Um livro com mais de mil páginas, um universo intrigante com necromancia e uma personagem com uma "perda de memória" após uma guerra foram os elementos necessários para que SenLinYu conquistasse uma gama de leitores ao redor do mundo com Alchemised (2025). Em entrevista exclusiva para a Quem, a atração confirmada para a Bienal do Livro de São Paulo trouxe bastidores de seu processo de escrita para esta história e revelou se pretende escrever uma continuação deste universo. Alchemised traz a história de Helena Marino, uma prisioneira de guerra e uma antiga alquimista promissora que perdeu seus poderes após seus aliados serem assassinados em um conflito que devastou seu país, agora sendo controlado por corruptos e necromantes. Mantida em cativeiro, ela é considerada inútil até que seus carcereiros descobrem que suas memórias foram alteradas e questionam qual teria sido sua importância na guerra. Enviada para um dos mais cruéis necromantes, ela precisa enfrentar o passado que não consegue lembrar e descobrir os segredos escondidos em sua mente. SenLinYu conta que o sucesso de seu livro foi inesperado, mas desejado. "Para mim, era muito incerto. Eu estava, obviamente, com muita esperança, mas não sei, sempre tem um nervosismo e a preocupação em ter ambição demais. Definitivamente era uma dúvida, mas veio a animação quando soube o quão bem eu estava me saindo", diz. Parte dos leitores vorazes de SenLinYu está no Brasil, e irá conhecê-los entre os dias 12 e 13 de setembro na Bienal SP, na mesa "Alquimia das Palavras", e em três sessões de autógrafos pela editora Intrínseca. A atração da Bienal nunca esteve na América do Sul e tem expectativas para conhecer o país do verde e amarelo. SenLinYu Reprodução/Instagram "Fiz algumas pesquisas e pedi recomendações no Instagram porque vou estar em São Paulo e depois no Rio, e recebi tantas recomendações que acabei com uma lista enorme. Eu marcava os lugares que recebia a mesma recomendação de várias pessoas, tinha uns 12 a 15 lugares diferentes que me disseram que eu precisava visitar", brinca. "Pesquisei sobre os principais pontos turísticos e enviei para minha editora, dizendo: 'Ok, aqui está o que todo mundo diz que eu deveria fazer. O que podemos fazer?'. Eles montaram um roteiro para mim, levando em consideração minha agenda, para que eu consiga fazer alguns passeios e visitar os lugares", conta. SenLinYu revela que está com um pouco de medo de conhecer a intensidade dos leitores brasileiros, mas que diria a eles: "Estou animada para conhecê-los e espero que valha a pena para vocês".
'Nunca aspirei escrever para todos' Antes do livro físico, a experiência de escrita de SenLinYu era digital, e Alchemized foi inicialmente uma fanfic sobre Harry Potter com foco em um relacionamento dos personagens Draco Malfoy e Hermione Granger. Ao ser oficialmente publicado, esses elementos da história foram totalmente reformulados. Após essa experiência online, SenLinYu conta que tem conseguido lidar bem com a viralização de seu livro. "É interessante porque comecei escrevendo online primeiro e passei por um longo processo de adaptação, inicialmente sem muita interação nas redes sociais, até ter cada vez mais leitores interagindo, tanto positiva quanto negativamente", diz. "Quando Alchemized foi lançado, eu já tinha um sistema bem definido para lidar com críticas e uma relação saudável com elas. Pessoalmente, nunca aspirei escrever para todos. Nunca pensei que queria que todos amassem meus livros. Aliás, se algumas pessoas gostam, é como uma ofensa. Penso: 'Não, isso não é para você. Acho que você não entendeu a mensagem'", brinca. SenLinYu Divulgação "Não vem a tristeza se alguém não gosta, porque sabia que muitas pessoas não iriam gostar. Eu acho mais interessante, criativamente, escrever algo que eu ache envolvente, algo com que realmente me importe, e fazer com que as pessoas também o achem envolvente e se importem com ele, em vez de fazer algo que talvez tenha um apelo muito massivo", afirma. "É como acontece com muitos meios de comunicação ultimamente: eles são aprovados por conselhos administrativos inteiros, CEOs e coisas do tipo, e no final muita complexidade se perde porque eles só querem garantir que todo mundo goste e que ninguém se ofenda com nada", conclui. Alchemized já foi confirmada como próxima adaptação literária para as telonas, mas SenLinYu afirma que não pode falar sobre nada do assunto devido a estar ainda muito na fase inicial. 'Alchemised ' de SenLinYu Divulgação Nos bastidores de Alchemised A ideia de escrever Alchemised chegou a partir de reflexões e inquietações por parte de SenLinYu sobre a necromancia, que consiste em uma prática de magia que permitiria a suposta comunicação com os mortos tanto para obter conhecimentos ocultos quanto para prever o futuro. "Tudo começou quando pensei na exploração humana em vários aspectos, um tema recorrente ao longo da história: a exploração do trabalho feminino, de diferentes classes sociais e de imigrantes. Inicialmente, a forma como comecei a desenvolver a história foi em relação à doação de órgãos, porque conversei com uma amiga que era totalmente contra a doação, considerando-a uma grande violação, mesmo que [a pessoa] não estivesse mais viva naquele momento", resgata. "Achei isso muito interessante e comecei a refletir sobre o dilema ético envolvido e como podemos ter dois grupos: um que acredita que o corpo é sagrado e precisa ser respeitado, que os direitos