De surras de cinto na infância a paz entre gangues, saiba o que é verdade e ficção em 'Michael'

 

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“Michael”, a nova cinebiografia sobre a triunfante e traumatizada vida de Michael Jackson, passou por caras refilmagens depois que os representantes do artista descobriram um acordo judicial dos anos 90 que impedia o filme de retratar uma criança que alegou ter sido abusada sexualmente pelo astro na época. Em vez disso, o conflito central do filme se dá entre o patriarca do Jackson 5, Joseph Jackson, e o grupo familiar que ele levou ao estrelato, em especial Michael, o carismático vocalista.

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Nesta versão da história, o filme ficcionaliza algumas histórias e se mantém fiel aos fatos em outros momentos. Abaixo, avaliamos o que é fato ou ficção, com base na pesquisa para o livro “MJ: The Genius of Michael Jackson”:

Joseph Jackson batia em Michael com um cinto quando ele era pequeno e chamava o filho de "Narigudo"?

Sim, as surras realmente aconteceram, segundo os dois. Michael acusou o pai (interpretado por Colman Domingo) de surras com cinto e "cordas de ferro". Joseph disse à BBC: "Eu chicoteava com uma vara e um cinto. Eu nunca batia nele — você bate em alguém com um pedaço de pau." No filme, a mãe de Michael, Katherine, confronta Joseph: "O que você vai fazer, bater nele? Vai espancá-lo?" Mas, em uma entrevista à CNN em 2013, Katherine Jackson defendeu o marido: "Eu não achava que ele fosse muito duro", e acrescentou: "Se você fizesse algo errado, levava uma bronca e também uma surra."

Quanto a “Narigudo”, foram os irmãos de Michael que deram esse apelido cruel de infância, de acordo com o livro de J. Randy Taraborrelli, “Michael Jackson: The Magic, the Madness, The Whole Story 1958-2009”. Embora o Guardian e outras publicações tenham sugerido que Joseph Jackson também o chamava assim, o pai de Michael negava.

Michael Jackson teria intermediado uma trégua entre gangues de Los Angeles?

Sim, de certa forma. Ele queria um conceito de dança inspirado em “West Side Story” para seu curta-metragem “Beat It” e instruiu seu empresário na época, Ron Weisner, a se encontrar no centro de Los Angeles com membros das gangues Crips e Bloods — com a presença de seguranças. As gangues concordaram em participar e chegaram ao galpão de ensaio em dois ônibus. O dançarino Popin Pete relembrou: “Eles se transformaram nas pessoas mais legais do mundo”.

Walter Yetnikoff, da CBS, gravadora de Michael Jackson, fez uma ligação ameaçadora para a MTV que resultou na exibição dos vídeos do artista em questão de horas?

Há relatos conflitantes. Em sua autobiografia, "Howling at the Moon", Yetnikoff, que faleceu em 2021, afirmou ter feito essas ameaças, com o apoio do produtor Quincy Jones. Executivos da Epic Records, gravadora pertencente à CBS na época, concordam: ele ligou para Bob Pittman, então CEO da MTV Networks, e, fazendo referência a outros artistas da CBS, disse: "'Sabe todos aqueles vídeos do Bruce Springsteen, Cheap Trick e Charlie Daniels que vocês estão exibindo aí?'", lembrou Ron McCarrell, executivo de marketing da gravadora. "'Juntem todos, coloquem numa caixa e mandem de volta.'"

Mas executivos da MTV contestam essa versão. "Isso nunca aconteceu", disse Les Garland, executivo da emissora na época. "É folclore, cara, folclore." De qualquer forma, "Billie Jean" estreou em março de 1983 e passou a fazer parte do canal até então quase exclusivamente de artistas de rock brancos.

Michael Jackson demitiu seu empresário — seu pai, Joseph — por fax?

Não. Joseph disse que contratou os empresários de Michael do início dos anos 80, Weisner e Freddy DeMann, e disse a eles: "Não estamos conseguindo o que precisamos da gravadora, então preciso de alguns caras brancos para me ajudarem". Isso gerou uma troca de mensagens na revista Billboard, na qual Joseph se referiu a Weisner e DeMann como "ajudantes brancos", e Michael disse que a declaração do pai "dava ânsia de vômito". Em março de 1983, justamente quando "Thriller" estava decolando, ambos os contratos de gerenciamento expiraram, e Michael recorreu a Frank DiLeo, seu amigo e promotor na Epic Records, para gerenciá-lo até o início dos anos 90.

O cabelo de Michael Jackson pegou fogo durante a gravação do comercial da Pepsi, em 1984?

