De Sinatra a Bowie, passando por Tintim: veja como a arte imaginou a Lua muito antes da Nasa

 

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O périplo de dez dias ao redor da Lua da Missão Artemis II interrompeu um hiato de 54 anos sem viagens tripuladas ao satélite natural da Terra, com o fim do programa Apolo. Mas antes destes dois projetos da Nasa, a agência espacial americana, serem concretizados, a viagem à Lua já havia sido feita e sonhada várias vezes pela imaginação humana. Quando Ártemis e Apolo ainda eram divindades cultuadas no cotidiano do Império Romano, ela foi descrita pela primeira vez por Luciano de Samósata (125-181 a.D.) em sua “História verdadeira” — uma obra satírica, a começar pelo título, em que o protagonista conhece extraterrestres ao ser levado à Lua por um redemoinho.

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Escritor nascido na costa da Turquia que viveu quando o cristianismo começava a se difundir pelo Império Romano, Luciano queria criticar a realidade ao seu redor com a viagem lunar. Nos séculos subsequentes, o tema voltou a ser usado como símbolo de escapismo, de uma forma cômica ou romântica, ou de isolamento (como mostra a expressão “no mundo da Lua”).

Nessas duas páginas, lembramos algumas das criações musicais, literárias e do audiovisual que fizeram e fazem as pessoas viajarem para a Lua mesmo sem nunca terem percorrido os 384.400 quilômetros que a separa do planeta Terra.

Baby, me leva

O cantor Frank Sinatra

Divulgação

“Fly me to the moon” foi composta por Bart Howard como uma valsa, com o título de “In other words”. E como tal foi gravada pela primeira vez pela atriz e cantora Kaye Ballard, em 1954. O nome foi mudado por Bart em 1963. No ano seguinte, quando chegou a vez de Frank Sinatra gravá-la com a orquestra de Count Basie, o arranjador Quincy Jones mudou o andamento da canção, que ganhou um balanço mais jazzístico. Foi assim que a música ganhou sua forma definitiva como melhor exploração da metáfora do amor capaz de levar o apaixonado às estrelas.

Rock espacial

David Bowie (Cantor)

Arquivo O Globo

A exploração espacial incentivou novos ângulos também na música pop. “Space Oddity”, lançado por David Bowie (acima) nove dias antes da chegada à Lua, apresentou o primeiro dos personagens interpretados pelo Camaleão do Rock: o astronauta Major Tom, isolado no espaço do contato com a Terra. “Rocket Man” (1972), outra balada sobre a solidão no espaço (inspirada em um conto do escritor Ray Bradbury de 1953), se tornou obrigatório nos shows de Elton John (à direita). E o R.E.M. de Michael Stipe (à esquerda), em 1992, reinterpretou em “Man on the moon” a frase “podemos colocar um homem na Lua” que se tornou metáfora de conquistas que parecem mas não são inatingíveis, depois de falada pelo presidente John Kennedy em um discurso um ano antes de morrer, em 1962.

Quadro a quadro

'Tintim na Lua', de Hergé

Reprodução

No mundo dos quadrinhos, antes de Neil Armstrong, houve Tintim. O jornalista criado pelo belga Hergé integrou a primeira viagem espacial para fora da Terra em uma história de duas partes: “Rumo à Lua” (1953) e “Explorando a Lua” (1954). O restante da tripulação não era a mais recomendável: o rabugento e beberrão Capitão Haddock, o cachorro de Tintim, Milu, e o distraído professor Girassol, criador do foguete em que viajaram. Mas Hergé procurou ser bastante realista no restante da história, ilustrando os efeitos da falta de gravidade e escolhendo uma cratera real da Lua, a Hiparco, para fazer pousar o foguete quadriculado da saga. O artefato, aliás, foi inspirado nos foguetes V-2, usados pela Alemanha nazista para matar civis na Inglaterra durante a II Guerra e criados por Werner von Braun, que anos mais tarde liderou a missão Apolo da Nasa. Mas essa é outra história, que não cabe em quadrinhos onde o papéis de herói e vilão são bem definidos.

Para o alto e avante

Cena de '2001 - uma odisseia no espaço', filme de Stanley Kubrick

Reprodução

Em “2001, uma odisseia no espaço”, adaptação para o cinema do livro de Arthur C. Clarke lançada em 1968 por Stanley Kubrick que ainda hoje impressiona pela beleza de suas imagens e o fim hermético, a Lua é um ponto transição. É na cratera Clavius, uma das maiores do satélite, que cientistas descobrem um monolito negro semelhante ao que aparece no início do filme, na chamada “Aurora do homem”. O objeto é um sinal de que alguém havia chegado antes do homem à Lua. E a sequência antecipa a parte final, que se passa em uma viagem ainda mais distante, em direção a Júpiter.

