De carta na prisão a site com críticas ao inquérito: a estratégia de defesa da influenciadora Deolane Bezerra

De carta na prisão a site com críticas ao inquérito: a estratégia de defesa da influenciadora Deolane Bezerra

 

Fonte: Bandeira



A influenciadora digital e advogada Deolane Bezerra escreveu uma carta na prisão em que afirma nunca ter participado de organização criminosa e que sua prisão ocorreu "por pura perseguição" e pelo fato de “ser formadora de opinião”. O texto teria sido ditado por Deolane para a irmã, Dayane Bezerra, também advogada, que postou a carta em um site criado justamente para divulgar os argumentos de defesa da investigada. A página foi ao ar dois dias após a operação que levou Deolane à prisão por suspeita de lavagem de dinheiro para o Primeiro Comando da Capital (PCC).

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Segundo a investigação, a sofisticada engrenagem de lavagem de dinheiro era ligada ao núcleo familiar de Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola, líder da facção criminosa. Batizada de Operação Vérnix, a ação revelou como uma transportadora do interior paulista teria sido usada para movimentar recursos do tráfico e inseri-los no sistema financeiro formal por meio de empresas, depósitos fracionados e contas de terceiros. No celular apreendido do sócio oficial da transportadora, foram localizadas imagens de depósitos feitos em contas de Deolane.

"Reitero a minha inocência e deixo claro que estou presa pela quantia de R$ 24.500 (valor de honorários que recebi na época como ADVOGADA). Valor depositado em minha conta em espécie, e não pela transportadora mencionada no inquérito", afirma Deolane na carta.

Condição cautelar

Ao GLOBO, o advogado criminalista, Diego Valadares, explica que, em regra, o preso tem direito de manter a comunicação com a família e seu defensor, sendo "uma forma legítima de comunicação". Entretanto, ele pontua que, em uma prisão anterior de Deolane, ela havia sido proibida de fazer declarações públicas. Se estiver mantida a proibição e a "carta for interpretada como declaração pública da própria acusada, pode haver questionamento sobre o descumprimento de condição cautelar". O especialista ainda afirma que a declaração pode ser usada pela acusação:

— Declarações extrajudiciais feitas pelo réu podem, em tese, ser confrontadas com as provas dos autos. Se a acusada contradisser em juízo algo que disse na carta, isso pode ser explorado para questionar sua credibilidade. Além disso, se a carta contiver algum dado concreto que contradiga elementos do inquérito, pode ser juntada como documento — esclareceu Valadares.

Site com versões da Deolane

Um site divulgado pela irmã da investigada, chamado “O inquérito Deolane”, também apresenta os argumentos da influenciadora sobre o processo em andamento. Segundo o portal, criado dois dias após a prisão, seriam publicadas "análises estritamente documentais" no espaço para “contrapor as narrativas veiculadas na imprensa”.

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Valadares alerta que a "defesa pode conhecer o inquérito, mas não pode tornar públicas peças que estejam sob sigilo judicial". O especialista também defende que há riscos em tornar os argumentos públicos:

— Ao expor os argumentos da defesa publicamente antes do processo, a acusação tem tempo para preparar contra-argumentos e buscar provas adicionais. Além disso, declarações públicas podem ser inconsistentes com o que for dito em juízo, criando vulnerabilidades — e conclui: — No geral, a estratégia de comunicação pública da defesa de Deolane é deliberada e agressiva, o que é legítimo, mas carrega os riscos inerentes a qualquer exposição antecipada da tese defensiva.

‘Aparente legalidade’

A influencer disse na carta divulgada hoje que “nunca sequer” esteve “presente na Penitenciária de Presidente Venceslau”. O argumento faz referência às investigações policiais sobre o funcionamento do PCC iniciadas a partir da apreensão de bilhetes manuscritos nesse presídio do interior paulista, em 2019. O material continha ordens internas da facção, referências a movimentações financeiras e menções a ataques contra servidores públicos.

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A partir dos bilhetes, os investigadores chegaram à empresa Lopes Lemos Transportes, conhecida como Lado a Lado Transportes. Segundo o Ministério Público, a transportadora funcionava como braço financeiro da cúpula do PCC. Em três anos, movimentou mais de R$ 20 milhões e apresentou incompatibilidade de R$ 6,9 milhões entre receitas declaradas e movimentações bancárias, indício considerado típico de lavagem de dinheiro.

Deolane recebia dinheiro do PCC via transportadora

Reprodução

Segundo o inquérito, entre 2018 e 2021, Deolane recebeu R$ 1.067.505 em depósitos fracionados abaixo de R$ 10 mil — prática conhecida como “smurfing”, usada para dificultar o rastreamento financeiro. Além disso, cerca de 50 depósitos em empresas ligadas à influenciadora somaram aproximadamente R$ 716 mil. Os investigadores afirmam não ter encontrado contratos ou prestação de serviços advocatícios que justificassem os valores.

Para a polícia, a projeção pública e a estrutura empresarial de Deolane funcionariam como “camadas de aparente legalidade” para ocultar recursos ilícitos. A Justiça determinou o bloqueio de R$ 27 milhões em bens da influenciadora e mais de R$ 357 milhões em ativos ligados aos demais investigados.

Conhecida nacionalmente desde a morte do então marido, o funkeiro MC Kevin, em 2021, Deolane acumula mais de 21 milhões de seguidores nas redes sociais e construiu uma imagem ligada à ostentação, apostas on-line e exibição de itens de luxo. Horas antes da prisão, apareceu nas redes com uma bolsa Chanel avaliada em mais de R$ 300 mil. Ao chegar presa à sede da Polícia Civil, usava um suéter da grife Polo Ralph Lauren vendido por cerca de R$ 5 mil.

A operação também apreendeu carros de luxo e joias. Entre os veículos recolhidos estavam modelos das marcas Cadillac, Mercedes, Jeep e Range Rover. Um Cadillac Escalade apreendido pode custar até R$ 2 milhões no Brasil.

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Segundo o promotor Lincoln Gakiya, a ação contou com cooperação internacional entre autoridades brasileiras, italianas e espanholas para evitar vazamentos e impedir fugas. Deolane voltou ao Brasil um dia antes da operação, após passar semanas em Roma. A defesa da influenciadora não comentou as acusações.

Procurada pelo GLOBO, a defesa de Deolane Bezerra ainda não respondeu sobre a carta divulgada pela irmã da influencer.