No mais recente debate presidencial exibido pela TV Globo, o embate político ultrapassou os limites do confronto ideológico e descambou para o campo das assunções discriminatórias. Ao tentar atacar o adversário Luiz Inácio Lula da Silva, o candidato Flávio Bolsonaro utilizou uma retórica que escancara duas formas estruturais de preconceito na sociedade brasileira: o capacitismo e o etarismo (ou idadismo).
A declaração provocativa — “dá com uma mão e tira com os nove dedos” — não foi apenas uma metáfora agressiva. Trata-se de um ataque abertamente capacitista.
Ao instrumentalizar a amputação de um dedo decorrente de um acidente de trabalho histórico como uma marca desqualificadora, o discurso reduz o sujeito à sua diferença física e deslegitima a vivência da classe trabalhadora, que frequentemente enfrenta sequelas corporais em suas jornadas.
Em outro momento, as insinuações sobre a dicção e a forma de se comunicar de Lula buscam induzir a plateia a uma associação entre envelhecimento e perda de capacidade cognitiva. Ao tentar insinuar que a fala do oponente decorre de uma suposta limitação pela idade avançada, o candidato recorre à infra-humanização linguística e ao etarismo.
Essa tática busca destituir a pessoa idosa de sua agência política e intelectual, sugerindo um “vácuo cognitivo” preexistente baseado puramente no marcador etário. Ao recorrer à desqualificação do corpo e da idade, a política deixa de debater propostas e passa a legitimar violências simbólicas.
Nomear essas práticas por seus conceitos corretos — capacitismo e etarismo — é o primeiro passo para exigir que o espaço público seja pautado pelo respeito à diversidade humana e pela dignidade de todos os corpos e idades.
Brasil 247