Houston, deu ruim

Bill Paxton, Kevin Bacon e Tom Hanks em cena do filme "Apollo 13 - do desastre ao triunfo"

Reprodução

Depois de “Apollo 13” (1995), com Bill Paxton, Kevin Bacon e Tom Hanks, a frase “Houston, temos um problema” passou a ser empregada frequentemente em quaisquer situações onde alguém tem de avisar que algo saiu errado. O filme recupera o fracasso do que iria ser a terceira chegada do homem à Lua, em 1970. Para garantir que o filme não tivesse erros, ao contrário da missão que retratou, o diretor Ron Howard usou a assistência da Nasa e conseguiu rodar cenas em um ambiente de gravidade próxima de zero com um avião usado para treinar astronautas pela agência espacial.

A primeira sci-fi

'Viagem à Lua', de Georges Méliès

Reprodução

O francês Georges Méliès se baseou na obra de Júlio Verne (no pé da página) em “Os primeiros homens da Lua”, publicado em 1901 pelo britânico H.G. Wells, para roteiro de “Viagem à Lua”, pioneiro entre os filmes de ficção científica. Méliès usou os melhores recursos de animação e de efeitos especiais disponíveis em 1902 para o seu filme mudo, que ainda é considerado um dos melhores já feitos. E deixou ao menos uma imagem icônica: a da Lua com um dos olhos atingido pela cápsula em forma de bala de revólver que transporta os personagens até ela.

Negacionismo na tela

Scarlett Johansson e Channing Tatum em cena de “Como vender a Lua”

Reprodução

Uma pesquisa do Datafolha divulgada no mês passado mostra que um terço dos brasileiros não acredita que o homem chegou à Lua. Para brincar com essa desconfiança disseminada é que foi feita a comédia “Como vender a Lua”, em que Scarlett Johansson é uma especialista em marketing contratada pela Nasa para simular a chegada ao satélite e trava um embate com o diretor de lançamentos interpretado por Channing Tatum. Mas atenção, é uma comédia, não “inspirada em fatos reais”. E romântica, como indica o título original, tirado do sucesso de Sinatra do alto da página ao lado.

‘Triunfo fálico’

O escritor W.H.Auden em Nova York

Sam Falk/NYT

A chegada à Lua, em 1969, impressionou o mundo. Mas não W. H. Auden. O poeta inglês viu na façanha o que hoje chamaríamos de masculinidade tóxica. Em “Moon landing”, publicada dois meses depois de Neil Armstrong pisar no satélite, desdenhou o que chamou de “triunfo fálico” que só poderia ser imaginado e executado por homens, que entendem “mais de coisas do que de sentimentos”. Desconfiado da tecnologia e apegado à cultura clássica, Auden lembrou que os heróis de Homero eram tão bravos quanto Armstrong, Buzz Aldrin e Michael Collins — mas “Heitor escapou do insulto de ter seu valor coberto pela televisão”.

A ficção antes do fato

'Da Terra à Lua', de Jules Verne

Reprodução

Em 1865, o criador da ficção científica como gênero literário, Julio Verne, antecipou alguns dos procedimentos usados nas missões espaciais reais um século depois. Como o conceito de velocidade de escape, necessária para anular a força gravitacional da Terra. Em “Da Terra à Lua”, um canhão gigante é construído por um clube de especialistas em artilharia para disparar um projétil que permitisse a três personagens chegar ao corpo celeste mais próximo do nosso planeta. A missão quase dá certo, e esse “quase” levou a “Ao redor da Lua”, uma continuação da história por Verne com muitos pontos em comum com o que viveram os astronautas da Artemis II. Inclusive o final feliz, em que os astronautas fictícios também são resgatados no Oceano Pacífico.

A primeira espaçonave

Bruce Gomlevsky como Cyrano de Bergerac

Divulgação

Cyrano de Bergerac (1619-1655) é mais conhecido como personagem da peça de Edmond Ronstand (ao lado, interpretado por Bruce Gomlevsky). Mas também foi um autor de ficção científica avant la lettre, que descreveu pela primeira vez o que seria uma espaçonave em “Viagem à Lua”, história cômica publicada só dois anos depois de sua morte.