Dance Maré: a história do grupo que dançou com Shakira em Copacabana e gravou clipe da Copa no Maracanã

 

Fonte:


A mensagem chegou pelo WhatsApp e parecia improvável demais para ser verdadeira. Dias depois, um grupo que nasceu entre ensaios improvisados na Maré estaria no palco ao lado de Shakira, diante de mais de dois milhões de pessoas em Copacabana, e também no Maracanã, participando do clipe oficial de “Dai Dai”, música da cantora colombiana para a Copa do Mundo, lançada na última quinta-feira (14) em parceria com Burna Boy. Para os integrantes do Dance Maré, o reconhecimento internacional é a continuação de uma história construída muito antes dos holofotes.

Vídeo: Rocinha entra no clima da Copa do Mundo e transforma Via Ápia em galeria a céu aberto

Cultura acessível: Entre livros e cinema negro, Maré vive nova fase com projetos gratuitos

O sucesso começou em 2022, quando Raphael Vicente e o Dance Maré viralizaram nas redes sociais com o vídeo “Waka waka na Maré”, inspirado em “Waka Waka (This time for África)”, hit que marcou a Copa do Mundo da África do Sul, também gravado por Shakira. Filmada dentro da comunidade, a coreografia misturava dança, funk e a estética típica das ruas enfeitadas em tempos de Mundial. O vídeo viralizou e chegou até a cantora, que compartilhou a publicação e chamou a atenção para o grupo carioca.

Shakira anuncia "Dai Dai", música da Copa

Reprodução

A repercussão aproximou o grupo da artista. Em 2025, quando Shakira esteve no Brasil para divulgar a turnê “Las mujeres ya no lloran world tour”, os integrantes do Dance Maré chegaram a encontrá-la no “Domingão com Huck”, onde também dançaram. Daquele momento em diante, o grupo passou a alimentar a expectativa de reencontrá-la em uma futura apresentação da artista no país.

Meses depois, próximo ao dia do show em Copacabana, ocorrido no último dia 2, Shakira voltou a citar o Dance Maré nas redes sociais ao publicar a pergunta: “Como faço? Quero dançar com vocês no Brasil?”. O convite oficial chegou poucos dias antes da apresentação.

O dançarino e influenciador Raphael Vicente lembra que a ideia de gravar o vídeo “Waka Waka na Maré” nasceu da relação afetiva que sempre teve com a música e com o clima das Copas na favela.

— Sempre amei essa cultura dentro da favela, as ruas pintadas, as bandeirinhas... E “Waka Waka” sempre foi uma das minhas músicas favoritas da Shakira. A vontade era unir as duas coisas — diz.

Mais barracas e chance de crescer: Ambulantes ganham cursos no Rio

Segundo ele, a repercussão do vídeo de 2022 foi imediata. O dançarino relembra o momento em que descobriu que a própria cantora havia compartilhado o conteúdo.

— Um amigo me mandou mensagem pedindo para olhar o Twitter. Quando vi, ela tinha postado nosso vídeo inteiro e elogiado. Foi uma emoção muito grande. É uma cena que nunca esqueci — conta.

O Dance Maré recebeu convite para se apresentar com Shakira em Copacabana poucos dias antes do show

Marcelo Theobald/2-5-2026

O convite para subir ao palco em Copacabana veio de forma inesperada. Raphael conta que, inicialmente, o grupo acreditava que a interação da cantora nas redes era apenas simbólica. Mas, uma semana antes do show, a equipe da artista entrou em contato.

— A coreógrafa dela conseguiu meu WhatsApp e disse que a Shakira queria a gente no palco. Aceitamos na hora — lembra.

Assalto a residência: Criminosos invadem casa em bairro de alto padrão na Ilha do Governador e atiram em morador que tenta reagir; vídeo

Durante os ensaios para a apresentação, surgiu um segundo convite: participar da gravação do vídeo promocional da música da Copa do Mundo, filmado no Maracanã.

Integrante do grupo, João Victor Silva lembra que o contato com Shakira aconteceu de forma mais próxima durante a gravação do clipe no estádio:

— Ela foi muito carinhosa e deixou todo mundo à vontade. A equipe inteira fez o ambiente ficar leve. Passamos horas gravando, dançando, brincando, o que acabou criando uma conexão legal com o balé dela. Foi emocionante.

João Victor também descreve a sensação de gravar no estádio junto à cantora.

— Estar no Maracanã já seria especial por si só. Mas viver aquilo com a Shakira, em um projeto ligado à Copa do Mundo, deixou tudo ainda mais incrível. Quando olhávamos para aquele estádio lotado de história, parecia difícil acreditar que estava acontecendo conosco — comenta.

