De saltos impossíveis a formatos inusitados, os sapatos excêntricos estão em alta

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Estrela de A Substância (2024), a americana Margaret Qualley surpreendeu ao aparecer na première de seu mais novo filme, Ponto sem Retorno, quase descalça: usava um saltinho amarrado ao tornozelo, sem sola — criação do estilista Matthieu Blazy para a Chanel. No Festival de Cinema de Londres, no início de outubro, o sueco Alexander Skarsgård apostou num modelo oxford todo transparente de plástico, da Saint Laurent — apesar de combinado com um extravagante terno dourado, foi o calçado que repercutiu nos portais de moda e nas redes sociais.

“Acho que é apenas falta de senso de estilo, mas, pelo menos, estou me divertindo”, já declarou o ator. Outras grifes famosas têm exibido em seus desfiles modelitos inusitados (e um bocado pitorescos): enquanto a Dior lançou sandálias inspiradas nas flores de ninfeias e vitórias-­régias, a última coleção da Rick Owens trouxe como protagonista uma bota de gladiadora altíssima, toda cravejada de cristais.

DESCALÇA – A atriz Margaret Qualley: ela fez barulho com modelo da Chanel que cobre só os calcanhares –Karwai Tang/WireImage/Getty Images Esqueça, enfim, a discrição: quanto mais improvável o modelo, maior o potencial de roubar a cena.

O sapato da vez desafia a função tradicional do calçado com o objetivo de causar estranhamento. Mais que calçar, a ideia é provocar algum tipo de reação — e tem ganhado adeptos no mundo real.

Um episódio emblemático protagonizado pela supermodelo britânica Naomi Campbell ilustra essa lógica. Em 1993, ao desfilar em saltos de Vivienne Westwood com mais de 20 centímetros, ela se desequilibrou e caiu na passarela.

A queda repercutiu tanto que, posteriormente, a modelo contou que outros estilistas chegaram a pedir que repetisse a cena. Não é de hoje que o calçado performático passa uma mensagem: no século XVI, os sofisticados chopines venezianos — plataformas que podiam chegar a 50 centímetros — eram marca de status elevado, usados por mulheres da nobreza e cortesãs de luxo.

Um século depois, Luís XIV popularizou os saltos masculinos como símbolo de prestígio na corte francesa. Continua após a publicidade

EXTRA - A sandalinha “básica” apresentada pela Loewe em Paris: correntes, chaves e pingentes –Divulgação/Divulgação Agora, saltos retorcidos, detalhes teatrais, inspiração animal, flores enormes e transparência aparecem nas semanas de moda não só como sinal de status, mas como território de experimentação, transformando o pé em vitrine.

A tendência dialoga com a teoria do “sapato errado”, popularizada no TikTok: a ideia da trend é optar por um calçado que fuja do óbvio para conferir personalidade a uma roupa básica. “Um sapato interessante, às vezes, resolve um look”, atesta a consultora de moda Gloria Kalil.

Continua após a publicidade O sucesso renovado de modelos que reproduzem o icônico Tabi, da Maison Margiela, reforça essa noção.

Lançado no final dos anos 1980 com inspiração japonesa, o modelo conta com bico dividido que lembra patas de animais, como vacas, e conquistou adeptos que vão da musa Zendaya até Wagner Moura — que usou um clássico da grife ao receber o Globo de Ouro, em janeiro. Até a Havaianas entrou na brincadeira: em Milão, anunciou um chinelo em colaboração com a MM6, linha secundária da maison, que simula o contorno anatômico do pé com um sexto dedo.

Numa cultura saturada de minimalismo, quiet luxury e outras tendências replicadas pelos algoritmos, o sapato excêntrico é um recado: a moda quer voltar a ousar. Dentro da lógica do consumo de luxo, tem ainda outra utilidade.

“Sapatos que ostentam marcas sempre foram apreciados porque, apesar de caríssimos, tendem a custar menos do que roupas das mesmas grifes”, diz Gloria Kalil. Nada como um providencial pontapé na mesmice.

Continua após a publicidade Publicado em VEJA de 23 de outubro de 2026, edição nº 3018

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Publicação Original Notícias Veja veja.abril.com.br
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