Defesa de tenente-coronel diz que mensagens enviadas à esposa foram descontextualizadas; promotores citam caráter possessivo e autoritário

 

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A defesa do tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto, acusado de feminicídio e fraude processual, afirmou estar “estarrecida” com a decretação da prisão preventiva do oficial nas esferas da Justiça Militar e da Justiça comum. A equipe jurídica informou que pretende recorrer ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) e estuda a impetração de habeas corpus. Sobre as mensagens utilizadas pelo Ministério Público para justificar a prisão, os advogados alegam que houve descontextualização e exposição indevida de aspectos da vida privada do investigado.

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Em nota, a defesa declarou que “seguem sendo divulgadas informações e interpretações que alcançam aspectos de sua vida privada, muitas vezes por meio de conteúdos descontextualizados, ocasionando exposição indevida e repercussões que atingem sua honra e dignidade”.

Os advogados acrescentam que “a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem constituem direitos fundamentais assegurados pela Constituição Federal”.

De acordo com promotores do Ministério Público, mensagens encontradas no celular do oficial, acusado de matar a própria companheira, revelariam comportamento descrito como “possessivo, controlador e autoritário”.

Segundo a investigação, dois dias antes do crime, o tenente-coronel definiu, em conversa com a vítima, sua visão sobre o papel da mulher no casamento: “Eu te trato como todo homem macho alfa trata sua esposa — com amor, carinho, atenção e autoridade de macho alfa provedor e fêmea beta obediente e submissa. Como toda mulher casada deve ser”.

Em outro momento, ao ser elogiado pela companheira, ele teria escrito: “Sou mais que um príncipe, sou rei… provedor, soberano”.

Para o Ministério Público, as declarações evidenciam comportamento machista e sentimento de posse que teriam motivado o crime após a vítima manifestar intenção de se separar.

As investigações também citam episódios de humilhação financeira. Em mensagens de 2 de fevereiro de 2026, o oficial cobra a companheira pelos gastos da casa, listando valores de alugue condomínio e contas: “E você investe quanto? Não tem dinheiro, blz. Investe amor, carinho, atenção, dedicação, sexo… mas nem isso você faz”.

Em resposta, a vítima escreveu: “Por mim separamos. Não vou trocar sexo por moradia, ponto final”. Conversas anexadas ao inquérito indicam que ela pretendia deixar a residência do casal.

As mensagens também foram usadas para apontar possíveis agressões anteriores ao dia do disparo fatal. Em 6 de fevereiro, a vítima escreveu ao marido: “Você não me respeita, não sabe conversar. Ontem enfiou a mão na minha cara”.

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Além das conversas, pesam contra o oficial laudos periciais que indicam que a cena do crime teria sido manipulada para simular suicídio, além do fato de ele ter tomado banho para eliminar vestígios de pólvora, contrariando orientações policiais no dia dos fatos. O tenente-coronel foi denunciado por feminicídio por motivo torpe e fraude processual, tanto na Justiça Militar quanto na Justiça comum.

A defesa também criticou a existência de dois decretos de prisão pelo mesmo fato. “Ante o recente decreto dúplice de prisão do tenente-coronel pelos mesmos fatos, tanto perante a Justiça Militar quanto pela Justiça comum, a defesa encontra-se estarrecida pela manutenção da competência de ambas as jurisdições”, afirmaram os advogados.

Os defensores também sustentam que o militar não tentou se ocultar e apresentou espontaneamente comprovante de endereço à Justiça. Ele foi preso na manhã de quarta-feira (18), em uma residência em São José dos Campos, no interior paulista.

“Local onde foi cumprido o mandado de prisão, ato ao qual, embora manifestamente ilegal, pois proferido por autoridade incompetente, não se opôs, tendo mantido a postura adotada desde o início das apurações de colaboração com as autoridades competentes”, declarou.

Tiro por trás

Gisele Alves Santana, 32 anos, encontrada morta com um tiro na cabeça em seu apartamento no Brás, região central de São Paulo, no mês passado. Inicialmente, o caso foi tratado como suicídio, levando em conta o relato do seu companheiro, que estava no apartamento. A polícia chegou inclusive a liberar o local para limpeza, sem maiores investigações. O caso, porém, foi ganhando novos contornos.

Os laudos necroscópicos e pós-exumação apontam que o tiro que Gisele recebeu foi desferido com a arma encostada à têmpora direita, de baixo para cima. Além disso, ela foi abordada por trás, com a mão esquerda do agressor apertando sua face e pescoço. A arma foi empunhada e disparada pela mão direita do atirador, segundo os exames.