Inscrições abertas: Zona Norte ganha núcleos gratuitos de literatura com escritores, historiadores e artistas

Para quem cresceu na Maré, ocupar um estádio histórico ao lado de uma artista internacional teve significado que ultrapassa a dança. Integrante do coletivo, Taylon Araújo diz que o grupo carrega a preocupação de mostrar outra imagem da comunidade.

— Queremos que as pessoas entendam que na Maré não existe só violência. Tem arte, resistência e potência. O que aconteceu conosco foi mostrar para o mundo o talento que existe dentro da favela — diz.

Criada em 2019, a companhia ganhou projeção internacional

Divulgação

Criado há cerca de sete anos, o Dance Maré surgiu dentro da Paróquia Sagrada Família, no Complexo da Maré. Dos primeiros ensaios, participaram apenas amigos que frequentavam a igreja. Com o crescimento do grupo, os encontros passaram para um estúdio utilizado até hoje por dançarinas e dançarinos.

Maria Eduarda Reis, conhecida como Maddu, afirma que a dança deixou de ser apenas diversão quando começaram a surgir os primeiros trabalhos profissionais.

Segundo ela, o grupo entendeu que precisava levar o projeto mais a sério.

— Foi quando percebemos que a dança realmente poderia transformar as nossas vidas — diz.

Mesmo com a projeção nacional e internacional, a realidade do coletivo ainda envolve conciliar outro trabalho e longas rotinas de ensaio. Muitos integrantes fazem outras atividades para se sustentar.

— Às vezes os ensaios começam às 11h da noite porque é o único horário em que todo mundo consegue se encontrar — conta Maddu. — Já pensamos em desistir muitas vezes, porque o mercado da dança é muito difícil, mas a amizade e o amor pela arte sempre nos fazem resistir.

Taxi Delas: projeto inaugura ponto feminino na Tijuca e planeja chegar a outros bairros

O reconhecimento vindo de Shakira também foi recebido como uma validação da cultura produzida nas periferias. Para Weslley Oliveira, a aproximação da cantora com o grupo representa respeito à estética construída há anos nas comunidades do Rio.

— Durante muito tempo, a dança urbana e o funk foram vistos como sem valor artístico. Ver uma cantora desse tamanho reconhecendo a nossa linguagem mostra que a arte criada na favela conversa com o mundo inteiro — acredita.

A emoção também atravessou as famílias dos integrantes do Dance Maré. A dançarina Mariane Silva lembra do momento em que contou aos pais que dançaria com Shakira.

— Foi um surto coletivo lá em casa. Minha mãe conseguiu ficar na grade do show e, quando acabou a apresentação, eu a ouvi gritando meu nome. Choramos juntas depois. Foi inesquecível — conta.

Ela acredita que a experiência deixa uma mensagem importante para outros jovens de periferia.

— Geralmente, o que aparece sobre a favela na TV são coisas ruins. Então, estar naquele palco mostrando o nome da Maré foi muito forte. Acho que demonstra que os sonhos podem acontecer. Dentro da favela tem muita potência — afirma a jovem.

Além da participação no show em Copacabana e no clipe gravado no Maracanã, o Dance Maré passou por festivais, eventos culturais e apresentações em outros territórios periféricos da cidade. O grupo também participou do Rock in Rio ao lado da cantora Kaê Guajajara e esteve presente em eventos ligados ao legado da vereadora Marielle Franco, assassinada em março de 2018.

Outro integrante do coletivo, Paulo Roberto Souza, o Junin, define a dança como ferramenta de inclusão e pertencimento dentro da comunidade.

— Aprendemos a olhar para a nossa realidade e enxergar beleza nela. Mostrar que a estética da Maré brilha talvez seja uma das coisas que mais nos orgulham — comenta.

Depois do lançamento do clipe da Copa do Mundo e da projeção internacional obtida, os integrantes do Dance Maré tentam assimilar a velocidade dos acontecimentos dos últimos dias. Entre ensaios, vídeos e entrevistas, o coletivo segue fazendo novos planos. Um deles é concluir o espaço próprio do Dance Maré, projeto citado pelos integrantes como o seu maior sonho.

No meio da rotina intensa, a sensação ainda parece difícil de explicar. E resume também o sentimento de Weslley Oliveira, o menino que um dia dançou “Waka Waka” pela primeira vez na escola e que jamais imaginou onde a coreografia o levaria:

— Hoje eu olho para tudo isso e penso: a favela também produz arte em nível internacional.

Initial plugin text