Observando de longe a chegada de Gabriel de Alba ao Brasil para assumir o controle do Botafogo, vejo com estranheza as comparações dele com John Textor.
Porque minha sensação desde que Textor se envolveu com a GDA era que chegaríamos exatamente ao ponto onde estamos.
E, acredite, o Botafogo está prestes a trocar não apenas de dono, mas de espécie de dono.
“Papai” Textor era um empresário apaixonado pelo espetáculo.
Excêntrico, midiático e emocional, parecia obcecado por futebol e pela ideia de construir alguma coisa grandiosa em torno dele.
E depois de provar do fabuloso néctar da fama e do sucesso como subcelebridade no Rio, esse aparente ardor se transformou em delírio, criando um personagem inconsequente, que se achou maior que o clube e especulou de forma irresponsável com a paixão de milhões de botafoguenses.
Ontem mesmo, Textor estava postando no seu Instagram um story de “altinhas” nas praias cariocas, cheio de nostalgia, quase como um adolescente imaturo que não consegue superar que tomou um pé na bunda da namorada.
Chegaria a ser patético, se não fosse revoltante.
De Alba parece ser o oposto.
Ele não chegou ao Botafogo porque queria ter um clube de futebol.
Chegou porque o Botafogo se transformou no tipo de ativo que ele passou a vida profissional procurando: uma marca valiosa, mas profundamente problemática, precisando desesperadamente de capital, reorganização, seriedade e disciplina.
Enquanto a chegada de Textor foi cercada de incógnitas já que pouco se sabia sobre ele além de suas aventuras no mundo do cinema, o histórico de De Alba é extenso, e seu modus operandi, muito claro.
Estamos falando de um sujeito que está há anos navegando nas trincheiras mais complexas do capitalismo financeiro.
Cirque du Soleil, Frontera, Gateway, Therapure.
Empresas em situações extremas, reestruturações complexas, dívidas, credores, disputas e operações em que quase ninguém quer colocar as mãos, muito menos o dinheiro.
Por isso é importante deixar uma coisa clara: De Alba não é exatamente um salvador.
O modelo de negócio dele não tem espaço para sentimentalismo.
Ele é um especialista em descobrir se aquilo que parece morto ainda pode valer alguma coisa.
E, quando acredita que pode, entra.
Ele compra ou financia ativos em dificuldade, participa da reestruturação, assume posições de controle e tenta transformar uma situação aparentemente perdida em uma operação rentável.
Em alguns casos, foi brilhante.
Em outros, nem tanto.
A Credivalores, investimento da GDA na Colômbia que acabou em liquidação, é o lembrete recente e necessário de que o novo manda-chuva do Botafogo também perde.
Talvez o clube tenha encontrado, por uma combinação quase absurda de circunstâncias, alguém especialmente preparado para lidar com o caos deixado por Textor.
Mas não me surpreende que o torcedor esteja assustado com as notícias dos últimos dias.
O que significa entregar o controle econômico da SAF a um especialista em reestruturação e, ao mesmo tempo, deixar boa parte das decisões do futebol nas mãos dos dinossauros da velha estrutura do associativo?
Por enquanto, existe uma justificativa óbvia: a GDA ainda está concluindo a transição, e alguém precisa tocar o clube.
Talvez seja apenas questão de tempo para que De Alba comece a colocar seu método em prática.
Isso ainda não sabemos.
O que sabemos é que ele não tem experiência relevante dirigindo futebol.
Mesmo assim, pela primeira vez desde que Textor chegou, tenho a impressão de que existe alguém olhando para o clube não como um brinquedo ou uma aventura.
Ele olha para o Botafogo como um problema.
Considerando o tamanho do problema, talvez isso seja uma excelente notícia.
Ou a pior possível.
De Alba parece o oposto de Textor: olha para o Botafogo não como um brinquedo, mas como um problema
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