De cela da ditadura à Pequena África: turismo de memória cresce pelo Brasil com 'walking tours'
Cada vez mais populares no Brasil, os walking tours — passeios guiados realizados a pé — têm se consolidado como porta de entrada para o turismo de memória, segmento que transforma locais ligados à escravidão, imigração, resistência política e a tragédias em espaços de aprendizado e reflexão. Impulsionada pelo crescimento do setor turístico e pelo fortalecimento de políticas de preservação histórica, a tendência ganha força em diferentes regiões do país, atraindo visitantes interessados em compreender episódios que marcaram a história nacional e seus impactos.
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Para o especialista em turismo e fundador da agência Rio 360 Experience, Yuri Guimarães, o interesse por esse tipo de experiência está relacionado à busca por significado durante as viagens.
— Durante muito tempo, viajar estava muito associado apenas ao lazer. Hoje, o visitante busca compreender um contexto histórico, ouvir diferentes perspectivas e refletir sobre acontecimentos que tiveram impacto — afirma Guimarães. — Quando uma pessoa visita um local relacionado a um acontecimento importante, ela deixa de ser apenas observadora e passa a se sentir conectada àquela narrativa. É uma experiência que costuma provocar reflexão, empatia e aprendizado ao mesmo tempo.
Inspirado em um conceito de turismo popularizado na Europa, o Free Walker Tours, o Rio oferece roteiros baseados em contribuições voluntárias dos participantes, com passeio pelo Patrimônio Africano, que percorre locais como a Pedra do Sal, o Cais do Valongo — principal vestígio físico da chegada de africanos escravizados e reconhecido como Patrimônio Mundial pela Unesco — e a Praça Mauá, apresentando a influência africana na formação cultural brasileira.
A guia de turismo Andrea Rizzo faz roteiros pelo Centro Histórico do Rio, por Niterói e pela Ilha de Paquetá. Segundo ela, o objetivo é apresentar ao visitante diferentes camadas da história, valorizando memórias que ficam muitas vezes fora dos passeios tradicionais.
— Os roteiros trabalham, principalmente, a experiência sensorial do público, as mudanças urbano-arquitetônicas e como a cidade foi se estruturando em cima da chegada dos africanos — explica Rizzo.
Identidades culturais
Já o Cemitério dos Pretos Novos resgata a história de africanos escravizados que morreram pouco depois de chegar ao Brasil. Fora do Rio, o Parque Memorial Quilombo dos Palmares, em Alagoas, relembra a resistência do maior quilombo da história brasileira.
O fundador da plataforma de turismo e cultura afrocentrada Diaspora Black, Antonio Pita, avalia que a valorização da memória está ligada ao fortalecimento das identidades culturais e ancestrais.
— As pessoas buscam destinos que se conectem com suas histórias e propósitos, resgatando elementos apagados ou compreendendo acontecimentos que atravessaram suas famílias e ancestralidades — diz Pita.
Na Bahia, o Free Walking Tour na capital convida visitantes a “descobrirem Salvador além do óbvio”. O percurso que inclui o bairro de Santo Antônio Além do Carmo e o Centro Histórico apresenta a cidade como um espaço moldado pela resistência, fé e pelas influências indígenas, africanas e europeias, abordando temas como ancestralidade, religiosidade de matriz africana e patrimônio cultural.
— Temos como base oferecer uma experiência regenerativa, a reflexão sobre os fatos e histórias. Eu vejo o guia como o anfitrião da experiência — explica o gerente de produtos da Free Walker Tours, Bruno Zanchetta.
Na capital paulista, o percurso promovido pela São Paulo Walking Tour percorre o Triângulo Histórico e apresenta marcos da formação da cidade. Os participantes conhecem locais que ajudam a entender o desenvolvimento do município, desde o período colonial até a industrialização, passando por edifícios como o Martinelli, primeiro arranha-céu da América Latina, e por espaços ligados ao desenvolvimento financeiro e arquitetônico.
Em São Paulo também fica o Memorial da Resistência, instalado no antigo prédio do Departamento de Ordem Política e Social (Dops), que mantém a lembrança da repressão política durante a ditadura militar.
— A ampliação do interesse pelos lugares de memória fortalece ações educativas, culturais e formativas, além de impulsionar a pesquisa e a produção de conhecimento — pontua Sérgio Motta, analista de comunicação do Memorial da Resistência de São Paulo, que recebeu, em 2025, mais de 87 mil visitantes.
O Memorial Brumadinho, em Minas Gerais, foi criado para preservar a lembrança das 272 vítimas do rompimento da barragem da Mina Córrego do Feijão. O local atingiu o marco de 30 mil visitantes desde a abertura, em janeiro de 2025, seis anos após o rompimento da Barragem, com uma média de 1.300 visitas por mês.
— A criação veio da mobilização da Associação dos Familiares de Vítimas e Atingidos pelo Rompimento da Barragem Mina Córrego do Feijão (Avabrum), que reivindicou e conquistou a construção do projeto de memória e homenagem, para que as novas gerações conheçam o que ocorreu e que tragédias como a de Brumadinho não sejam esquecidas nem se repitam — explica a porta-voz do Memorial Brumadinho, Fabíola Moulin.
Já em Curitiba o Museu do Holocausto, primeiro espaço no Brasil dedicado ao episódio, criado em 2011, recebe cerca de 30 mil visitantes por ano. O espaço foi criado para preservar a memória das vítimas do regime nazista e promover educação sobre intolerância e direitos humanos.
— A visitação proporciona uma experiência transformadora que vai muito além do conhecimento histórico prévio que o visitante pode ter — pontua o coordenador-geral do Museu do Holocausto de Curitiba, Carlos Reiss.
Políticas públicas
Também integram o conjunto de espaços históricos o Memorial dos Povos Indígenas, em Brasília, voltado à valorização das culturas indígenas brasileiras. E o Museu da Loucura, em Barbacena (MG), considerado o primeiro museu brasileiro dedicado à saúde mental; o local recebe, aproximadamente, 14.400 pessoas ao ano. “O perfil de visitante é de 80% curiosos, 8% por estarem no local por algum outro motivo, e, 2% interessados em entender a história”, afirmou o museu em nota.
O avanço do fortalecimento de iniciativas públicas de preservação histórica ocorre em paralelo ao crescimento do turismo no Brasil, que em 2025 atingiu a marca de 9,2 milhões de visitantes internacionais, o maior número da série histórica, segundo dados divulgados em janeiro pelo Ministério do Turismo (MTur).
Em maio, o Instituto Brasileiro de Museus (Ibram) instituiu o Programa Pontos de Memória e um comitê consultivo voltado à formulação de políticas públicas para a valorização social dos patrimônios culturais. Este mês, o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC) assinou um acordo para fortalecimento de políticas de memória, iniciativa que busca ampliar ações voltadas à preservação de locais históricos, memória coletiva e educação em direitos humanos.
As discussões também avançam no Legislativo. Entre as propostas em tramitação está o Projeto de Lei 1.136/2026, que cria a Política Nacional de Preservação do Patrimônio Religioso.
*Estagiária sob supervisão de Cibelle Brito
