De Tóquio a Lisboa, as livrarias que valem uma visita nas férias
Na capital do Japão, uma loja vende um único título por semana; em Maastricht, os livros são oferecidos em uma igreja gótica; em Londres, em uma barcaça; e em Veneza, em gôndolas e banheiras: um percurso global para leitores exigentes.
Agatha Christie vive: Novas edições, série no streaming e exposição marcam 50 anos de morte da escritora e centenário de best-seller
Brasileiros lá e cá: Restrição à imigrantes é tema da eleição presidencial e da literatura produzida por brasileiros em Portugal
Não há mesas abarrotadas de lançamentos nem cartazes de desconto. Há uma cafeteira ligada, poucas capas bem escolhidas e leitores que não têm pressa. Nessas livrarias, comprar um livro não é um procedimento rápido, mas uma experiência pensada nos mínimos detalhes. Em diferentes cidades do mundo, projetos singulares estão repensando o formato tradicional: apostam na curadoria, na arquitetura e no encontro entre pessoas.
Leituras de verão: conheça 9 livros cheios de sol e calor, de Dostoiévski a Elena Ferrante
Em Paris, a Shakespeare and Company funciona há mais de um século como um santuário literário às margens do Sena: além de vender livros, abriga escritores viajantes, organiza leituras e preserva uma tradição boêmia que atravessou guerras, censuras e gerações. Em Buenos Aires, o El Ateneo Grand Splendid transformou um teatro centenário em uma livraria monumental, onde o antigo palco hoje é um café e as poltronas deram lugar às estantes, mostrando que o livro também pode dialogar com a memória arquitetônica. No Porto, a Livraria Lello atrai leitores e turistas com sua escadaria de madeira entalhada e vitrais modernistas, enquanto em Seul a Starfield Library aposta em estantes de treze metros de altura dentro de um shopping, levando a leitura ao coração do consumo de massa.
Cartão-postal: Livraria da rede El Ateneo que ocupa o antigo teatro Grand Splendid, em Buenos Aires: seis mil visitantes nos fins de semana, com brasileiros liderando o ranking de turistas estrangeiros
Divulgação
Apesar das diferenças de estilo e escala, todas compartilham a mesma busca: transformar a compra em experiência e devolver ao livro sua dimensão espacial. Diante do avanço do comércio digital e da lógica do clique imediato, essas livrarias propõem outra temporalidade — uma que privilegia o percurso, a contemplação e o encontro.
Morioka Shoten (Tóquio)
No bairro de Ginza, um dos mais exclusivos de Tóquio, a Morioka Shoten leva o minimalismo ao extremo: vende apenas um livro por semana. Fundada em 2015 pelo livreiro Yoshiyuki Morioka, funciona sob um princípio radical: um ambiente, um título.
Durante seis dias, o espaço se transforma em torno dessa obra, com pequenas exposições, objetos e, às vezes, encontros com autores. Não há estantes infinitas nem recomendações algorítmicas. Apenas uma escolha. A proposta elimina a ansiedade do excesso e devolve à leitura seu caráter deliberado. Seu Instagram registra cada “capítulo” semanal do projeto.
Boekhandel Dominicanen (Maastricht)
Boekhandel Dominicanen em Maastrich, nos Países Baixos
Divulgação/Boekhandel Dominicanen
Em Maastricht, a leitura acontece sob abóbadas góticas. A Boekhandel Dominicanen ocupa uma igreja dominicana do século XIII, convertida em livraria em 2006. Entre vitrais, arcos medievais e estantes contemporâneas de aço, convivem mais de 50 mil títulos.
O antigo altar hoje funciona como café. Caminhar por seus corredores é percorrer séculos de história com um livro na mão. Considerada uma das livrarias mais bonitas do mundo, é também um exemplo de como o patrimônio arquitetônico pode ganhar nova vida sem perder a identidade.
Libreria Acqua Alta (Veneza)
Livraria Acqua Alta, em Veneza
Divulgação/ Instagram/Acqua Alta
Veneza propõe outra forma de resistência. Diante das inundações recorrentes, a Libreria Acqua Alta decidiu se adaptar à água em vez de combatê-la. Ali, os livros repousam em banheiras, caixas impermeáveis e até em uma gôndola em tamanho real.
O percurso é labiríntico e visualmente exuberante: corredores estreitos, pilhas de volumes e uma famosa escada construída com livros fora de uso. A seleção mistura exemplares novos, usados e raros, e sua estética, nascida de uma necessidade prática, acabou se tornando marca registrada.
Word on the Water (Londres)
Livraria Word on the Water, em Londres
Divulgação/Word on the Water
Em Londres, a literatura navega. A Word on the Water funciona dentro de uma barcaça da década de 1920 ancorada no Regent’s Canal, perto de King’s Cross. Nasceu como livraria itinerante e hoje tem base fixa.
Vende livros novos e usados, mas também organiza leituras de poesia, música ao vivo e encontros ao ar livre durante o verão. Mais do que um ponto comercial, é um pequeno centro cultural flutuante. Ali convivem recomendações de leitura com cenas cotidianas sobre a água.
Livraria Bertrand (Lisboa)
Livraria Bertrand, em Lisboa
Divulgação/Bertrand
A história mais longa vem de Lisboa. Fundada em 1732, a Livraria Bertrand detém o recorde do Guinness como a livraria mais antiga do mundo em funcionamento ininterrupto. Localizada no bairro do Chiado, sobreviveu ao terremoto de 1755, a revoluções e a crises econômicas.
Hoje, combina sua sede histórica com uma rede de filiais em Portugal, mas mantém seu valor simbólico: é um testemunho vivo de quase três séculos de leitores.
Cada uma à sua maneira — pela radicalidade conceitual, pela arquitetura, pela adaptação climática ou pela memória. Essas livrarias propõem algo além de vender livros. Convidam a ficar, a observar, a escolher com calma. E lembram que, mesmo na era digital, ler continua sendo uma experiência profundamente física.
