Alguns restaurantes guardam parte da alma de uma cidade. Os nova-iorquinos têm o Sardi’s, um ponto de referência no distrito teatral onde, há muito tempo, personalidades da Broadway se reúnem para tomar martinis e saborear canelones gratinados. Em Paris, por muitos anos, esse papel coube ao Les Deux Magots, local onde gerações de escritores escreveram, preocuparam-se e trocaram fofocas. Turismo no Peru: experiência combina jantar sob as estrelas, astrofotografia e vista para o Huascarán EUA: cinco locações de filmes de terror para entrar no clima de Halloween E em Londres? Pode-se citar o Rules, uma instituição de 228 anos com um cardápio focado em caça, uma carta de vinhos robusta e galhadas de animais adornando praticamente todas as paredes.
Fundado por Thomas Rule em 1798 como um bar de ostras, o estabelecimento tem, tanto quanto qualquer outro, o direito de reivindicar o título de restaurante mais antigo de Londres; entre seus frequentadores, destacam-se nomes como Charles Dickens, William Makepeace Thackeray, Ava Gardner e Liza Minnelli. Agora, o restaurante planeja continuar servindo sua culinária inglesa indefinidamente. O National Trust, uma organização beneficente britânica dedicada à proteção e preservação do patrimônio do país, anunciou na quarta-feira que se tornou o novo proprietário do número 34-35 da Maiden Lane — o edifício em Covent Garden que abriga o Rules —, bem como de seu interior, caracterizado por uma decoração singular e ornamentada. O imóvel foi doado ao National Trust por seu proprietário, John "J-P" Mayhew. Em um comunicado, Mayhew afirmou que desejava garantir que o restaurante — e seus "dois séculos de histórias" — fossem protegidos para sempre. Segundo o National Trust, o valor da propriedade doada ultrapassa 11 milhões de libras (cerca de R$ 74,50 milhões), e os termos do contrato de locação estabelecem que o local só pode ser utilizado como restaurante. De Recife a Oslo: uma lista de passeios inspirados nos candidatos a melhor filme no Oscar de 2026 Ricky McMenemy, proprietário do restaurante e funcionário da casa há mais de 30 anos, explicou que a lógica por trás da decisão era simples. O setor de restaurantes enfrenta uma crise atrás da outra, e os aluguéis em Londres são proibitivos. McMenemy, que continuará à frente do restaurante na condição de locatário comercial, observou que, embora Mayhew esteja comprometido com o Rules, um futuro proprietário poderia não compartilhar da mesma visão. — Não haveria, necessariamente, nada que os impedisse de transformar o edifício em apartamentos — disse ele. Mas, hoje, o restaurante é protegido como algo vivo e pulsante. McMenemy pontua que o local" não fossilizado, nem mantido sob uma redoma", mas sim preservado. A fundação (Trust), segundo ele, dedica "o mesmo cuidado e atenção aos detalhes para garantir que o estabelecimento permaneça em seu melhor estado". Elite de todas as esferas Ao longo dos séculos desde sua inauguração no coração de Covent Garden, o restaurante serviu a elite londrina e grandes nomes das letras, a realeza e seus frequentadores habituais. O rei Eduardo VII, que reinou de 1901 até sua morte em 1910, frequentava suas mesas repletas de história. Quando jovem, ainda como Príncipe de Gales, ele cortejou sua amante, Lillie Langtry, entre aquelas paredes. ("Com certeza", confirmou McMenemy.) De fato, o Rules era tão importante para Langtry que ela encomendou, assinou e doou uma pintura que, até hoje, permanece exposta sobre o bar de coquetéis. Dickens era um cliente habitual. Graham Greene, que escreveu um século mais tarde, costumava aparecer por lá em todos os seus aniversários, segundo o National Trust. (O Rules batizou uma de suas salas de jantar privativas em homenagem a ele.) A partir de 2027: Disney anuncia novo cruzeiro com musical inédito de ‘Encanto’ e atrações de ‘Toy Story’ Greene incluiu o restaurante em seu livro "Fim de Caso" ("The End of the Affair'), publicado em 1951. O casal atormentado, protagonista desse romance ambientado no pós-guerra, dá seu primeiro beijo após um jantar no local. "É possível apaixonar-se diante de um prato de cebolas? Parece improvável, e, no entanto, eu poderia jurar que foi exatamente naquele momento que me apaixonei", reflete o narrador, Maurice Bendrix. Muitos outros personagens britânicos da ficção também passaram por lá: M, interpretado por Ralph Fiennes, janta no restaurante no filme de James Bond "007 Contra Spectre", e a série "Downton Abbey" gravou várias cenas no local. (John Le Carré costumava frequentar o estabelecimento; o Rules aparece brevemente em seu romance "A Casa da Rússia".) Em 1971, o poeta John Betjeman defendeu o Rules contra planos de demolição que visavam alargar uma via próxima. Você viu? Trump libera uso de rosquinhas com gordura de bacon para atrair ursos e facilitar caça no Alasca Em um discurso durante uma reunião de planejamento urbano, ele comparou o restaurante a um local de culto: "Um lugar que tem sido constantemente frequentado por atores, empresários e personalidades famosas, como é o caso do Rules, adquire uma atmosfera invisível — da mesma forma que uma igreja, frequentada por pessoas em oração, acaba por adquirir uma atmosfera própria". Nem todos, porém, eram admiradores. 'Haters' não eram incomuns O romancista Kingsley Amis teceu duras críticas ao restaurante em um texto que o próprio Rules chegou a exibir, por algum tempo, em seu site. (Essa resenha, assim como todas as outras, foi removida.) O vinho era um deleite, admitiu Amis. O café, excelente. Ele conseguiu tolerar o escalope de vitela e comer os peixinhos fritos (*whitebait*). "Todo o resto", contudo, “foi deplorável.” Isso ainda provoca reações fortes. Quando pedi a opinião de um amigo britânico — londrino de nascença e criação —, ele me disse que nunca tinha ido lá e não tinha interesse em fazê-lo.
