De arquiteto do Google a pai da 'superinteligência': quem é David Silver, cientista por trás de nova aposta bilionária em IA

 

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David Silver, um dos nomes mais influentes da inteligência artificial moderna, deixou a DeepMind em janeiro de 2026 para liderar a Ineffable Intelligence, startup sediada em Londres que pretende desenvolver sistemas de “superinteligência que aprendem indefinidamente”. Ex-chefe da equipe de aprendizado por reforço da empresa e professor da University College London (UCL), Silver agora aposta em uma abordagem que contraria a tendência dominante do setor.

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Conhecido por liderar projetos históricos na DeepMind, subdivisão do Google especializado em pesquisa e desenvolvimento de modelos de IA, o cientista esteve à frente de avanços que marcaram a evolução da IA, como sistemas capazes de jogar Atari diretamente a partir de pixels, derrotar campeões mundiais de Go e superar os melhores programas de xadrez, shogi e o próprio Go — inclusive sem conhecer previamente as regras dos jogos. Ele também contribuiu para iniciativas como o AlphaFold, voltado à resolução do problema do dobramento de proteínas, e o AlphaProof, que conquistou medalha na Olimpíada Internacional de Matemática em 2024.

David Silver, criador da Ineffable Intelligence

Reprodução: davidstarsilver.wordpress.com

Sua trajetória foi reconhecida com prêmios como o ACM Prize in Computing, o Marvin Minsky Award e a medalha de prata da Royal Academy of Engineering, além de títulos como fellow da Royal Society e da ACM.

Nova empresa e ambição bilionária

A Ineffable Intelligence nasce com ambições ousadas. A startup trabalha em sigilo e busca desenvolver agentes capazes de aprender continuamente por tentativa e erro, utilizando modelos de mundo — simulações internas que permitem evolução constante. A ideia é ir além dos modelos de linguagem atuais, como o Gemini, que dependem de grandes volumes de dados produzidos por humanos.

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Segundo o jornal Financial Times, a empresa negocia uma rodada de investimento inicial que pode chegar a US$ 1 bilhão, com avaliação prévia de US$ 4 bilhões — o que seria um recorde europeu. A Sequoia Capital lidera as conversas, com interesse também de gigantes como Nvidia, Google e Microsoft.

Entre os nomes envolvidos nas negociações estão Jensen Huang, CEO da Nvidia, e a investidora Patricia Huang, da Sequoia.

Crítica ao modelo dominante de IA

Em entrevista à revista WIRED, Silver afirmou que a indústria pode estar seguindo o caminho errado ao apostar excessivamente em modelos de linguagem. Para ele, esses sistemas são limitados por dependerem de dados humanos.

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“Dados humanos são como um tipo de combustível fóssil que forneceu um atalho incrível”, disse. “Você pode pensar em sistemas que aprendem por si mesmos como uma fonte renovável — algo que pode aprender e aprender e aprender para sempre, sem limites.”

Ele defende que o futuro está em sistemas capazes de descobrir conhecimento de forma autônoma. “Eu penso na nossa missão como fazer o primeiro contato com a superinteligência”, afirmou. “Por superinteligência, quero dizer algo realmente incrível. Deve descobrir novas formas de ciência ou tecnologia ou governo ou economia por si só.”

Do AlphaGo à nova aposta

Silver ganhou projeção mundial ao liderar, em 2016, o desenvolvimento do AlphaGo, sistema que derrotou o campeão mundial Lee Sedol em um jogo considerado um dos mais complexos já criados. O projeto combinou aprendizado por reforço profundo, busca em árvore de Monte Carlo e autojogo.

Agora, como diretor da nova empresa, ele tenta repetir — e ampliar — esse impacto no mundo real. A proposta é aplicar o aprendizado contínuo em áreas como robótica, redes elétricas e simulações científicas.

Legado e desafios

Ao longo de mais de 15 anos na DeepMind, Silver publicou mais de 16 artigos científicos e ajudou a consolidar o aprendizado por reforço como uma das bases da inteligência artificial moderna. Seus métodos já foram usados para otimizar a rede elétrica do Reino Unido, economizando mais de £1 milhão, e para aumentar em 30% a eficiência de data centers do Google.

Apesar do histórico, especialistas apontam desafios para a nova empreitada. Diferentemente de concorrentes como a francesa Mistral AI ou iniciativas lideradas por Ilya Sutskever, a Ineffable ainda não anunciou sua equipe, o que levanta dúvidas sobre execução.

Ainda assim, a reputação de Silver como pesquisador de ponta e líder respeitado é vista como trunfo para atrair talentos.

Europa na disputa global

A nova empresa também se insere em um contexto estratégico. Governos europeus veem iniciativas como a Ineffable como fundamentais para manter talentos no continente e reduzir a dependência tecnológica dos Estados Unidos.

Nos fóruns especializados, a expectativa é alta. Alguns já descrevem a iniciativa como um possível “AlphaGo 2.0 para o mundo real”. Caso a aposta se concretize, Silver pode se consolidar como a principal referência europeia na corrida pela superinteligência.

Enquanto isso, ele mantém o foco em um objetivo ambicioso: resolver os problemas mais difíceis com equipes pequenas e altamente especializadas — e, segundo afirma, direcionar eventuais ganhos financeiros para causas humanitárias.

“É uma enorme responsabilidade construir uma empresa focada em superinteligência”, disse. “Acho que isso precisa ser feito para o benefício da humanidade, e qualquer dinheiro que eu ganhar com a Ineffable irá para instituições de alto impacto que salvem o maior número possível de vidas.”