Dirigente comunista e prefeito de Santos eleito pelo PT, em 1992, como successor de Telma de Souza (1944-2026), David Capistrano Filho (1948-2000) voltou à moda nesta eleição presidencial. A frase dele, de acordo com o resgate do jornalista Breno Altman, “o PT é um partido formado por soldados vietnamitas (a militância), sargentos americanos (os quadros médios) e generais paraguaios (a cúpula)” diverte até os chefes da agremiação. E faz todo sentido.
Para atestá-la, tenho uma passagem com o saudoso médico sanitarista que entra no contexto do debate de ontem, na Rede Bandeirantes, entre o presidente da República e um organizador de milícias, suspeito de lavagem de dinheiro, enriquecido por esquemas como rachadinhas de salários de servidores públicos e comprometido com a entrega das riquezas do Brasil aos Estados Unidos. Pelo nome de batismo, Flávio Nantes Bolsonaro.
Em outubro de 1992, David chegara em vantagem ao segundo turno da disputa pela Prefeitura de Santos. Eu estava ao lado dele para ajudar em alguns pontos da nova etapa da campanha. Ele me convidou a acompanhá-lo a uma reunião na TV Tribuna, a afiliada em Santos da Rede Globo, onde seriam apresentadas, para as devidas observações das candidaturas, as regras para um debate direto entre os candidatos da situação, o próprio David, e da oposição à direita, Vicente Cascione, do PDS. Este, nos tempos do regime militar, era conhecido como “porco” entre os militantes comunistas, mas essa é outra história.
Ao apresentar as regras propostas para o debate entre os candidatos a prefeito, o responsável da TV Tribuna informou que o desejo da emissora era de uma discussão em cinco blocos, com perguntas livres entre os candidatos, para que tudo ficasse mais quente. “Queremos sangue, entendem?”, pontuou o profissional.
Na volta da emissora para o comitê de campanha, no carro, eu perguntei ao David: “você sabe de quem é o sangue a que o chefe da TV se referiu?”. O eloquente Capistrano, como era chamado pelos santistas, também costumava fazer longos silêncios antes de falar. Era como estava naquele momento. Eu mesmo respondi: “É o seu sangue, David, que vai correr no estúdio com essa forma de debate sem divisões por temas, sem organização e livre para ataques à gestão da Telma que você representa”. Continuei: “Para quem é governo, debate tem de ser sobre temas: educação, saúde, finanças, tem de ser sobre gestão, que de resto é o que interessa ao eleitor e é o que você tem a apresentar”.
A ponderação que apresentei ao David foi levada por ele à direção local do PT, que tratou de pleitear os ajustes no encontro televisivo. David ganhou a eleição e entrou para a história, ombreado a Telma, como o melhor prefeito que a cidade já teve: despoluiu as praias, acabou com a epidemia de Aids e criou as policlínicas, modelo de atendimento de saúde pública adotado posteriormente em todo o País.
Ontem, o formato do debate era propício para haver sangue, e, pelo que assisti, foi o de Lula que escorreu. Precisamente porque não se discutiu governo, mas permitiu-se um vale-tudo. Leniência absoluta dos âncoras Eduardo Oinegue e Adriana Araújo ao deixarem, desde o primeiro instante, o bolsonarista postar-se como papagaio de pirata às costas de Lula fazendo gestos negativos e expressões. Permitiu-se a esculhambação do confronto. Ninguém na plateia de lulistas para avisar com um gesto, uma palavra ou um grito sobre o que estava acontecendo, não chega a ser decepção. Um estúdio de TV, para leigos, parece uma sala de visitas do Reino dos Céus, em que nada precisa ser mudado, tudo é perfeito. Inibe.
Quem vai, pelo partido, discutir regras de um debate, precisa ficar esperto. O ponto 1 é obrigar os âncoras a chamarem Lula de “presidente”, porque é isso o que ele é. Não é somente um “candidato”, qualificação que o nivela ao adversário e, portanto, já lhe tira uma condição real, existente. Exigir, em adendo, uma discussão sobre temas é fundamental. Endereça ao que interessa ao governo, que é mostrar realizações e, ao mesmo tempo, obriga o adversário de oposição a fazer propostas e não ficar apenas em provocações e xingamentos. Barrar a existência de plateias, como registrou em vídeo o colunista Alex Solnik, é mais uma medida necessária. Evita dispersão dos debatedores, provocações de toda ordem e ruídos indesejados.
Fica a lição, espera-se, para o debate da Globo, marcado para a sexta-feira, 23, dois dias antes do pleito. A prosseguir a regra do vale-tudo, Lula terá de fazer o que não sabe e, a rigor, nem pode fazer: descer ao nível dos esgotos da comunicação dos quais advêm embustes como Flávio Bolsonaro e seus asseclas.
No próximo debate, ainda mais decisivo, o eleitoralmente correto é trazer o candidato da extrema-direita à luz, onde pode ser derrotado pela falta de propostas, ou melhor, pelo pouco que se sabe do tanto que ele já promete fazer contra o Brasil e o povo brasileiro. Está nas mãos dos generais do PT realizar o ajuste. Os soldados vietnamitas estão fazendo a sua parte nas ruas, nas gigantescas manifestações de apoio que ninguém na campanha acreditava serem possíveis. Defendendo a sua própria gestão, mostrando as realizações, avanços e tantas vitórias sociais, Lula tem todas as condições para virar o jogo sobre o meliante. A condição é que tenha ambiente televisivo para fazer isso, o que não existiu no estúdio da Band.
Brasil 247