Outro ponto que levantou suspeitas foi a posição da arma usada no crime. Quando os primeiros policiais chegaram ao apartamento, viram a vítima caída na sala, em frente à televisão. Em sua mão direita, a arma estava presa a um de seus dedos, o que é inusual em casos de suicídio. Em geral, o revólver se solta das mãos, segundo pessoas que conhecem esse tipo de situação. Diante das evidências, os investigadores afastaram a hipótese de suicídio.

"O mosaico probatório, portanto, afasta a hipótese de suicídio e indica que Gisele foi abordada por trás, com mão esquerda do agressor na mandíbula/face e arma na mão direita dirigida à têmpora direita; após o disparo, o corpo foi deposto ao chão, houve escoamento sanguíneo e manipulações subsequentes (inclusive posição da arma na mão), com limpeza/banho do autor, sendo o investigado a única pessoa com ela antes do fato e o primeiro a intervir na cena, o que robustece a autoria em seu desfavor", diz trecho do despacho do juiz militar.

Visão do box para a sala

Além de fazer a perícia no local do crime, os policiais civis realizaram uma reprodução simulada do ocorrido no apartamento em que Gisele morava com o marido. Um dos pontos que chamaram a atenção dos investigadores foi o fato de Geraldo Neto ter dito que tomava banho quando ouviu o disparo de uma arma, vindo da sala. Na sequência, ele teria visto, pelo vidro do box e pela porta do banheiro, a esposa caída.

Porém, para os peritos, a dinâmica do local impediria que Geraldo Neto tivesse tal visão. Além disso, com uso de resíduos e substâncias, eles localizaram marcas de sangue no banheiro, tanto no box quanto nas paredes e no piso.

"A reprodução simulada e a perícia (...) identificaram luminol positivo no box, paredes, piso e registros do banheiro usado pelo investigado, toalha rosa com reação positiva e bermuda jeans dele com padrão de gotejamento latente, tudo em frontal contradição com a versão de que não teve contato com o sangue nem manipulou a cena. Ainda, a reconstrução tridimensional do ambiente concluiu que, da porta do banheiro, não era possível visualizar o corpo na posição registrada nas fotos de chegada dos socorristas, com ou sem a árvore de Natal na sala, contrariando a narrativa do investigado".

'Segundo banho'

Assim que os primeiros socorros chegaram ao apartamento de Gisele, juntamente com os primeiros policiais, Geraldo Neto teria dito que iria tomar banho, o que foi desaconselhado pelos agentes no local. No relato do próprio tenente-coronel, ele já teria tomado um banho naquela manhã. Mesmo assim, voltou a entrar no chuveiro, o que foi visto pelas autoridades como uma forma de alterar provas.

"O cenário encontrado pelas primeiras equipes já se mostrava atípico; que o investigado apresentou narrativa incompatível com dados objetivos extraídos de imagens, áudios e registros telefônicos; que surgiu posteriormente com os cabelos molhados, embora o piso da sala não estivesse molhado; e que, mesmo após o início do atendimento da ocorrência, insistiu em tomar novo banho e trocar de roupa, em conduta potencialmente apta a comprometer vestígios periciais relevantes", revela trecho descrito por peritos em um dos laudos apresentados no processo.

Assédio no trabalho

Segundo colegas de trabalho de Gisele, em depoimentos citados na decisão judicial, o relacionamento do casal era marcado por episódios de ciúmes e comportamento controlador por parte do marido.

Os relatos dão conta de que o tenente-corone frequentemente comparecia ao local de trabalho dela, mesmo não tendo atribuição funcional ali. De acordo com as declarações, ele se utilizava de sua condição hierárquica (inicialmente como major, depois como tenente coronel) para entrar na Seção de Logística, permanecendo por vezes longos períodos, sentado próximo a Gisele e observando suas atividades, o que causava desconforto entre os integrantes da equipe.

As testemunhas relataram episódios em que o tenente-coronel Neto teria criado situações constrangedoras, chegando a protagonizar discussões no interior da seção. “Também foi relatado que, mesmo em momentos em que a Sd PM Gisele demonstrava intenção de manter maior autonomia ou distância do Oficial, este continuava comparecendo com frequência ao ambiente de trabalho da policial, chegando inclusive a acompanhar seus horários de saída e permanência na seção”, diz o despacho.

“Ainda segundo os elementos apresentados, o investigado teria utilizado sua posição hierárquica para desqualificar profissionalmente a vítima, proferindo ofensas e menosprezando sua condição funcional, chegando a afirmar que ela deveria ‘arrumar um soldado’, em evidente manifestação de desprezo não apenas à sua condição de mulher, mas também à sua posição dentro da estrutura da Corporação”, diz a decisão.