De ex-pastor ao topo do funk: quem é MC Negão Original, investigado em esquema de golpes digitais com apostas on-line

 

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O funkeiro João Vitor Ribeiro, conhecido artisticamente como MC Negão Original, tornou-se alvo de uma investigação da Polícia Civil de São Paulo nesta terça-feira (24), durante a operação “Fim da Fábula”. A ação mira um esquema de golpes digitais em larga escala que, segundo os investigadores, teria movimentado cerca de R$ 100 milhões por meio de fintechs e plataformas de apostas on-line.

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Coordenada pelo Departamento de Investigações Criminais (Deic) em parceria com o Ministério Público de São Paulo, a operação cumpre 120 mandados de busca e apreensão e 53 de prisão temporária em diferentes cidades de São Paulo, Minas Gerais e no Distrito Federal. A Justiça também determinou o bloqueio de bens e valores ligados aos investigados, além da restrição de dezenas de contas bancárias. Entre os golpes apurados estão fraudes conhecidas como “golpe do INSS”, “falso advogado” e “mão fantasma”, além do uso de cartões clonados e centrais telefônicas falsas.

Nas redes sociais, MC Negão Original acumula milhões de seguidores e costuma exibir uma rotina marcada por luxo e ostentação. No Spotify, reúne mais de 11 milhões de ouvintes mensais e ganhou projeção com músicas como “Medley de Igaratá” e “Pirocada Quente”. Seu álbum A Nata de Tudo – A Ovelha Negra chegou ao topo do ranking global de estreias da plataforma.

Do crime, à fé e ao funk

Nascido em São Paulo, o artista costuma descrever a própria trajetória como marcada por contrastes. Em entrevista ao portal Metrópoles, afirmou que entrou para o crime ainda jovem por necessidade financeira. Segundo ele, o objetivo era ajudar a mãe em casa em um momento em que precisou escolher entre trabalhar ou continuar os estudos.

Antes de alcançar notoriedade no funk, João Vitor teve forte ligação com a religião. Durante a adolescência, chegou a atuar como pregador em uma igreja evangélica e viajou para outros estados participando de cultos. Ao mesmo tempo, relatou que também se envolvia com atividades ilícitas, incluindo tráfico e golpes on-line, fase que mais tarde descreveu como parte de um processo de transformação pessoal.

Uma passagem por uma clínica de acolhimento na juventude, onde permaneceu por cerca de seis meses, foi apontada por ele como um momento de reflexão. A experiência, segundo o cantor, reforçou sua espiritualidade e a percepção de que precisava mudar de rumo.

Personagem nas redes e ascensão no funk

A virada para a carreira artística veio a partir de vídeos publicados na internet, nos quais relatava histórias da periferia e utilizava gírias que viralizaram entre seguidores. O próprio artista afirmou que percebeu ali a criação de um personagem que acabou impulsionando sua popularidade.

Com a visibilidade nas redes, passou a investir na música e adotou o nome MC Negão Original. Incentivado por outros nomes do funk paulista, começou a gravar em estúdio e rapidamente ganhou espaço nos bailes. De acordo com sua equipe, o cantor chegou a realizar dezenas de shows em um único mês, com cachês que podem chegar a cerca de R$ 30 mil por apresentação.

Suas músicas se inserem na vertente conhecida como “proibidão” paulista, marcada por letras que retratam o cotidiano das periferias, ostentação e referências ao crime. O estilo, segundo especialistas e artistas do gênero, reflete debates mais amplos sobre liberdade de expressão e os limites das narrativas dentro do funk.

Entre polêmicas e novos projetos

Em entrevistas recentes, o funkeiro afirmou que tenta separar a vida pessoal da figura artística. Disse também que se considera uma pessoa espiritualizada, apesar de não frequentar atualmente uma igreja específica. “Na igreja, no crime e no funk eu tive destaque”, escreveu em uma publicação nas redes sociais ao comentar sua trajetória.

Além da música, MC Negão Original já fez uma participação na série “DNA do Crime”, da Netflix, e declarou ter interesse em seguir carreira como ator. Sua história, marcada por passagens pela religião, pelo crime e pela cultura do funk, chegou a ser comparada à trama da série “Sintonia”, que aborda realidades semelhantes nas periferias de São Paulo.

Agora, o nome do artista aparece ligado à investigação policial que apura um dos maiores esquemas recentes de golpes digitais no país. O caso segue sob apuração das autoridades.