— Os motivos para ir são: 1) você é da elite e gosta da comida; 2) você não é da elite, mas quer observar a cultura. Ao receber uma captura de tela de uma observação no rodapé do cardápio do *Rules* — “Aves de caça podem conter chumbo” —, ele alertou: — É bom mesmo ficar atento a isso. O prédio na Maiden Lane é pintado de um alegre amarelo-mostarda, com letras douradas nas janelas. Lá dentro, notei imediatamente os detalhes que o crítico Jay Rayner exaltou no "Financial Times" no ano passado. Embaixo, a toalha de mesa bem passada. No alto, a iluminação na medida certa (clara o suficiente para os clientes, mas suave o bastante para criar um clima). Para começar, uma porção na medida certa e perfeitamente aquecida de "potted shrimps", camarões cozidos e conservados na própria manteiga, um prato bem mais interessante do que o nome poderia sugerir. O cardápio traz clássicos britânicos, como a torta de carne e rim e a salada de caranguejo de Dorset. Mas este é um restaurante onde a carne de caça é a estrela. Por isso, pedi o "grouse", ave de caça típica. Ele chegou acompanhado de couve verde brilhante e uma porção de "game chips", batatas fritas cortadas em fatias finíssimas, incrivelmente crocantes, além de penas nas patinhas recolhidas. Era evidente que a ave havia sido abatida recentemente. O sabor daquela ave não lembrava em nada o do frango. A carne tinha um sabor intenso e ancestral, com a pele dourada e músculos magros, porém macios. Comer o grouse no Rules era como saborear a própria história. Carne de caça A carne de caça sempre foi considerada um alimento de elite. Até 2007, na Inglaterra e no País de Gales, era necessária uma licença especial para caçar esses animais.
— Existe uma hierarquia um tanto absurda das carnes na Grã-Bretanha — explica Pen Vogler, historiadora da alimentação britânica, acrescentando: — Historicamente, a carne de caça ocupa o topo dessa escala. Essa prática era, em grande parte, um passatempo dos mais abastados, que dispunham tanto de terras para os animais circularem quanto de tempo livre para a caça. A exceção eram os caçadores furtivos, que invadiam propriedades privadas. — Para as pessoas comuns, o ideal era criar um porco em um cercado; assim, não era preciso sair correndo atrás dele — comenta Marc Meltonville, historiador da alimentação e consultor especializado em cardápios históricos.
Mas e quanto a aves como o tetraz ou a carne de cervo? — Só quem não tem mais nada para fazer é que pode sair por aí perseguindo um cervo — diz. Para o National Trust, a existência de um restaurante é uma novidade. A organização, que é uma instituição de caridade, possui 39 pubs, mas é conhecida principalmente por zelar por grandes mansões históricas. Contudo, essas propriedades funcionam, em sua maioria, como museus — quase nenhuma serve mais como residência, e os cafés instalados nelas — famosos por seus "scones" — são acréscimos modernos. É raro que locais de tamanha relevância histórica ainda sejam utilizados da mesma forma que no passado, observa Lucy Porten, curadora do National Trust. O restaurante Rules é uma exceção. Com as portas abertas do meio-dia às 22h, sua cozinha continua a preparar refeições, e, diariamente, clientes — vestindo blazers ou usando colares de pérolas — desfrutam de suas refeições sob a ornamentação de galhadas de cervo. — Este é um exemplo extraordinário de patrimônio vivo — afirma ela, pontuando: — O local continua cumprindo a função para a qual foi criado: ser um restaurante.
O Globo