devem ser respeitados mesmo após a morte; e outro que se concentra na conveniência ou no fato de ser um desperdício de recursos se não forem utilizados". A atração da Bienal acredita que, a partir deste ponto, conseguiria trazer "a necromancia de uma forma interessante, com esse tabu visceral, e me permitiu abordar todos os tipos de questões interessantes, éticas". SenLinYu conta que os temas pesados presentes em sua fantasia sombria são tópicos de sua reflexão constante. "Honestamente, muitas das coisas que explorei na história são coisas sobre as quais costumo pensar, me preocupar e com as quais me vejo lutando. Escrever é frequentemente uma maneira de processar e explorar essas ideias em um espaço imaginário contido, em vez de ter que lidar com a imensidão e a complexidade do mundo real, onde todas as pessoas, todos os elementos, são pessoas reais", diz. "Colocá-los em um mundo imaginário me permite controlar os elementos e observá-los de diferentes perspectivas. Foi uma maneira de processar as coisas com as quais eu estava lutando internamente", complementa. Já para desenvolver seus personagens, o caminho foi ligeiramente diferente. SenLinYu Divulgação SenLinYu conta que primeiro realiza um esboço a partir dos eventos que imagina para a história e das emoções que idealiza que elas apresentem ao leitor. "Se quero que um personagem faça isso ou reaja de determinada maneira, como posso torná-lo essa pessoa de forma que isso faça sentido para ele? Assim, quando ele tiver uma reação que talvez não seja a mais racional ou a melhor, mas faça sentido para os leitores, considerando tudo o que sabem sobre o personagem, eles entendem por que essa é a escolha que ele faz", detalha. "Eu realmente gosto de explorar a psicologia. Quais foram os eventos traumáticos da infância que os moldaram? Quais são seus medos e ansiedades? O que eles mais desejam?", indaga. Outra chave para seus personagens está na comunicação. A atração da Bienal diz achar interessante "a forma como duas pessoas podem estar conversando e ambas acharem que estão em sintonia, mas na realidade, podem ouvir coisas muito diferentes, devido ao contexto de quem são, à situação, à conversa que tiveram antes, aos diferentes significados das palavras, à importância de coisas diferentes". "Elas não estão se comunicando mal de uma forma óbvia, mas quando você vê a conversa pela perspectiva delas, entende completamente por que elas ouvem ou entendem daquela maneira. A partir disso, mais tarde na história, pode haver a revelação de que, na verdade, havia todo um outro contexto que o outro personagem estava trazendo à tona", afirma. SenLinYu comenta que prefere explorar esses significados em entrelinhas no lugar de trazer uma "moral da história" muito clara ao leitor. "Evito o didatismo a ponto de as pessoas sentirem que estou tentando transmitir uma moral muito específica. Obviamente, há temas na história com os quais talvez sejam um pouco diretos demais, como a exploração do trabalho forçado feminino, por exemplo", fala. Os temas que ferem os direitos humanos são tratados como tal, mas SenLinYu conta que, em demais assuntos, gosta de explorar a ambiguidade ética "de coisas como espionagem e até onde você iria para tentar vencer uma guerra terrível quando sabe das coisas horríveis que o outro lado fará e quando você só tem a escolha entre o menor dos dois males. Você não tem uma opção não maligna. Qual escolha você faz?". SenLinYu Reprodução/Instagram Esse lado de Alchemised surgiu de uma insatisfação de SenLinYu, que, em sua jornada literária, conta ter se deparado com personagens que eram apenas vilões ou mocinhos e que o amor resolvia grandes dilemas. "Sentia que a história passava por cima das partes mais interessantes e complexas para ter um final perfeito. Eu queria que Alchemized tivesse um final menos conclusivo, em que o leitor precisasse refletir sobre a história e tentar descobrir por si mesmo se considerava um final feliz ou uma tragédia". A atração da Bienal relata que outro elemento que explorou na obra foi a catarse, uma ideia grega sobre a arte poder servir como uma descarga de emoções reprimidas para o seu público, que voltaria para sua vida comum sem lidar de fato com esses sentimentos diretamente. "Uma das ideias que eu queria explorar em Alchemized era justamente essa de proporcionar essa sensação de catarse na história e depois retraí-la um pouco. Assim, mais uma vez, os leitores tiveram que refletir sobre isso pessoalmente, sobre o significado da história, em vez de eu simplesmente dizer: 'Aqui está a conclusão, aqui está a moral, aqui estão os mocinhos, aqui estão os vilões'. Fica muito mais a cargo do leitor lidar com esse tipo de desconforto". Após tanta intensidade em mais de mil páginas, SenLinYu revelou se pretende continuar Alchemized ou escrever mais histórias parecidas. "No futuro imediato, não pretendo fazer muito mais nesse mundo. Tenho um conto ambientado nesse universo; não é muito extenso. É possível que, no futuro, eu volte e escreva um livro que se passe em um dos países vizinhos. Um lugar sobre o qual já ouvimos falar um pouco, mas que não vimos de perto", especula. "Seria nesse mesmo universo, com o mesmo sistema de magia, mas não acho que voltaria a Paladia, que é o país onde a história se concentra. Esse não é um projeto que tenho para o futuro imediato. Tenho muitas outras coisas que quero escrever primeiro", prevê. SenLinYu Reprodução/Instagram
Revista Quem