De 'tirania' a pedido de apuração: os motivos que fizeram Tarcísio moderar discurso no Sete de Setembro em São Paulo

De 'tirania' a pedido de apuração: os motivos que fizeram Tarcísio moderar discurso no Sete de Setembro em São Paulo - Foto
Fonte da notícia: O Globo O Globo

A diferença dos discursos que o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) fez no 7 de Setembro de 2025 e no mesmo evento deste ano, nesta segunda-feira, na Avenida Paulista, em São Paulo, foi bem estudada. Enquanto no ano passado ele usou termos duros, como "tirania" e "ditadura", ao se referir ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), pegando até aliados de surpresa, desta vez as citações foram mais amenas e genéricas, embora não tenha deixado de mencionar o nome de Moraes.

– As últimas revelações sobre o Moraes, sobre o Supremo, precisam de resposta. Quando há dúvida acerca da conduta e o exercício da magistratura, uma resposta institucional precisa ser dada. Está na hora do tribunal se unir para dar apurar e dar a resposta que a sociedade precisa. A gente precisa relembrar de uma máxima: absolutamente ninguém está acima da lei, ninguém está acima da Constituição. Banqueiro, senador, ministro, governador e presidente nenhum está acima da Constituição. Todos precisam se submeter à lei. Deveria ter uma frase em cada gabinete em Brasília, o preço da grandeza é a responsabilidade. Se você quer ter grandeza, preste contas, não tenha medo, esclareça. Isso é fundamental neste momento – disse Tarcísio. No ano anterior, tanto a forma quanto o conteúdo foram em tons bem acima do registado não apenas nesta segunda (7), mas também no dia a dia do governador.

— Ninguém aguenta mais a tirania de um ministro como o Moraes, ninguém aguenta mais o que está acontecendo neste país. Será que a gente está vivendo um estado livre, democrático? Certamente não. É esse cenário que a gente tem que mudar. É por isso que a gente está aqui para dizer para o Hugo Motta, paute a anistia! Hugo, paute, paute a anistia! – disse Tarcísio, há um ano.

Também ao contrário do ano passado, a organização do evento desta segunda na Avenida Paulista ficou a cargo do Partido Liberal, ou seja, não foi uma manifestação de terceiros - em 2025 o evento foi organizado pelo pastor Silas Malafaia -, mas uma realização da campanha de Flávio Bolsonaro.

E é justamente devido à presença do senador do PL na corrida eleitoral presidencial que Tarcísio optou por modular o discurso este ano. Além disso, há outras razões. Veja abaixo: Arrependimento Visto como ponderado em suas palavras e gestos, Tarcísio, ao levantar o dedo e falar em "tirania" e "ditadura" do Supremo em 2025, pegou aliados de surpresa, que esperavam, na ocasião, um "mais do mesmo", dado o histórico de discursos até aquele momento. Porém, após a fala do ano passado, ocasião em que o governador era visto como o principal nome da direita e do centrão para concorrer à Presidência da República, o próprio Tarcísio chegou a falar com interlocutores que havia se arrependido das palavras. Um dos resultados disso foi um período em que passou a evitar agendas públicas e entrevistas coletivas. Depois que o caso foi sendo esquecido, Tarcísio não voltou a subir o tom em manifestações públicas.

Se distanciar de Flávio Bolsonaro Desde as primeiras ligações entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro virem a público, há quatro meses, o governador de São Paulo vem mantendo um "distanciamento estratégico" do senador, como forma de não se "contaminar com as encrencas" do presidenciável, nas palavras de um aliado de Tarcísio. Embora a campanha de Flávio viva um momento relativamente favorável nas pesquisas e tenha conseguido, pelo menos por ora, superar a crise, é justamente a questão de imprevisibilidade que faz com que Tarcísio não "entre de cabeça" na empreitada do filho de Jair Bolsonaro. Sem saber se poderão aparecer novos "esqueletos no armário", de acordo com um aliado do governador, sua postura vai ser a de "falar o menos possível", sobretudo fora de ambientes bolsonaristas.

Atrair voto 'Tarula' A divulgação de uma pesquisa Quaest há duas semanas mostrou que Tarcísio consegue atrair uma parte do voto de esquerda no estado que naturalmente estaria inclinado ao ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad (PT). O fenômeno do voto “Tarula” inclui eleitores que se declaram apoiadores do presidente Lula, candidato à reeleição. Esse movimento também foi detectado pelas pesquisas internas da campanha à reeleição, razão pela qual Tarcísio não teria motivos para radicalizar discursos neste momento da campanha.

Projetar cenário para 2030 Assim que o nome do governador foi tirado de cena por Jair Bolsonaro para concorrer à presidência, em dezembro passado, Tarcísio passou a focar apenas na sua candidatura à reeleição em São Paulo, Mas o assunto federal não foi totalmente esquecido, apenas teve sua data postergada. Sem chances de concorrer contra Lula em 2026, o governador, caso reconduzido ao Palácio dos Bandeirantes, poderá almejar voos maiores, daqui a quatro anos, sem depender de seu padrinho político, pois, na avaliação de um aliado, a "fatura de 2022 já está paga", ou seja, Tarcísio se mantém fiel ao ex-chefe, mas sem precisar depender de seu nome para concorrer a presidente no pleito seguinte. Sem Bolsonaro por perto, Tarcísio vai precisar, assim como já vem contando em São Paulo, com eleitores e aliados de centro.

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