De temporada histórica a vices e questionamentos a Filipe Luís: como Flamengo mergulhou na crise em 2026
Está instalada de vez a crise no Flamengo. A equipe campeã da Libertadores e do Brasileirão em 2025 segue incapaz de encontrar seu rumo no novo ano, e perdeu o segundo título em um espaço de quatro semanas. Após o vice na Supercopa do Brasil, para o Corinthians, o rubro-negro não conseguiu reverter a vantagem construída pelo Lanús, perdeu por 3 a 2 nesta quinta-feira e viu os argentinos deixarem o Maracanã com a taça da Recopa Sul-Americana. Na noite que completou 100 jogos como treinador, Filipe Luís vive seu pior momento, desgastado internamente e xingado pela primeira vez nas arquibancadas.
O resumo destes primeiros 11 jogos de 2026 é de muita irregularidade e uma equipe que se arrasta em campo, passando longe de ter a mesma solidez defensiva e volume ofensivo de outrora. Além de ter sido vazada em nove dos 11 jogos com o elenco principal, perdeu o repertório na frente e o treinador não consegue fazer funcionar o ataque mais móvel que tem batido na tecla. Ontem, no desespero, houve um exagero de cruzamentos pouco efetivos.
Fatores que explicam este desastre até aqui na temporada são vários, desde o aparente esgotamento tático da proposta de Filipe Luís, a queda latente no desempenho individual de vários jogadores e, claro, o nível físico coletivo aquém do esperado. Se tantos nomes estão mal ao mesmo tempo, é inevitável apontar o dedo para quem os comanda.
Filipe Luís amarga vice do Flamengo na Recopa
MAURO PIMENTEL / AFP
O presidente Luiz Eduardo Baptista, o Bap, passou a aumentar o tom das cobranças desde a derrota na Argentina, na semana passada, e apesar de não haver uma indicação de troca de treinador, Filipe Luís está na mira. Após o vice no Maracanã, ele deu muitas declarações curtas na coletiva e até a família apareceu publicamente para oferecer suporte no estádio.
O ex-lateral de 40 anos vive sua maior crise no cargo e precisa mostrar sua capacidade de gestão de elenco, tudo isso dois meses após renovar seu contrato na sequência de uma temporada histórica, com os títulos da Libertadores e do Brasileirão. Mas, mesmo com o técnico e grande parte do elenco mantido, além da chegada de reforços do calibre de Lucas Paquetá, contratação mais cara da História do clube, o Flamengo desmorona.
O planejamento fez diferença?
Há questionamentos sobre o planejamento tomado para o início deste novo ciclo. O Flamengo parece “pagar pelo sucesso" da temporada passada, que terminou no dia 17 de dezembro, na final da Copa Intercontinental, contra o PSG. Seria impossível ter um mês de férias, como manda a lei, por causa do calendário comprimido pela Copa do Mundo deste ano. O elenco foi um dos últimos da elite do futebol brasileiro a se reapresentar — em 12 de janeiro —, decisão que ainda não permite análises a longo prazo, mas que prejudicou, sim, este primeiro momento.
O mau desempenho da equipe sub-20, que perdeu as duas primeiras rodadas do Carioca (Bangu e Volta Redonda) e empatou o jogo com a Portuguesa, adiantado por conta da data da Supercopa do Brasil, fez com o que a diretoria apressasse o retorno do elenco principal. Com apenas nove dias de trabalho, a equipe teve ótima apresentação na vitória contra o Vasco, mas perdeu para o Fluminense, e a eliminação no Estadual — para disputar o quadrangular do rebaixamento — foi um risco iminente.
No final das contas, a combinação de resultados fez o Flamengo se classificar e agora estar com um pé na final, após bater o Botafogo nas quartas e o Madureira no jogo de ida da semifinal. Só que o torneio contribuiu para aumentar a pressão. E a eventual decisão, diante do Vasco ou de um Fluminense que é um dos principais times desta temporada até agora, pode deflagrar nova dor de cabeça em caso de mais um vice.
Flamengo e Corinthians decidem a primeira taça da temporada na Supercopa do Brasil na tarde deste domingo, no Estádio Mané Garrincha, em Brasília.
Brenno Carvalho/ Agência O GLOBO
No início do mês, a equipe perdeu a Supercopa para um Corinthians que se mobilizou claramente para o encontro em Brasília. Quando venceu a Copa do Brasil, o clube paulista terminou sua temporada ainda mais tarde, no dia 21 de dezembro, mas voltou antes e estava à altura da exigência da decisão.
Também entra na conta o começo lento no Brasileirão. O Flamengo tem apenas uma vitória em três jogos e fez três apresentações muito decepcionantes — derrota para o São Paulo, empate com o Internacional e triunfo contra o Vitória. A insatisfação se acumulou até chegar na Recopa, o torneio que desencadeou a crise de vez.
Na Argentina, a equipe deu apenas um chute e poderia ter perdido por um placar muito mais elástico. Autor do gol do 1 a 0 do Lanús, Rodrigo Castillo teve dois gols anulados, encontrando espaços com muita facilidade. No Maracanã, Filipe Luís tentou diversas mudanças na escalação, mas a equipe foi nula e só sobreviveu graças aos dois pênaltis marcados e convertidos por Arrascaeta e Jorginho.
O Flamengo volta a campo na segunda-feira, para sacramentar a vaga na final do Carioca, após ter vencido o jogo de ida contra o Madureira por 3 a 0. Mas esta vai ser a última coisa a ser comemorada. A Libertadores e o Brasileirão, torneios prioritários do calendário, ainda estão em estágios iniciais, mas é urgente voltar aos trilhos.
