Anderson Luis de Souza nasceu no Brasil, virou Deco em Portugal e, duas décadas depois de chegar ao Barcelona como jogador, tornou-se um dos homens mais poderosos do clube fora de campo. Diretor esportivo desde 2023, o ex-meia ganhou força nos bastidores, superou as críticas que acompanharam sua nomeação e hoje imprime um método próprio na montagem de um elenco que voltou a investir pesado no mercado. A ascensão é destacada pelo jornal espanhol As, que aponta Deco como um dos grandes personagens do último mercado de transferências do Barcelona. Depois de temporadas condicionadas pelas dificuldades financeiras, o clube recuperou margem para operar sob a regra do 1:1 e abriu os cofres. Anthony Gordon, Rodri, Karim Adeyemi, Gabriel Jesus, Jesse Bisiwu, Dominik Livakovic e Hamza Abdelkarim estão entre as contratações da nova temporada. O Barcelona investiu cerca de € 174 milhões fixos na janela, além de valores previstos em bônus. Gordon, contratado do Newcastle por € 70 milhões mais € 10 milhões em variáveis, foi a operação mais cara. Rodri chegou do Manchester City por € 60 milhões mais bônus, enquanto Adeyemi custou € 22 milhões fixos ao clube catalão. A liberdade atual contrasta com os primeiros anos de Deco no cargo. Segundo o "As", o saldo das operações de mercado durante suas três primeiras temporadas ficou positivo em mais de € 100 milhões. A melhora da situação financeira permitiu que o diretor mudasse de postura neste verão e antecipasse investimentos diante da possibilidade de novas restrições no futuro. Intuição acima dos números A maneira de trabalhar de Deco também foge do perfil de executivo que ganhou espaço no futebol europeu nos últimos anos. O dirigente utiliza ferramentas de análise de dados, mas não permite que elas se sobreponham à avaliação feita por observação, conhecimento de vestiário e contatos acumulados durante décadas no futebol. A experiência como jogador tem peso. Deco entende a construção do vestiário como parte fundamental da montagem do elenco e, desde que assumiu, participou das renovações de nomes que formam a espinha dorsal do Barcelona, entre eles Lamine Yamal, Pedri, Gavi, Raphinha, Frenkie de Jong, Pau Cubarsí, Jules Koundé e Alejandro Balde. A preocupação não se restringe ao rendimento. O papel desempenhado pelos atletas dentro do grupo também é levado em consideração. É nesse contexto que o "As" coloca, por exemplo, a permanência do goleiro Wojciech Szczesny, inicialmente contratado como uma solução emergencial após a lesão de Ter Stegen e posteriormente valorizado por sua influência no ambiente do elenco. Deco também encontrou em Hansi Flick um parceiro para o projeto. Os dois, ao lado de Bojan Krkic e com o aval do presidente Joan Laporta, trabalharam em conjunto na montagem do elenco para a temporada. Gordon e Adeyemi, por exemplo, chegaram para acrescentar velocidade pelos lados, uma das demandas do treinador alemão. De Vitor Roque a Rodri Nem todas as apostas deram resultado. Uma das principais foi Vitor Roque, contratado por € 30 milhões fixos e que não conseguiu se estabelecer no Barcelona. Deco, no entanto, conseguiu posteriormente negociar o atacante com o Palmeiras e reduzir o impacto financeiro da operação. Outros movimentos ajudaram a fortalecer sua posição. Dani Olmo chegou em 2024, enquanto Joan García foi contratado no ano seguinte. Nesta temporada, o salto de investimento culminou em operações como as de Gordon e Rodri, vencedor da Bola de Ouro de 2024 e um dos principais nomes disponíveis no mercado. — Todos os jogadores que contratamos têm um sentido. Discutimos muito antes de tomar uma decisão. Quando vimos que havia uma oportunidade, tentamos e conseguimos, como aconteceu com Gordon, Adeyemi, Bisiwu e Cancelo. Tudo tem um sentido para melhorar — explicou Deco recentemente ao falar sobre a contratação de Rodri. O diretor também promoveu uma divisão mais clara de funções no departamento de futebol. João Pedro Amaral, contratado como diretor de scouting em 2025, passou a ter papel relevante na identificação de jogadores mais jovens e em operações pensadas para o futuro. O organograma oficial do Barcelona atualmente coloca Deco como diretor da área de futebol, Bojan como coordenador e Amaral como responsável pelo scouting. Nova estratégia com jovens A mudança também chegou à base. O Barcelona continua considerando La Masia uma fonte prioritária para o time principal, mas passou a adotar uma postura menos resistente à venda de jovens quando entende que a operação é financeiramente interessante. A estratégia inclui negociar jogadores mantendo mecanismos que permitam ao clube acompanhar ou recuperar parte de seu valor no futuro, seja por cláusulas de recompra, seja por percentuais de uma eventual transferência. Ao mesmo tempo, Deco passou a apostar em contratações preventivas de jovens de outros clubes. Hamza Abdelkarim e Jesse Bisiwu estão entre os exemplos mais recentes, enquanto Mikael Baza e Mirza Catovic também chegaram para integrar o projeto de formação. A transformação ajuda a explicar como Deco mudou sua posição dentro do Barcelona. Quando assumiu, sua proximidade com Laporta alimentou críticas de adversários políticos do presidente. Víctor Font, um dos principais nomes da oposição, chegou a atacá-lo publicamente durante a passagem frustrada de Vitor Roque. Três anos depois, o cenário é diferente. Deco ganhou autonomia, montou uma equipe de confiança e passou a centralizar as operações consideradas estratégicas, enquanto delega a prospecção de jovens e outras áreas do departamento. Segundo o As, o próprio dirigente vincula sua permanência ao ciclo de Laporta na presidência. E já existe até um nome admirado por ele para um eventual futuro depois de Hansi Flick: Cesc Fàbregas.
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De contestado a homem forte do Barcelona: como Deco ganhou poder e mudou política de contratações do clube
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O Globo
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