Sim. A versão do filme "Michael" sobre o ocorrido é bastante precisa, como mostra um vídeo do incidente publicado pela Us Weekly em 2009, incluindo membros da equipe apagando as chamas no topo da cabeça dele. "Ele estava literalmente em meio a uma bola de fogo", disse um membro da equipe de iluminação.

O filme retrata Jackson e seu advogado, John Branca (Miles Teller), discutindo um acordo milionário com a PepsiCo, que Jackson exige que seja doado a um centro de tratamento de queimaduras. O valor real foi de US$ 1,5 milhão, segundo a revista People e outras reportagens, e possibilitou a criação do Centro de Queimados Michael Jackson no então chamado Centro Médico Brotman, em Culver City, Califórnia. O centro fechou em 1987, e o prédio do antigo centro médico é hoje o Hospital Southern California.

O que o filme não mostra: Depois de deixar o hospital, Jackson começou a tomar analgésicos, o que, segundo ele afirmou posteriormente em um comunicado, levou à dependência.

Joseph Jackson disse que sem a receita da Victory Tour de 1984, estrelada por Michael e seus irmãos, eles “perderiam tudo”?

Não exatamente. Mas, justamente quando a carreira solo de Michael estava decolando, Joseph e os irmãos Jackson viviam problemas financeiros. Joseph se encontrou com promotores de shows sem o conhecimento de Michael e negociou com o empresário do boxe Don King (interpretado por Deon Cole), que garantiu US$ 3 milhões à família, muito mais do que os concorrentes.

Jackson morou com seus pais na casa da família, na Hayvenhurst Drive, no bairro de Encino, em Los Angeles, mesmo depois do sucesso de “Thriller”?

Sim. Embora Branca tenha ajudado Michael a comprar um apartamento de três quartos em Encino no início dos anos 80, o Rei do Pop não conseguia se separar da mãe, então permaneceu na casa da família até comprar o Rancho Neverland, em Los Olivos, Califórnia, em 1988.

Jackson mantinha animais exóticos, incluindo o chimpanzé Bubbles e uma girafa, na casa de Hayvenhurst?

Sim. A família Jackson acumulou pavões, tigres, leões, avestruzes, cães e um papagaio, além de Bubbles, que usava macacão OshKosh B’Gosh e aprendeu a buscar sorvete Häagen-Dazs no congelador. Quanto à girafa, o Los Angeles Times noticiou que funcionários do governo da Califórnia removeram o animal de 6 meses, que não possuía licença, da casa dos Jackson em 1986.

Joseph Jackson encontrou o filho em casa, depois que Michael estava com o rosto enfaixado devido à sua primeira rinoplastia, e disse: "Meu Deus, Michael"?

Não. Em sua autobiografia de 2011, "You Are Not Alone: ​​Michael Through a Brother's Eyes", Jermaine Jackson afirma que foi ele, e não Joseph, quem interceptou Michael. "O que diabos aconteceu com você?", Jermaine se lembra de ter perguntado. Embora Michael não tenha respondido (nem dito que era por causa dos seios nasais, como faz no filme), Jermaine foi informado posteriormente de que seu irmão precisou de uma rinoplastia após uma queda em casa.

O filme faz com que o papel de Quincy Jones na produção de "Thriller" pareça mínimo. Isso é verdade?

Não. Jones foi um colaborador crucial nos três primeiros álbuns solo pós-Motown de Michael Jackson: "Off the Wall", "Thriller" e "Bad". Embora Michael tenha escrito “Beat It”, “Billie Jean” e outras canções com a ajuda de sua “Equipe B”, composta por profissionais de estúdio que trabalhavam com ele na casa de Hayvenhurst, a “Equipe A” de Jones, incluindo o compositor de “Thriller”, Rod Temperton, membros da banda de rock Toto e o baixista Louis Johnson, foi fundamental na criação do som e da estrutura dos três álbuns. Jones e Jackson trabalharam em estreita colaboração nos dois primeiros álbuns e só começaram a se distanciar durante a produção de “Bad” (1987).

Michael teve a ideia para o título “Thriller” depois de uma maratona de filmes de terror?

Não. Temperton, o compositor de “Off the Wall”, estava trabalhando em uma música chamada “Starlight” quando acordou em seu quarto de hotel com a palavra “thriller” na cabeça. Embora Michael adorasse filmes de terror e, posteriormente, tenha tido a ideia para o videoclipe de “Thriller” porque queria interpretar um monstro, Jackson e Jones optaram pelo título do álbum depois que Temperton reescreveu a letra.