A estreia de "Man on Fire" colocou Ismael Caneppele diante de uma experiência que amplia uma trajetória construída justamente na contramão de rótulos.
Integrante do elenco da série internacional da Netflix, gravada no México e protagonizada por Yahya Abdul-Mateen II e Alice Braga, o ator acompanha a repercussão da produção enquanto mantém em andamento trabalhos no cinema, na literatura e em outras plataformas.
Para ele, no entanto, circular por diferentes funções nunca foi exatamente uma estratégia de carreira, mas algo que surgiu naturalmente desde o início de sua trajetória.
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A relação entre atuação e escrita começou ainda no fim dos anos 1990, quando Ismael teve sua primeira experiência profissional na "Companhia de Ópera Seca", dirigida por Gerald Thomas.
Durante uma conversa entre os dois, o diretor pediu que ele transformasse em monólogo uma situação que haviam vivido.
O texto foi escrito em português, traduzido para o inglês e apresentado em Zagreb, na Croácia, em 1999, com o título Nowhere Man.
"Foi assim, meio que autorando, meio que atuando, que comecei como ator 'profissional'.
Depois disso, não parei mais de escrever.
Nem de atuar", conta ao GLOBO.
Ismael Caneppele revela por que nunca quis se limitar a uma só função
Divulgação Jorge Bispo
A experiência ganhou outra dimensão no cinema com "Os Famosos e os Duendes da Morte".
Caneppele escreveu o livro que deu origem ao longa, participou da adaptação e interpretou um dos personagens da trama.
O filme, dirigido por Esmir Filho, acabou se tornando uma obra importante em sua trajetória e marcou sua passagem por diferentes etapas da criação audiovisual.
Entre o set brasileiro e uma produção internacional
Em "Man on Fire", o artista encontrou uma dinâmica diferente.
Todas as suas cenas foram gravadas no México, experiência que o aproximou da cultura local e de uma rotina de produção mais intensa.
A altitude superior a dois mil metros, por exemplo, tornou as sequências de ação mais exigentes fisicamente.
"O ritmo é muito intenso, as cenas levam muito tempo para serem finalizadas, e são comuns refilmagens da mesma cena no decorrer das gravações, até tudo ficar perfeito", relata.
As filmagens também coincidiram com setembro, período em que ocorreram alguns tremores na região.
Entre as lembranças que guarda do trabalho, porém, está a convivência com profissionais envolvidos em grandes produções internacionais.
Ele cita Ed McDonnell, produtor de Shōgun, que havia acabado de receber o Globo de Ouro de Melhor Série de Drama quando já estava novamente no set de "Man on Fire".
"Essa proximidade com profissionais envolvidos em produções globais faz o sonho parecer possível", afirma.
Ismael Caneppele fala sobre uma carreira construída entre diferentes formas de criar
Divulgação Jorge Bispo
Apesar de ter construído parte da carreira a partir de projetos autorais, Ismael diz que atualmente se sente especialmente estimulado quando recebe um convite para interpretar uma criação que não nasceu dele.
A diferença está também no tipo de responsabilidade envolvida.
Quando desenvolve um personagem próprio, precisa lidar não apenas com o processo artístico, mas também com produção, parcerias e estratégias para viabilizar a obra.
Já ao chegar a uma produção concebida por outra pessoa, encontra uma estrutura construída por diferentes profissionais.
"Quando sou chamado a atuar em um filme ou série criados por outros autores, me sinto convidado para o melhor dos banquetes", avalia.
Poder ajudar a contar o universo de outro autor, com todo o meu corpo, é imensamente realizador", completa.
Isso não significa abandonar a escrita ou os projetos próprios.
A diferença, para ele, está no estímulo encontrado na colaboração: "Hoje me sinto mais desafiado e animado quando sou chamado para interpretar um personagem na trama de outro artista.
Essa colaboração me anima.
Apesar disso, sigo criando personagens para mim mesmo."
Ismael Caneppele explica por que prefere uma carreira sem rótulos
Divulgação Jorge Bispo
A exposição que acompanha trabalhos destinados a públicos amplos também não parece ser uma preocupação central para o ator.
Ismael explica que procura permanecer o máximo possível offline e, quando sai, costuma deixar o celular em casa.
Ao longo da carreira, porém, já experimentou situações em que a relação com os espectadores ganhou contornos curiosos.
