‘Delinquentes travestidos de policiais’: procurador-geral de Justiça diz que a cooptação de policiais compromete forças de segurança

 

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A sucessão de operações deflagradas nos últimos dias contra policiais suspeitos de ligação com o crime organizado levou o procurador-geral de Justiça do Rio, Antonio José Campos Moreira, a fazer um alerta sobre o avanço da infiltração criminosa nas forças de segurança. Para ele, a cooptação de agentes públicos por facções e grupos ilegais "compromete" a imagem dos órgãos responsáveis pela segurança pública.

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Nos últimos dias, três investigações diferentes — duas conduzidas pela Polícia Federal e uma pelo Ministério Público do Rio — colocaram cerca de 36 policiais na mira, entre militares, civis e penais, ativos e inativos.

Ao GLOBO, o procurador-geral comentou que “essa cooptação compromete seriamente a imagem dos órgãos responsáveis pela segurança pública, integrados por uma imensa maioria de servidores honestos e comprometidos com a defesa da sociedade, levando-os ao descrédito". Além disso, o procurador pontua que a infiltração também "prejudica o bom êxito de investigações e operações".

"Identificar e responsabilizar esses delinquentes travestidos de policiais é compromisso permanente do MPRJ”, disse o procurador-geral de Justiça, Antonio José Campos Moreira.

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Os casos envolvem desde esquemas de segurança privada para criminosos até suspeitas de extorsão dentro de delegacias. Depois da recente ação do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do MPRJ, que cumpriu 20 mandados de prisão preventiva contra o bicheiro Rogério de Andrade e integrantes de seu núcleo de segurança, formado majoritariamente por policiais, a terceira fase de uma operação da PF prendeu mais sete PMs por compor segurança de chefe do CV.

Os seguranças de Rogério de Andrade

Segundo o Ministério Público, 18 policiais militares e penais — ativos e inativos — além de um policial civil aposentado foram cooptados pela organização criminosa para atuar na proteção do contraventor e de pontos de exploração ilegal de jogos de azar na região de Bangu, na Zona Oeste do Rio. Até o momento, 16 pessoas já foram presas.

De acordo com a denúncia, os agentes atuavam como uma espécie de força de segurança paralela, garantindo a livre atuação do grupo criminoso mediante práticas sistemáticas de corrupção. Os denunciados vão responder por organização criminosa armada e corrupção ativa e passiva.

Núcleo de PMs fazia segurança de chefe do CV

Paralelamente, a Polícia Federal investiga um esquema semelhante envolvendo o traficante Gabriel Dias de Oliveira, o “Índio do Lixão”, apontado como um dos chefes do Comando Vermelho. Na terceira fase da Operação Anomalia, deflagrada nesta semana, sete policiais militares foram presos suspeitos de integrar um núcleo que atuava diretamente na proteção do criminoso. Segundo a PF, Índio contava com uma espécie de batalhão informal formado por policiais, que prestava serviços de segurança pessoal e apoio logístico à organização criminosa.

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A decisão judicial que embasou a operação descreve que o grupo realizava escoltas armadas, transporte de dinheiro e até intermediação de armas para o traficante.

Entre os investigados está o PM Rodrigo da Costa Oliveira, apontado como possível liderança do grupo. Outros policiais citados nas investigações incluem Flávio Cosme Menezes Pereira, Franklin Ormond de Andrade, Ênio Cláudio Amâncio Duarte, Alex Pereira do Nascimento, Leonardo Cavalcanti Marques, Ricardo Pereira da Silva e Rodrigo de Oliveira Carvalho. Segundo a PF, os policiais atuavam como uma segurança privada do traficante, acompanhando deslocamentos e compromissos pessoais.

Delegacia investigada por extorsão

Outra frente da mesma investigação revelou suspeitas ainda mais graves dentro da própria Polícia Civil.

A PF aponta que o delegado Marcus Henrique de Oliveira Alves, então titular da 44ª DP (Inhaúma), e seu irmão, o comissário Franklin José de Oliveira Alves, teriam exigido R$ 1,5 milhão de Índio do Lixão para encerrar uma investigação policial contra o traficante.

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Segundo o documento judicial, intermediários ligados ao criminoso chegaram a discutir encontros e negociações com os policiais. Em conversas interceptadas, o próprio traficante se refere ao policial envolvido como “o safado da 44”, ao questionar aliados sobre uma reunião que trataria da negociação.

A investigação aponta ainda que pessoas próximas ao traficante — incluindo sua esposa, um amigo e seu irmão — chegaram a ser intimadas pela delegacia, o que teria servido como forma de pressão no esquema.

Em nota, o Ministério Público do Rio (MPRJ) afirmou que "em 2025, dois dos grupos especializados do MPRJ (GAECO e GAESP) denunciaram à Justiça 144 agentes públicos envolvidos em práticas ilícitas. Além disso, as Promotorias de Justiça junto à Auditoria da Justiça Militar apresentaram, no mesmo ano, 186 denúncias contra 261 policiais militares. Entre os delitos apontados nas denúncias estão organização criminosa, corrupção, peculato, homicídio, fraude, entre outros crimes contra a administração pública e contra a vida".