federais e internacionais", escreveu o deputado democrata Jim McGovern, chamando a ameaça de Trump de "pura maldade". "As Forças Armadas dos EUA juram fidelidade à Constituição, não ao presidente. [O Estado-Maior Conjunto] é obrigado a desobedecer a todas as ordens ilegais. O presidente da Câmara, Mike Johnson, deve convocar imediatamente o Congresso de volta a Washington e conter este presidente insano.
O deputado Hakeem Jeffries, líder da minoria na Câmara, disse em entrevista na manhã de terça-feira que os democratas pretendem forçar uma nova votação sobre uma resolução para conter o uso da força militar no Irã.
— Precisamos apenas de mais um ou dois republicanos, e acho que estamos no caminho certo para conseguir isso — disse o deputado por Nova York. — O Congresso deve votar imediatamente para pôr fim à guerra irresponsável escolhida por Donald Trump e impedi-lo de nos arrastar para a Terceira Guerra Mundial. (Com NYT e AFP)
