De metalúrgico a presidente do Brasil: a ascensão de Lula da Silva

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Fonte da notícia: Euro News Euro News

Depois da derrota na primeira volta, Lula da Silva conseguiu uma reviravolta histórica para ser reeleito presidente do Brasil na segunda. De volta ao Palácio do Planalto, de onde nem chegou a sair, o líder do Partido dos Trabalhadores (PT) contrariou o histórico desfavorável: desde 1989, ano em que o Brasil voltou a ter eleições presidenciais diretas, estreando ainda o mecanismo de segundo turno, nunca tinha havido uma reviravolta na corrida ao Planalto na segunda volta.

"Eu devo isso a vocês, eu sempre acho que Deus foi muito generoso comigo, porque tem tanta gente mais preparada que eu, tanta gente com mais diploma que eu, tanta gente que já leu mais livros do que eu, tanta gente que já estudou mais do que eu", afirmou no discurso de vitória, a quarta que conta em eleições presidenciais no Brasil.

Lula superou-se a ele próprio: o candidato do PT já tinha perdido para a estatística em anos anteriores, como em 1989, quando ficou 13,3 pontos atrás do rival Fernando Collor de Mello na primeira volta das presidenciais, confirmando a derrota na segunda. De operário a sindicalista, de sindicalista a político, de político a presidente do Brasil.

Nunca houve impossíveis para Lula, que voltou a confirmar com esta eleição que a adversidade não é sempre intransponível. "Quero dizer para vocês que tenho um orgulho muito grande.

Primeiro, porque eu sou o único presidente da República, um metalúrgico, sem diploma universitário, eleito quatro vezes, democraticamente, para pedir paz", disse perante a multidão. Aos 80 anos, 81 amanhã, prometeu "o melhor mandato" da história brasileira.

"Depois de amanhã, dia 27, eu completo 81 anos de idade. E eu quero assumir um compromisso na frente da imprensa e na frente de vocês.

Vou fazer o melhor mandato que um presidente já fez na história desse país", garantiu. Sétimo filho de um casal de agricultores analfabetos, Luiz Inácio Lula da Silva nasceu a 27 de outubro de 1945 na cidade brasileira de Garanhuns, em Pernambuco.

Tinha apenas sete anos quando rumou até São Paulo com a família e 14 quando foi admitido no curso técnico de torneiro mecânico. Antes, já tinha trabalhado como vendedor ambulante, engraxador, ajudante de tinturaria e metalúrgico, profissão que exerceu e defendeu, como sindicalista.

"Lula" começou por ser um diminutivo e foi mais tarde oficialmente incorporado no nome - é o paradigma do operário tornado político: foi como sindicalista e líder das greves dos metalúrgicos na região de São Paulo, durante a ditadura militar, que se tornou conhecido. Da fase em que trabalhava como operário metalúrgico ficou o acidente laboral que lhe causou a perda de um dedo e valeu a alcunha, dada depreciativamente pelos adversários, de "nove dedos".

Foram estas greves, que protagonizou entre 1978 e 1980, que estiveram na origem da fundação do Partido dos Trabalhadores (PT) em 1980. Este haveria de emergir como principal partido da esquerda brasileira após a democratização do país no período 1985-88 e Lula como sua figura cimeira.

Candidato derrotado nas eleições de 1989, 1994 e 1998, chegou finalmente à presidência em 2002, onde ficou por dois mandatos. Foi o primeiro líder sindical e operário a chegar ao Palácio do Planalto.

Da sua herança política, quase todos, pelo menos os que o apoiam, destacam a transformação de um país marcado pela pobreza extrema e pelo analfabetismo num Brasil mais próspero e mais igualitário, através de medidas políticas sociais como a introdução da "Bolsa Família" em 2003 e a criação do programa "Fome Zero".

Lula terminou o primeiro mandato com a aprovação histórica de 57% e foi reeleito em 2006 com mais de 58 milhões de votos, a maior votação da história do Brasil. Os resultados acabariam por dar força à narrativa de Lula de que o Estado pode desempenhar um papel decisivo na redução da pobreza e da fome.

Em 2014, já no governo de Dilma Rousseff, sucessora política de Lula, o Brasil saiu do chamado Mapa da Fome das Nações Unidas, depois de uma redução significativa da subalimentação no país. A evolução foi associada a um conjunto de políticas sociais e económicas.

Politicamente, apresentou-se sempre como defensor do multilateralismo, da diplomacia e de uma ordem internacional em que as decisões não sejam determinadas apenas pelo poder das grandes potências. "A guerra não é a continuação da política por outros meios.

É a falência total da política. Num mundo interdependente, liderar é conciliar os interesses da pátria com os da humanidade.

Essa é a constatação de alguém que representa uma nação amante da paz e da liberdade. Alguém que lutou contra uma ditadura militar e defendeu seu país contra um golpe de estado.

É a convicção de um operário eleito três vezes presidente e que retirou o Brasil do Mapa da Fome", afirmou a 22 de setembro de 2026, durante o seu discurso na 81ª Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova Iorque. Mas os escândalos de corrupção a envolver os nomes de Lula e do PT haveriam de apanhá-lo, limitando-lhe, momentaneamente, a carreira política.

O megaprocesso "Lava Jato" e os subsequentes julgamentos conduzidos pelo juiz Sérgio Moro (futuro ministro de Bolsonaro) ocuparam toda a segunda metade da década de 2010 e levaram inúmeras cabeças a rolar e dezenas de políticos de vários quadrantes à prisão. O processo, envolvendo um complicado esquema de luvas e desvio de fundos tendo no centro a petrolífera semi-estatal Petrobrás e a construtora Odebrecht, foi fulcral na instalação de um sentimento de desconfiança relativamente à classe política brasileira e na emergência do populismo de direita personificado por Jair Bolsonaro.

Lula seria preso em março de 2018, após ter sido condenado a nove anos de prisão, por alegadamente ter recebido um apartamento em troca de favores políticos. Depois de 580 dias detido, Lula foi acabou por ser libertado em novembro de 2019, na sequência de uma mudança de jurisprudência do Supremo Tribunal Federal sobre o momento a partir do qual pode começar a execução de uma pena.

Em 2021, o STF anulou mesmo as condenações do antigo presidente no processo por considerar que o tribunal de Curitiba não tinha competência para os julgar, permitindo ao fundador do PT o regresso à corrida presidencial que acabaria por vencer em 2022. A vitória nas eleições de 2026 representa uma nova etapa de uma história política marcada pela capacidade de "sobrevivência" e de regresso ao poder, muito embora a jornada de vitória pareça agora um pouco mais árdua.

Lula já não encontra o mesmo Brasil que governou nos anos 2000: o país continua profundamente polarizado, o Congresso é dominado pelo centro-direita e o bolsonarismo mantém uma força eleitoral significativa.

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