'Dark Horse': quem é Karina da Gama, empresária ligada a contrato de R$ 108 milhões da Prefeitura de SP e filme sobre Bolsonaro
Responsável pela ONG Instituto Conhecer Brasil (ICB), alvo de investigação da Polícia Civil e do Ministério Público de São Paulo por um contrato de R$ 108 milhões com a Prefeitura de São Paulo, a jornalista Karina Ferreira da Gama está sob holofotes por ser responsável, também, pela produtora do filme “Dark Horse”, cinebiografia ainda inédita do ex-presidente Jair Bolsonaro.
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Segundo informações da colunista Malu Gaspar, do GLOBO, a produtora Go Up Entertainment, comandada por Karina, nunca lançou nenhum filme no Brasil ou no exterior.
Dados levantados pela Ancine a pedido da equipe da colunista mostram ainda que as outras duas empresas registradas no órgão em nome de Karina — a Go7 Assessoria e o próprio Instituto Conhecer Brasil — também nunca registraram nem lançaram produções para cinema ou televisão.
Quem é Karina Ferreira da Gama?
Karina é apontada como ligada ao deputado federal Mario Frias (PL-SP), responsável pelo roteiro de “Dark Horse”. O longa recebeu patrocínio do banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master.
A empresária mora na Brasilândia, Zona Norte de São Paulo, e possui ao menos cinco empresas registradas em seu nome, entre elas o Instituto Conhecer Brasil, a Go Up Entertainment e a Upcon Serviços Especializados Ltda., que mantém filial em Goiás.
O nome de Karina passou a ganhar projeção após a abertura de um inquérito da Polícia Civil para investigar supostas irregularidades em um contrato firmado entre a Prefeitura de São Paulo e o Instituto Conhecer Brasil.
O acordo previa a instalação de 5 mil pontos de internet wi-fi em vias públicas da capital paulista. Atualmente existem 3,2 mil instalações. O contrato começou a ser executado em 2024 e previa atingir a meta em 2025.
A primeira investigação foi aberta em fevereiro pela Promotoria do Patrimônio Público e Social após denúncia do vereador Nabil Bonduki (PT), que questionou a ausência de concorrência na licitação e a falta de experiência da ONG na gestão de redes de wi-fi.
— As irregularidades são evidentes, desde a forma de contrato até a prestação de contas — afirma Bonduki.
Promotoria aponta suspeita de ilegalidades
A apuração mais recente foi encaminhada pelo Ministério Público à Polícia Civil e pode resultar em ação criminal.
A promotora Fabíola Cezarini, da 6ª Promotoria de Justiça Criminal, afirmou que foram identificadas “várias suspeitas de ilegalidades”.
Entre os pontos citados estão a “falta de expertise da ONG na implementação de rede wi-fi”, o recebimento de R$ 26 milhões “sem que o serviço tivesse sido efetivamente prestado”, a ausência de concorrência e a possibilidade de a Prodam, empresa pública municipal, executar o serviço “por valor significativamente inferior”.
A ligação entre a ONG de Karina e a produtora do filme sobre Bolsonaro não faz parte diretamente da investigação conduzida pela promotoria. Fontes da Polícia Civil, porém, afirmaram que o tema poderá ser analisado caso surjam indícios de repasses de recursos públicos para empresas ligadas à empresária.
Em nota, a Prefeitura de São Paulo afirmou “que a produção do filme citado não recebeu recursos municipais e qualquer relação entre a contratação do Instituto Conhecer Brasil e a produção cinematográfica é descabida”.
A gestão Ricardo Nunes declarou ainda que o contrato do Instituto Conhecer Brasil foi firmado em junho de 2024 e que a produção do filme teria começado ao menos um ano depois. Segundo a prefeitura, a SPCine foi procurada em outubro de 2025 apenas para autorização de filmagens, seguindo “exatamente o mesmo trâmite usado em todas as solicitações recebidas pelo Município para essa finalidade”.
Sobre o contrato de wi-fi, a prefeitura afirmou que a parceria ocorreu por meio de “chamamento público transparente” e que os pagamentos são realizados por ponto ativo de wi-fi, modelo que “evita desperdício de recursos públicos”.
A administração municipal informou ainda que cerca de R$ 106 milhões foram destinados à implantação dos pontos, manutenção preventiva, suporte técnico e continuidade dos serviços.
Karina Ferreira da Gama não respondeu à reportagem.
Na segunda-feira, dia 18, porém, ela reagiu nas redes sociais a uma publicação de Nabil Bonduki que questionava a experiência da ONG.
“Você acha que o fato de ter nascido na Brasilândia e empreender nos Jardins [e] em Hollywood é um demérito? Tenho que me envergonhar de trabalhar desde os 10 anos de idade? Comecei na feira livre vendendo verduras e legumes, registrada na carteira de trabalho desde os 14 anos [...] O filme não teve dinheiro público, todos os projetos sociais foram executados, para o seu desespero e da sua fonte que é um homem frustrado e derrotado na vida”, escreveu Karina.
PF apura financiamento do filme
O nome da empresária também aparece em outra investigação envolvendo “Dark Horse”.
A Polícia Federal apura se recursos solicitados por Flávio Bolsonaro ao banqueiro Daniel Vorcaro para financiar a cinebiografia também teriam sido usados para custear a permanência de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos.
Mário Frias no set de Dark Horse ao lado de Jim Caviezel
Divulgação
Mensagens e áudios entre Flávio Bolsonaro e Vorcaro vieram a público e provocaram divergências entre aliados do bolsonarismo sobre a origem e o destino do dinheiro.
Flávio Bolsonaro admitiu aportes de Vorcaro para o filme e mencionou reclamações relacionadas a “parcelas” não quitadas. Já Mario Frias, a Go Up Entertainment e Eduardo Bolsonaro negaram qualquer financiamento direto do Banco Master ou de empresas ligadas ao banqueiro.
Posteriormente, Eduardo Bolsonaro afirmou ter sido mal interpretado ao dizer que “não há um centavo do Master” e acrescentou: “nosso relacionamento foi com a Entre, pessoa jurídica distinta”.
Segundo o Intercept Brasil, a empresa Entre Investimentos teria sido usada para repassar R$ 61 milhões para a Havengate Development Fund LP, sediada no Texas e administrada pelo advogado de imigração de Eduardo Bolsonaro, Paulo Calixto.
