A presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, acusou nesta segunda-feira a líder opositora e vencedora do Prêmio Nobel da Paz María Corina Machado de fazer um “show” com seu retorno ao país, que incluiu um deslocamento por estrada acompanhado por milhares de apoiadores, após dez meses no exílio.
A declaração ocorre em meio às negociações sobre a transição democrática venezuelana, conduzidas por representantes da oposição e pelo governo interino com o apoio dos Estados Unidos. Contexto: María Corina Machado retorna à Venezuela após quase dez meses no exílio e pressiona por novas eleições
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— Ela poderia evitar o show. Os aeroportos estão aí — afirmou Delcy, em declarações transmitidas pela televisão estatal.
A líder da oposição venezuelana e laureada com o Prêmio Nobel da Paz, María Corina Machado, acena com uma bandeira da Venezuela ao cumprimentar apoiadores após sua chegada a Caracas, em 25 de outubro de 2026 FEDERICO PARRA / AFP
María Corina apareceu de surpresa no domingo em Barquisimeto, no oeste da Venezuela, e iniciou uma viagem de 400 quilômetros até Caracas, que levou várias horas. O deslocamento mobilizou milhares de apoiadores em diferentes estados, provocou congestionamentos nas estradas e foi marcado por manifestações de comemoração.
— Um novo capítulo se abre para o país — afirmou Glendis Pirela, de 44 anos, que se juntou à multidão com o neto nos braços. Para Julia Puerta, professora de 42 anos, “as portas se abrem para uma nova Venezuela”.
Transição democrática A capacidade de mobilização demonstrada por María Corina, a figura mais influente da oposição venezuelana, ao voltar para o país aumenta a pressão sobre o processo de transição e reacende o debate sobre seu papel nas negociações.
A chefe de comunicação do partido de María Corina, Claudia Macero, reafirmou nesta segunda-feira que a líder opositora está disposta a se reunir com Delcy. — María Corina manifestou sua disposição de se sentar à mesa não apenas com Delcy, mas com quem quer que seja necessário, diante do país e com total transparência, com uma agenda para que essas coisas aconteçam — ressaltou.
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Embora sua agenda ainda não seja conhecida, Macero assegurou que “nas próximas horas ela deverá se dirigir ao país”. Eleições livres
María Corina não foi incluída na mesa de diálogo, mas afirmou que não criaria obstáculos ao processo. Com seu retorno, as expectativas se concentram em sua participação nas negociações iniciadas em agosto.
— Há um processo de discussão em uma mesa de diálogo, há um processo de tutela (...), mas as pessoas sentem que falta uma cadeira nessa mesa, e essa cadeira é a delas — destacou Macero durante entrevista à emissora local Unión Radio nesta segunda. — Acho que o papel de María Corina é ouvir as propostas das pessoas e incorporá-las à discussão.
Relembre: María Corina Machado tenta voltar à Venezuela três vezes em 24 horas enquanto Delcy Rodríguez está na ONU O secretário de Estado americano, Marco Rubio, afirmou no domingo que o retorno da líder opositora foi um “resultado direto” do processo de “reconciliação” promovido na mesa de diálogo com vistas à transição democrática.
Nesta segunda-feira, Rubio contou que o governo americano havia dito às autoridades interinas da Venezuela, semanas atrás, que María Corina deveria poder retornar ao país sem problemas — Conversamos com as autoridades interinas há semanas e semanas — disse ele a jornalistas, acrescentando que Washington explicou que a líder “deveria ter permissão para retornar sem contratempos” ao país.
Delcy Rodríguez governa a Venezuela interinamente desde a captura de Nicolás Maduro, em uma operação militar americana realizada em janeiro. Washington exerce forte pressão sobre seu governo e promove na Venezuela um plano de três fases que prevê a realização de eleições livres, ainda sem data definida.
A mesa de diálogo pretende coordenar esse processo por meio de acordos que melhorem as condições para uma transição democrática. A União Europeia afirmou nesta segunda-feira que o retorno de María Corina representa uma “oportunidade” para avançar no diálogo “com vistas à realização de eleições livres e justas”.
'Data da libertação': Em entrevista exclusiva, María Corina Machado prepara tentativa de voltar à Venezuela e cobra eleições A opositora está impedida de disputar eleições.
Na última rodada de negociações, foi acordada a revisão das leis que restringem a participação política na Venezuela, sem que ela fosse mencionada diretamente. O partido de María Corina, Vente Venezuela, exige a realização de eleições presidenciais em 2027.
A legenda denunciou fraude no pleito de 2024 e sustenta que seu candidato, Edmundo González Urrutia, venceu Maduro. — Acredito que, quando a data for anunciada aqui, os venezuelanos terão a certeza de que a mudança está chegando — disse Macero.
(Com AFP)
O Globo