Dados no tatame: como brasileiro aplica análise estatística para transformar o jiu-jitsu

 

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A análise de dados, já consolidada em esportes como futebol e basquete, começa a ganhar espaço também no jiu-jitsu. Um dos nomes que atuam nessa interseção é o brasileiro Fabio Kassai, engenheiro de computação, especialista em Business Analytics e praticante da modalidade há seis anos. Radicado nos Estados Unidos, ele tem direcionado sua experiência profissional para estudar o esporte sob uma ótica estatística e estratégica.

Natural de Jundiaí (SP), Kassai construiu carreira na área de dados ao longo de mais de dez anos, com formação em engenharia de computação, especializações em San Diego e MBA concluído em 2025, em Los Angeles. Atualmente, lidera a Kassai Tech, consultoria voltada à análise de dados aplicada a marketing, com atuação em projetos que vão desde programas de fidelidade até estratégias de retenção de clientes. Entre os trabalhos, destaca-se a atuação com uma empresa listada na NASDAQ. “O foco é sempre transformar dados em decisões práticas e resultado real”, afirma.

O jiu-jitsu entrou em sua rotina ainda no Brasil, pouco antes da mudança para os Estados Unidos, e rapidamente se tornou parte central de sua vida. Já no exterior, o contato com academias de alto nível fortaleceu o vínculo com o esporte. A conexão com a profissão, no entanto, veio posteriormente. “Foi mais um estalo. Observando como a análise de dados vem evoluindo em outros esportes, ficou claro pra mim que isso também poderia ser aplicado no jiu-jitsu”, explica.

Segundo Kassai, o jiu-jitsu ainda é um esporte guiado, em grande parte, pela intuição. A proposta de seu trabalho é justamente reduzir essa dependência do “feeling” e oferecer uma leitura mais objetiva do desempenho. “Às vezes você acha que performou bem de um jeito, mas os números mostram outra realidade”, diz.

Na prática, a análise envolve uma série de métricas. Entre elas, percentual de passagem de guarda, controle de posições, eficiência nas transições, número de finalizações e taxa de conversão entre tentativas e conclusões. Também é possível avaliar tempo em posições dominantes, desempenho ao longo da luta e até indicadores fisiológicos, como desgaste e frequência cardíaca. “Dá pra analisar um rola em vários níveis. Isso ajuda muito a montar estratégia”, afirma.

Além do acompanhamento individual, Kassai destaca o potencial da análise para identificar padrões. “Alguns erros são bem comuns: atacar sempre pelo mesmo lado, baixa taxa de finalização, queda de performance ao longo da luta. Com dados, isso fica evidente”, aponta.

A partir dessas informações, também é possível antecipar comportamentos. “Você consegue prever preferências de jogo, momentos de maior eficiência e até possíveis falhas. Isso ajuda muito na preparação contra um adversário”, diz.

O trabalho evoluiu de análises informais, feitas como hobby, para um projeto mais estruturado. Em 2025, Kassai iniciou o desenvolvimento do BJJ360, iniciativa voltada ao estudo do jiu-jitsu por meio de dados. A proposta inclui suporte a atletas e equipes, além de aplicações na organização de competições, como análise de chaveamentos e perfis de lutadores. “O que mais chamou atenção foi como padrões ficam claros quando você olha os dados. Coisas que passam despercebidas no feeling ficam óbvias quando você mede”, afirma.

Para ele, o jiu-jitsu ainda está em estágio inicial nesse campo, o que abre espaço para inovação. “É um mercado praticamente aberto, com muito espaço pra crescer e evoluir”, analisa.

A tendência, segundo Kassai, é que ferramentas como dashboards e relatórios passem a fazer parte da rotina de treinadores e atletas, principalmente no alto rendimento. “Hoje muita coisa ainda é feita de forma intuitiva, como estratégia de luta e ajustes de jogo. Os dados podem deixar tudo muito mais preciso”, afirma.

Faixa-roxa e praticante ativo, ele também aplica as análises na própria evolução. A expectativa é ampliar o alcance do trabalho e consolidar o uso de dados como ferramenta estratégica no esporte. “O maior potencial hoje é ajudar atletas a evoluírem de forma mais rápida e estratégica. Com dados, você para de treinar no escuro e começa a tomar decisões mais inteligentes”, conclui.