De segurança pública a aborto: as afinidades e divergências de Caiado, Eduardo Leite e Ratinho Junior
Interessados na eleição presidencial, os governadores que disputam dentro do PSD a definição de quem será o escolhido pelo partido compartilham visões convergentes, mas também carregam discordâncias. Ronaldo Caiado, de Goiás, Ratinho Junior, do Paraná, e Eduardo Leite, do Rio Grande do Sul, são adversários do governo Lula e adotam posicionamentos críticos à gestão federal nas áreas de segurança pública, educação e economia. Já as diferenças entre eles aparecem sobretudo diante de temas caros ao bolsonarismo, como a anistia, e de assuntos ligados à pauta de costumes, caso do aborto.
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Por ora, o paranaense é visto como o favorito pelo presidente nacional da sigla, Gilberto Kassab, para se candidatar à Presidência, depois da sequência de sinalizações de que o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), ficará de fora do jogo nacional e concorrerá à reeleição no maior estado do país. O dirigente partidário, contudo, não tem fechado as portas para Leite e Caiado. Também há na política quem veja no movimento de Kassab um blefe para aumentar o poder do PSD nas negociações eleitorais — com a possibilidade de a sigla repetir o que sempre fez nas disputas presidenciais e não lançar candidatura própria.
Bolsonarismo
Considerados por Kassab uma alternativa à candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), os três governadores mantêm posições distintas em relação ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), que vieram à tona durante o julgamento da trama golpista, no ano passado. Após a condenação, o governador de Goiás disse, em nota, que a sentença foi “antecipada” quando Bolsonaro teve “negado” o direito de se defender publicamente. Em outras ocasiões, manifestou-se a favor da anistia e afirmou que, caso eleito, concederia indulto ao ex-mandatário.
A hipótese de libertar Bolsonaro também tem sido defendida por Ratinho Junior. No período do julgamento, ele foi menos vocal nas críticas ao processo, mas costuma afirmar que a anistia seria uma oportunidade para “pacificar o país”.
Eduardo Leite, por sua vez, pensa diferente dos correligionários. Saiu em defesa do avanço da ação penal e, após a condenação, disse que a Justiça “cumpriu seu papel”.
As divergências entre os posicionamentos também ficaram evidentes durante a vigência do tarifaço aplicado pelo presidente americano, Donald Trump, a produtos brasileiros. Em resposta ao anúncio, Caiado e Leite criticaram abertamente a atuação do ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) nos EUA, enquanto Ratinho evitou tecer comentários sobre o parlamentar.
À época, no entanto, os três passaram a ser alvos de críticas de integrantes da família e de aliados próximos ao ex-presidente, dado o início das movimentações para candidaturas presidenciais.
Segurança pública
Entre os pontos de aproximação dos possíveis presidenciáveis do PSD, destaca-se o discurso crítico à atuação do governo federal no combate ao crime organizado, intensificado no ano passado após a megaoperação contra o Comando Vermelho nos complexos da Penha e do Alemão, no Rio. A PEC da Segurança Pública, por exemplo, foi alvo de críticas do grupo em encontro na plenária do Consórcio de Integração Sul e Sudeste, em dezembro.
Na ocasião, o governador gaúcho afirmou que o Planalto tem “se esquivado da sua responsabilidade” e que a proposta não seria necessária “para que o governo federal possa entrar com mais força na coordenação e integração da segurança pública”.
Caiado, por sua vez, disse que a gestão Lula “não se mexe” e que o peso da discussão fica para os estados. As críticas têm sido exploradas pelo governador goiano em propagandas políticas veiculadas desde dezembro, logo após o anúncio da candidatura de Flávio.
O assunto também tem sido usado como bandeira em peças publicitárias publicadas por Ratinho nas redes sociais, que enfatizam os investimentos na infraestrutura de segurança do Paraná.
Educação e economia
Também na contramão da gestão Lula, as três administrações estaduais convergem no aval dado ao modelo de escolas cívico-militares, mesmo após o encerramento do programa federal em 2023, apesar de variarem no nível de investimento destinado a esses projetos.
O maior aporte tem sido do governo paranaense, que tem 312 instituições que seguem esse modelo, com pretensão de chegar a 345 neste ano. O estado de Caiado entra em seguida, com 82 escolas no formato, enquanto o Rio Grande do Sul tem menos de duas dezenas.
Os três governadores têm em comum, ainda, a aposta em projetos parecidos para a administração de bens e empresas públicas. No Paraná, por exemplo, o governo planeja proceder em 2026 com a venda da Companhia de Tecnologia da Informação e Comunicação (Celepar), depois de ter concluído o mesmo processo na Companhia Paraense de Energia (Copel), em 2023.
Da mesma forma, Caiado avançou no final do ano passado com o leilão de parte dos ativos da CelgPar, empresa que também atua no fornecimento de energia no estado. Já Leite, além de ter conduzido cinco processos de privatização ao longo de suas duas gestões, defende o modelo de parcerias público-privadas e concessões para a recuperação da infraestrutura do estado desde as enchentes de 2024.
Aborto
As diferenças entre os governadores do PSD voltam a aparecer em discussões ligadas à pauta de costumes, como o aborto. Em 2024, por exemplo, Caiado sancionou uma lei proposta pela Assembleia Legislativa que previa a criação de uma campanha de “conscientização” contra a prática. O texto sugere que as mulheres gestantes, inclusive as que manifestarem interesse em realizar o procedimento, passem por um exame de ultrassom, fornecido pelo estado, a fim de ouvir os batimentos cardíacos do feto.
Já o governador gaúcho, apesar de sinalizar que é contrário à prática, a defende em casos previstos pela lei brasileira — risco à vida da gestante, gravidez decorrente de estupro e anencefalia fetal. Durante uma sabatina do UOL em 2022, também disse que a discussão sobre a ampliação das condições para o procedimento é “complexa”, mas afirmou que ela deveria ser feita “sem qualquer tipo de tabu”.
Ao ser entrevistado pelo mesmo portal de notícias, Ratinho se colocou contra o aborto. Deu como justificativa sua “formação cristã” e disse que não via como necessária a mudança da legislação.
