'Dark Horse': perito contratado por produtora diz que não acessou dados de fundo que bancou filme de Bolsonaro, e PF pede informações

Fonte: Bandeira da fonte

A perícia privada contratada pela produtora GoUp, responsável pelo filme "Dark Horse", não mapeou a origem dos recursos repassados pelo fundo Havengate, sediado nos Estados Unidos, para financiar o longa-metragem.
Essa análise é considerada fundamental pela Polícia Federal (PF) para esclarecer se houve desvio no projeto artístico negociado entre o senador e presidenciável Flávio Bolsonaro (PL) e o banqueiro Daniel Vorcaro.
Responsável pela avaliação técnica da empresa, o perito particular Anisio Castelo Branco reconheceu ao GLOBO não ter a autorização para auditar o fundo que irrigou a produção e que tratou apenas sobre os recursos desembolsados pela GoUp.
Na semana passada, em São Paulo, Flávio Bolsonaro afirmou que não tinha mais obrigação de tratar do financiamento do filme porque a prestação de contas do longa, encomendada pela produtora, foi vazada para a imprensa.
Ele se referia a laudo elaborado pela mesma perícia e apresentado em processo que trata da suspeita de mau uso de emendas parlamentares no filme.
Porém, não há informações neste documento sobre o caminho do dinheiro no exterior, um dos objetivos da Polícia Federal.  
— Eu não sei quanto que foi enviado do Brasil aos Estados Unidos, nem sei se foi enviado, porque eu não estou investigando o fundo, eu não falo pelo fundo, eu não pertenço ao Havengate.
São informações que fogem do nosso espectro, nós não trabalhamos no fundo Havengate, não temos nenhum contato com o fundo.
Do ponto de vista de como o fundo é alimentado, não sei quanto ele tem de capital, se tinha só dinheiro do filme, se tinha R$ 100 milhões, R$ 1 bilhão, isso é uma informação sigilosa do fundo — disse o perito, presidente do Instituto de Perícia Investigativa (IPI), que foi contratado pela produtora para prestar contas do filme.
Desde julho, os investigadores começaram a fazer diligências no inquérito, requisitando informações das empresas envolvidas na montagem do filme. 
Uma das suspeitas da PF é que parte desses valores foi utilizada para custear despesas do ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), que vive nos Estados Unidos desde fevereiro de 2025
Os investigadores ainda vão verificar se os recursos financiaram o acesso do clã Bolsonaro junto a integrantes do governo do presidente americano Donald Trump por meio de escritórios de advocacia e lobistas, que atuam em Washington.
 
