De consultoria econômica a gestão de crise: pagamentos do Master bancaram atuação de ex-ministros e aliados políticos

 

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Os pagamentos feitos pelo Banco Master a ex-ministros, dirigentes partidários e ex-integrantes de governos envolvem a contratação de diferentes tipos de serviço a favor da instituição e de seu controlador, Daniel Vorcaro. Documentos da Receita Federal obtidos pelo GLOBO indicam que, entre 2023 e 2025, o banco destinou ao menos R$ 65,8 milhões a áreas de atuação que vão de consultoria econômica e jurídica a articulação política, defesa contenciosa e gestão de crise.

A diversidade de funções ajuda a explicar o papel desempenhado por personagens de diferentes áreas — da política ao mercado financeiro — na estrutura montada pelo banco em meio ao seu processo de expansão e ao aumento do escrutínio sobre suas operações.

No caso do ex-presidente Michel Temer, a atuação esteve ligada à tentativa de viabilizar a negociação entre o Master e o Banco de Brasília (BRB). Segundo o próprio emedebista relatou publicamente, ele foi chamado para atuar como mediador em reuniões com representantes do banco e do governo do Distrito Federal, participando de tratativas para manter a operação, mesmo após resistências do Banco Central.

Já o ex-ministro da Fazenda Henrique Meirelles integrou a estrutura de governança criada pelo Master para reforçar sua credibilidade no mercado. Ele passou a compor um comitê consultivo formado por ex-presidentes do Banco Central e outros nomes de peso da área econômica, com função de emitir análises e opiniões sobre cenários macroeconômicos e financeiros, sem participação direta na gestão cotidiana do banco. 

Esse colegiado foi instituído em meio a questionamentos de agentes do mercado sobre o ritmo de crescimento da instituição e suas estratégias de captação. A criação do grupo foi apresentada como parte de um esforço para dar respaldo técnico às decisões do banco.

A atuação de Guido Mantega combinou consultoria econômica com interlocução institucional. Durante o período em que trabalhou para o Master, o ex-ministro da Fazenda aproximou Vorcaro do governo federal e participou de iniciativas para apresentar o banco a integrantes do Executivo, incluindo uma reunião com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva no Palácio do Planalto, no fim de 2024.

No campo jurídico, os serviços também tiveram diferentes formatos. O ex-ministro do Supremo Tribunal Federal Ricardo Lewandowski prestou consultoria jurídica ao banco após deixar a Corte, antes de assumir o Ministério da Justiça. Segundo declarou, o trabalho consistia na orientação técnica em temas jurídicos relacionados à atuação da instituição.

Já Antonio Rueda, presidente do União Brasil, atuou diretamente na advocacia para o Master. Ele admitiu a prestação de serviços jurídicos, incluindo elaboração de pareceres e participação em reuniões, em uma atuação que envolveu processos, negociações e acompanhamento de demandas do banco.

Outra frente foi a de comunicação e gestão de crise. O ex-chefe da Secretaria de Comunicação da Presidência no governo Jair Bolsonaro Fabio Wajngarten passou a integrar a estrutura de defesa de Vorcaro. Sua atuação incluiria também consultoria de imagem, interlocução com veículos de imprensa, produção de relatórios sobre a cobertura do banco e reuniões frequentes com a equipe jurídica responsável pelo caso.

A lista de pagamentos inclui ainda empresas ligadas ao ex-prefeito de Salvador ACM Neto e ao ex-ministro da Cidadania Ronaldo Bento. Nos dois casos, os valores constam nas declarações do banco à Receita Federal, mas não há detalhamento público completo sobre o escopo dos serviços prestados.

A estrutura foi montada em um contexto de crescimento acelerado do Master e de aumento das pressões regulatórias e institucionais sobre suas operações, o que levou o banco a buscar apoio em diferentes frentes para sustentar sua atuação no mercado e sua interlocução em Brasília.

Entenda o caso

O Banco Master ganhou relevância no sistema financeiro nos últimos anos ao expandir rapidamente suas operações, com forte captação de recursos por meio de produtos como CDBs que ofereciam rendimentos acima da média de mercado.

Esse crescimento acelerado levou a instituição a um patamar mais elevado de supervisão do Banco Central e passou a despertar questionamentos de agentes do mercado sobre a sustentabilidade de seu modelo de negócios e os riscos associados à sua carteira de ativos.

Nesse contexto, o banco também se tornou alvo de investigações e de maior escrutínio regulatório, enquanto buscava alternativas para fortalecer sua posição, incluindo negociações com outras instituições financeiras, como o BRB.

Controlador do banco, Daniel Vorcaro esteve no centro desse processo. Sob sua gestão, o Master adotou uma estratégia de expansão agressiva, que ampliou sua presença no mercado, mas também elevou a exposição institucional do grupo.

Com o avanço das investigações e o aumento da pressão de órgãos de controle, o empresário intensificou a interlocução com atores do meio político, jurídico e econômico e estruturou uma rede de consultores e assessores para atuar em diferentes frentes, da defesa jurídica à gestão de crise e à busca de saídas para o banco.