De Castanhal e ex-aluno da rede pública, professor da UFPA recebe reconhecimento nacional
O professor da Universidade Federal do Pará (UFPA), natural de Castanhal e ex-aluno da rede pública do município, recebeu no dia 18 de maio, uma menção honrosa da Sociedade Brasileira de Física (SBF) por sua tese de doutorado sobre buracos negros, reconhecida entre as melhores do país na área de física de partículas e campos em 2025.
A pesquisa, intitulada “Signatures of nonlinear electrodynamics in black hole physics”, foi desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Física da UFPA, sob orientação do professor doutor , e investiga os efeitos de campos eletromagnéticos intensos em buracos negros.
O trabalho reúne oito artigos publicados em revistas científicas internacionais e contou com colaborações de universidades de Portugal e Inglaterra. Para Marco Aurélio, o reconhecimento vai além de uma conquista individual.
“Esse reconhecimento é muito mais coletivo do que individual. É um reconhecimento ao trabalho que é feito no grupo de pesquisa Grav@zon e na Amazônia brasileira no geral”, afirmou.
Natural de Castanhal, Marco é filho de mãe cearense e pai paranaense, construiu toda a sua formação básica em escolas públicas da cidade.
Ele estudou na EMEF Padre Severiano e posteriormente na EMEF Madre Maria Viganó, onde concluiu o ensino fundamental. Já o ensino médio foi cursado na EEEM Lameira Bittencourt.
Hoje professor efetivo da UFPA no Campus Universitário do Tocantins-Cametá, Marco lembra que a caminhada até o reconhecimento nacional foi marcada por desafios acadêmicos, sociais e financeiros.
Superando lacunas e dificuldades
Ao ingressar no curso de Física da UFPA, em Belém, o pesquisador se deparou com dificuldades que, segundo ele, refletem as desigualdades educacionais enfrentadas por muitos estudantes da rede pública.
“Quando você entra numa graduação com lacunas, essas lacunas vão te acompanhando ao longo da caminhada. Você precisa sempre dar um passo para trás antes de dar um para frente”, contou.
Além das dificuldades acadêmicas, ele enfrentou longas jornadas diárias de deslocamento entre Ananindeua e Belém, chegando a passar cerca de quatro horas por dia no transporte público.
Marco também destacou os desafios relacionados ao recorte sociorracial dentro da universidade e da carreira científica.
“Se você é uma pessoa preta neste país, sobretudo vindo das camadas menos abastadas da sociedade, você precisa trabalhar dobrado para buscar uma equidade de oportunidades”, disse.
Apesar disso, ele afirma que nunca pensou em desistir da ciência.
“Já pensei em fazer uma pausa, mas nunca passou pela minha cabeça desistir.”
Pesquisa sobre buracos negros
A tese premiada busca compreender como campos eletromagnéticos extremamente intensos afetam o comportamento da luz e da matéria na vizinhança de buracos negros.
Em linguagem simples, o pesquisador explica que o estudo tenta entender fenômenos da chamada eletrodinâmica não linear, um campo avançado da física que investiga o comportamento da luz em ambientes extremos.
“A gente busca entender a natureza da luz em cenários onde os campos eletromagnéticos são muito intensos”, explicou.
Embora seja uma pesquisa teórica, Marco destaca que muitos avanços científicos fundamentais acabam gerando aplicações práticas no futuro.
“Quando a Teoria da Relatividade Geral surgiu, quem imaginaria que ela seria fundamental para o funcionamento do GPS?”, exemplificou.
O pesquisador afirma que o que mais o fascina nos buracos negros é justamente a possibilidade de estudar objetos invisíveis e extremamente distantes usando apenas ferramentas matemáticas e computacionais.
“Podemos estudar, daqui das nossas casas, um objeto no universo que não é diretamente observável e que está a bilhões de quilômetros da Terra”, disse.
Ciência de ponta na Amazônia
Para Marco Aurélio, a conquista ajuda a mostrar que é possível produzir ciência de alto nível na Amazônia brasileira.
“As premiações e menções mostram, em conjunto, que é possível fazer ciência de ponta na Amazônia.”
Ele também ressaltou a importância da UFPA na produção científica nacional e internacional e destacou o papel do grupo de pesquisa Grav@zon em sua formação acadêmica.
“O Grav@zon é minha família acadêmica. Foi onde eu nasci academicamente.”
Durante o doutorado, Marco realizou intercâmbio na Universidade de Sheffield, na Inglaterra, onde passou um ano colaborando com pesquisadores internacionais da área.
Mesmo fora do Brasil, ele fazia questão de carregar consigo referências da terra natal.
“Eu fazia incontáveis apresentações usando a camisa do Japiim”, relembrou, em referência ao tradicional clube de Castanhal.
Inspiração para jovens da rede pública
Marco Aurélio acredita que sua trajetória pode servir de incentivo para estudantes da rede pública que sonham em seguir carreira científica.
“É possível. Não é fácil, é muito trabalhoso. O trabalho é árduo, mas é preciso ser resiliente”, afirmou.
Ele defende mais investimentos em ciência e tecnologia na Amazônia, especialmente para pesquisadores e professores que atuam no interior do estado.
Entre os próximos objetivos, o professor pretende ajudar a fortalecer o Laboratório de Física da UFPA em Cametá, além de ampliar ações de alfabetização e popularização científica.
Ao falar sobre o legado que deseja deixar, Marco resume sua missão em uma frase:
“A gente não precisa mudar o mundo inteiro. Mas pode mudar o nosso bairro, aos poucos, com ética, dedicação e trabalho.”