Em maio, quando foi questionado sobre a engenharia financeira para a produção, Flávio disse à Globo News que o Havengate foi montado especificamente para financiar o filme.
— (O dinheiro) não foi para o Eduardo Bolsonaro.
Todos os recursos que foram aportados neste fundo, que é específico para a produção do filme, foram usados integralmente para fazer o filme — disse Flávio. 
O ofício foi enviado à produtora na última terça-feira, no dia 18.
Os advogados da empresa pediram à PF que “especifique” melhor as informações almejadas, e aguardam o retorno. 
— Eles querem saber assim: 'preste contas das despesas', disso e daquilo, mas não especifica exatamente o que eles querem.
 O ofício (da PF) é um pouco abrangente demais.
Só pedimos que eles esclareçam um pouco mais (o que eles querem) — afirmou o perito. 
O relator da investigação é o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça, que em julho instaurou o inquérito sobre o caso. 
— Se a Polícia Federal quer saber quanto pagou para cada pessoa, situação, CPF e CNPJ, se isso tiver autorizado pelo ministro André Mendonça, nós vamos fornecer sem nenhum problema.
Nós temos essas informações — acrescentou o perito, dizendo que só pode quebrar o sigilo dos fornecedores por decisão judicial. 
Antes de a investigação ser determinada por Mendonça, a Procuradoria-Geral da República (PGR) se manifestou de forma favorável à apuração por ver indícios suficientes para a abertura do inquérito.
A partir daí, a PGR pediu diligências à PF.
Os repasses ao filme ‘Dark Horse’ entraram na mira das autoridades após vir à tona conversas ocorridas entre Flávio, pré-candidato à Presidência da República, e o banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master.
Nos diálogos, revelados pelo site The Intercept Brasil, Flávio pede dinheiro a Vorcaro sob o pretexto de que a produção estava com dificuldades para honrar compromissos do projeto. 
Na última semana, a Polícia Federal também enviou um ofício à Agência Nacional do Cinema (Ancine) para que apresente informações sobre o Dark Horse.
 No pedido, assinado na última terça-feira — e revelado pela coluna da Malu Gaspar —, a PF solicita dados sobre o registro do filme, além de “comunicação de produção, certificação ou qualquer outro procedimento administrativo relacionado à obra cinematográfica”.
Gastos do filme 
O laudo produzido pelo perito particular foi incluído em um inquérito da Polícia Civil de São Paulo, que apura se houve desvio de dinheiro de um contrato firmado com a prefeitura de São Paulo sobre conexão de WiFi para o filme, o que o perito refuta. 
Com base em informações fornecidas pela própria produtora, o documento informa que o gasto total com o filme foi de R$ 75,1 milhões (R$ 54 milhões nos EUA e R$ 20,9 milhões no Brasil).
De acordo com Castelo Branco, o filme é uma produção norte-americana e não recebeu nenhum recurso público ou dinheiro oriundo de leis brasileiras de incentivo à cultura. 
Segundo o perito, "quase 100%" dos recursos enviados à produtora foram repassados pelo fundo Havengate Develpment, do qual ele não tem informações. 
— Eu não consigo te responder isso (origem do dinheiro do fundo) porque eu não trabalho no fundo.
O objeto nosso era responder a uma pergunta: quanto custou o filme? Quanto foi gasto no filme? Porque antes se falava em números estratosféricos e se comprovou que foi (cerca) de R$ 70 milhões — alegou. 
Conforme reportagem do Intercept, o fundo americano foi utilizado por Vorcaro para transferir o dinheiro pedido por Flávio.
O senador chegou a solicitar o repasse de R$ 134 milhões, mas foram transferidos o montante de R$ 61 milhões, segundo a reportagem. 
Registro de obra estrangeira
Em meio aos pedidos da PF, a Ancine concedeu na última sexta-feira o registro de obra estrangeira (ROE) do filme Dark Horse.
Este é o primeiro passo para o lançamento do longa, que ainda precisa receber outras autorizações para ser lançado nos cinemas brasileiros.
A tramitação desta etapa durou dois meses.
Flávio negou desvios
Quando foram divulgadas as informações sobre o financiamento do filme, Flávio negou em mais de uma ocasião que os recursos tenham sido destinados ao irmão.
Em nota, o senador afirmou que se tratava de "falsa a insinuação" e sustentou que "os aportes foram direcionados a um fundo específico da produção, com estrutura jurídica própria e fiscalização nos Estados Unidos".
Em outra frente, a PF apura ainda se recursos públicos provenientes de emendas parlamentares foram desviados para abastecer a produção por meio de contratos e repasses à produtora responsável pelo filme.
Essa linha de apuração corre em uma investigação sob relatoria do ministro Flávio Dino, do STF.
Segundo a coluna de Bela Megale, Dino autorizou que a PF acesse dados do inquérito da Polícia Civil de São Paulo. 
Em junho, a polícia paulista deflagrou uma ação contra Karina Ferreira da Gama, produtora do filme.
A investigação apontou suspeitas de fraudes e desvios de recursos públicos no contrato firmado por sua ONG, chamada Instituto Conhecer Brasil (ICB), com a Prefeitura de São Paulo.
Além da ONG, Karina é dona da Go Up Entertainment, produtora responsável pelo "Dark Horse".
Na ocasião, a polícia de São Paulo realizou buscas nas sedes do ICB e da Go Up Entertainment, além de dois endereços residenciais de Karina.