Danielle Winits fala sobre violências sofridas em relacionamentos: 'Sou uma sobrevivente'
Danielle Winits está nua no palco. É como ela se vê, metaforicamente, em cena com o monólogo “Choque! Procurando sinais de vida inteligente”, que acaba de retornar ao Rio, depois de uma temporada paulistana. No espetáculo dirigido por Gerald Thomas, a atriz interpreta diferentes personagens guiados por Trudi, uma ex-consultora criativa que sofre um burnout e vira catadora de lixo, enquanto acredita fazer contato com extraterrestres. “Apareço abatida, como se tivesse levado um soco. Estou sem maquiagem e com as raízes aparentes no cabelo”, diz ela, sobre a densidade dramática da personagem. “Sinto-me plena e com a propriedade de quem tem uma bagagem. E, para mim, é importante que eu realmente faça parte do trabalho. Descobri que não sou apenas um enfeite.”
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Aos 52 anos, Danielle sente-se forte o suficiente para romper, de modo radical, com os rótulos nos quais tentaram enquadrá-la. Famosa pelas personagens sensuais em novelas da TV Globo, a atriz tem nas mãos as rédeas da carreira e chega, com a peça, à sua quarta coprodução. Mas isso tampouco significa que o caminho tenha sido marcado por alguma submissão até aqui. “Desde o começo, pensava em como quebrar os estereótipos”, recorda-se. “Sempre tive que furar a bolha. Fiz isso adicionando um lado cômico às personagens. Eram sexy, sim, mas também humanas.”
Danielle Winits em ensaio do solo 'Choque: procurando sinais de vida inteligente'
Leo Martins
Não é por acaso que o monólogo, cuja temporada carioca fica em cartaz até 31 de maio no Teatro PRIO, na Lagoa, faz brilhar os olhos da atriz. Trudi, segundo ela, é alguém que resolveu dar uma basta, ao observar a realidade à sua volta. “As mulheres estão em situações-limite, ao ponto de saírem fora das suas vidas e viverem à margem da sociedade por não aguentarem a pressão desse mundo marcado por tantas violências”, diz, ao comentar a conexão entre a montagem e a vida real.
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Encenada pela primeira vez em 1985, nos Estados Unidos, pela atriz Lily Tomlin, a peça foi escrita pela americana Jane Wagner, como “Procurando sinais de vida inteligente no universo”. Coube a Thomas a conversão para a montagem atual, costurada por uma profunda sintonia entre o diretor e a atriz. “Ela é uma potência”, ele comenta. “O texto é uma batalha psicológica, social e temporal, e a performance em cena chega a ser atlética física e mentalmente. Ela faz questão de demonstrar isso ao público durante o aplauso. Dá uma respirada profunda de alívio quando chega ao proscênio, assim como os corredores de 400 metros fazem ao ganhar uma corrida.”
Gerald Thomas e Danielle Winits no palco do Teatro Copacabana Palace
Leo Martins
Com o mesmo fôlego, Danielle desfruta a vida após os 50 anos, período definido por ela como o “segundo ato”. “A julgar pelo que escutava desde menina, as minhas expectativas eram as piores possíveis. Porém, estou vivendo o melhor momento, em todos os sentidos.” A satisfação pessoal passa, entre outros aspectos, pela criação dos dois filhos: Guy, de 14 anos, da relação com Jônatas Faro, e Noah, de 18, com Cássio Reis.
Casada atualmente com o ator André Gonçalves, a atriz afirma ter sofrido diferentes violências em relações anteriores: “Posso dizer, com orgulho, que sou uma sobrevivente”. O comentário antecede falas, durante a entrevista, sobre o quanto o diálogo franco com os filhos os tornaram homens conscientes. “Nunca escondi nada deles nem construí um castelo de conto de fadas. Sempre souberam quais eram as minhas dificuldades, assim como acompanharam derrocadas e alavancadas. Mostro o mundo em que a mulher vive. Por mais que possa ter sido doloroso em algum momento, vejo que estou criando homens fortes e com caráter. Quero que façam a diferença ao lado de suas parceiras. E eles sabem que estou lá na frente, na trincheira.”