Uma delas aconteceu durante sua participação em "Terra e Paixão", novela em que interpretou Gaudêncio ao lado de Claudia Raia.
O personagem tinha um sotaque gaúcho bastante marcado, escolha que provocou discussões nas redes.
"Grande parte dos comentários ordenavam que a novela contratasse um ator gaúcho 'de verdade' para o personagem, desconhecendo que nasci no Rio Grande do Sul.
Me apelidaram de 'aúcho do Projac'.
Eu me diverti", recorda.
Quem é Ismael Caneppele, ator de 'Man on Fire' que também escreve e dirige
Divulgação Jorge Bispo
Enquanto uma nova produção amplia sua presença no streaming, outra obra importante de sua história voltou a encontrar espectadores.
"Os Famosos e os Duendes da Morte" retornou ao catálogo da Netflix, quase duas décadas depois de Caneppele começar a desenvolver a história.
A primeira ideia surgiu em 2007.
Desde então, o ator e escritor passou a enxergar o longa de outra maneira, sem perder o vínculo afetivo com aquela experiência.
Filmado em película, o projeto nasceu em um contexto em que as limitações técnicas também interferiam diretamente no processo criativo.
"Em arte, os limites moldam e definem a obra", observa.Hoje, ele vê o filme menos como uma criação isolada e mais como um movimento coletivo.
Para Caneppele, a produção ultrapassou a trajetória de seus realizadores e alcançou pessoas que, de alguma maneira, passaram a criar a partir daquele contato.
De 'Man on Fire' aos livros: como Ismael Caneppele transita entre diferentes formas de contar histórias
Divulgação Jorge Bispo
Outra experiência decisiva aconteceu quando Ismael assumiu a direção de "Música para quando as luzes se apagam", documentário baseado em seu primeiro livro publicado.
A obra nasceu de partes de um diário ao qual ele teve acesso.
Ao adaptar o material para o cinema, decidiu seguir por um caminho documental e procurou os personagens relacionados àquela história nos lugares onde viveram.
Foram 13 meses de filmagens e mais de 300 horas de material bruto.
A experiência modificou sua relação com a própria atuação.
"Dirigir um filme te dá a dimensão do todo de maneira prática.
Você entende a engrenagem toda que faz a produção acontecer", detalha.
Segundo ele, assumir a direção o tornou um ator mais tranquilo, disponível para o inesperado e também mais autônomo.
Esse olhar para o conjunto parece acompanhar a maneira como Caneppele pensa seus personagens.
Independentemente da linguagem, existe um elemento que permanece no centro de seu processo: a vulnerabilidade.
"Eu busco sempre encontrar o ponto de dor dos personagens que crio ou interpreto.
A partir desse ponto de fragilidade e vulnerabilidade, começo a criar um jogo de possibilidades e contradições", esclarece.
Para ele, são justamente os conflitos internos que tornam uma história interessante: "Somos aquilo que tentamos esconder.
De nós mesmos, e do outro."
Ismael Caneppele fala sobre carreira entre cinema, literatura e séries
Divulgação Jorge Bispo
A inspiração também costuma surgir longe dos grandes acontecimentos.
Ismael admite preferir histórias reais, encontros e relatos cotidianos.
Tem interesse pela maneira particular como cada pessoa interpreta a própria existência e pelas transformações que podem acontecer sem chamar a atenção de quem está ao redor.
"Gosto de criar tramas íntimas, com revoluções pessoais que podem passar despercebidas pela maioria das pessoas.
O cotidiano me interessa como autor.
Gosto das pequenas histórias", revela.
É também nesse espaço entre o particular e o coletivo que ele encontra uma resposta para o que gostaria que permanecesse depois de seu trabalho.
Caneppele evita definir uma mensagem específica que o público deveria levar de suas obras.
Para ele, a recepção escapa ao controle de quem cria.
Ao lembrar de uma exibição de Música para quando as luzes se apagam, recorda a fala de um espectador: "Esse filme me fez me lembrar de mim".
A frase parece resumir melhor do que qualquer definição o efeito que ele gostaria de provocar.
"Talvez seja isso o que eu gostaria que as pessoas levassem.
Essa possibilidade de se lembrar de si", conclui.
De 'Man on Fire' ao cinema autoral: Ismael Caneppele abre o jogo sobre atuar, escrever e dirigir
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