Fernando Cupertino Em casa de meus pais, invariavelmente, havia sopa no jantar como prato de entrada.
Somente no período de maior calor é que minha mãe a substituía por uma salada de alface-manteiga, aquela bem macia, já que, à época, a hidropônica ainda não existia. Meu pai fazia questão absoluta da presença da sopa no jantar e nós, crianças, habituamo-nos àquela iguaria, a quem mantenho fidelidade até os dias de hoje.
Era imperativo que a sopa fosse servida quente, numa elegante sopeira assentada no centro da mesa, mas suficientemente perto de minha mãe, que a distribuía aos comensais em múltiplas e generosas conchas. Sim, era preciso ser bem quente, pois a sabedoria ancestral de minha bisavó preceituava claramente : “Deus nos livre de sopa morna!”.
Como era um cardápio de todos os dias, cabia à criatividade de minha mãe evitar a monotonia dos sabores. Assim, era certa a presença da sopa de macarrão, com ou sem caldo de feijão; de batata; de ervilha; de abóbora madura (também chamada de abóbora japonesa, hoje mais conhecida por kabutiá); de milho verde com frango; de arroz com legumes, ou apenas de legumes.
Sobre esta última, quando perguntávamos de que era a sopa, meu pai se adiantava em responder: — Sopa à Lavoisier: nada se cria, nada se perde, tudo se transforma.
E assim estava explicada cientificamente a origem da sopa dos legumes que já havíamos encontrado em outra versão, à hora do almoço, agora transformados em nova roupagem e em distintos sabores graças ao engenho e arte de minha saudosa mãe. Tenho pena que os meninos de hoje não tomem sopa, em sua maioria.
Meus quatro netos, por exemplo, fazem cara de poucos amigos quando lhes ofereço sopa. Não sabem o que é bom e como é reconfortante um bom prato de sopa, especialmente em dias mais frios!
A propaganda termina por introduzir nos hábitos alimentares os chamados alimentos ultraprocessados, onde a qualidade nutricional perde lugar para os aditivos químicos, em combinações que contribuem decisivamente para termos hipertensos e diabéticos em idade cada vez mais precoce.
Uma alimentação saudável, composta de bons ingredientes e preparada adequadamente, nos moldes tradicionais, é um dos passaportes mais seguros para uma boa saúde. Nos dias atuais, esse tem sido um imenso desafio para todos os países, povoados que estão por homens e mulheres com crescentes sobrepeso e obesidade.
As enquetes do sistema Vigitel, do Ministério da Saúde, mostram que nas capitais brasileiras, dentre os maiores de 18 anos, cerca de 60 % apresentam sobrepeso ou obesidade. É hora de pensar se vale a pena substituir, sistematicamente, um bom prato de sopa por hambúrguer ou por outras comidas ultraprocessadas.
A perda é tripla: na qualidade nutricional, no sabor e, sobretudo, na saúde. Fernando Cupertino, médico, compositor e escritor, é colaborador do Jornal Opção.
Jornal Opção