Dada como morta após acidente aéreo, primeira campeã olímpica do atletismo feminino voltou às Olimpíadas para vencer novamente há quase 100 anos; relembre
O calor de uma tarde de domingo, em 28 de junho de 1931, parecia comum nos arredores de Chicago, até que um pequeno avião despencou do céu e mudou para sempre a história de Elizabeth “Betty” Robinson. Aos 19 anos, a velocista americana, já campeã olímpica e símbolo do atletismo feminino nos Estados Unidos, foi retirada desacordada dos destroços e chegou a ser dada como morta por quem prestou os primeiros socorros. Colocada no porta-malas de um carro para ser levada a uma funerária, ela só foi salva porque o agente funerário percebeu que ainda respirava .
Levado inicialmente para Oak Forest, conhecido como “a enfermaria dos pobres”, e depois transferida para um hospital em Chicago, Betty apresentava quadro gravíssimo: concussão severa, múltiplas fraturas no fêmur esquerdo, no quadril e no braço, além de lesões internas. Os médicos não acreditavam que ela voltaria a andar normalmente, muito menos a competir. Seu primo, Wilson Palmer, que pilotava a aeronave, também sobreviveu, mas teve uma das pernas amputada. Nenhum dos dois conseguiu se lembrar do que aconteceu no momento da queda .
A menina que correu atrás do trem e entrou para a história
Nascida em 23 de agosto de 1911, em Riverdale, Illinois, Betty descobriu o atletismo quase por acaso. Estudante do Thornton Township College, em Harvey, ela chamou a atenção do professor de biologia Charles Price ao correr desesperadamente para alcançar um trem em movimento e conseguir embarcar. Ex-atleta e treinador da escola, Price percebeu o talento imediato da jovem e passou a treiná-la, mesmo sem existir equipe feminina oficial na instituição .
Em poucos meses, Betty já competia em alto nível. Em 1928, com apenas 16 anos, venceu a prova dos 100 metros nos Jogos Olímpicos de Amsterdã e se tornou a primeira mulher da história a conquistar uma medalha de ouro olímpica no atletismo. Também levou prata no revezamento 4x100 metros e voltou aos Estados Unidos como celebridade nacional, recebida por cerca de 20 mil pessoas em sua cidade natal. A imprensa a chamava de “Rainha Olímpica” .
O acidente aéreo, porém, parecia encerrar definitivamente sua carreira. Betty passou seis meses em uma cadeira de rodas e levou cerca de dois anos para voltar a andar com alguma normalidade. Sua perna esquerda ficou mais curta e rígida, impedindo até mesmo a posição tradicional de largada. Ainda assim, recusou-se a aceitar o fim. “Estou determinada a não deixar que este acidente arruíne minha vida futura”, declarou à imprensa ao deixar o hospital .
Contra todas as previsões, ela voltou a treinar e adaptou seu corpo para competir no revezamento, onde podia largar em pé. Em 1936, nos Jogos Olímpicos de Berlim, integrou a equipe americana ao lado de Harriet Bland, Annette Rogers e Helen Stephens. O quarteto conquistou a medalha de ouro e transformou Betty em um símbolo mundial de superação — cinco anos após ter sido considerada morta em um campo perto de Chicago .
Depois da aposentadoria, aos 25 anos, ela levou uma vida discreta, trabalhou em uma loja de ferragens, casou-se com o empresário Richard Schwartz e teve dois filhos. Em 1996, aos 84 anos, carregou a tocha olímpica nos Jogos de Atlanta, reconhecida como pioneira e exemplo de resiliência. Betty Robinson morreu em 18 de maio de 1999, vítima de câncer, em Aurora, no Colorado, deixando uma trajetória que parece ficção, mas entrou para a história do esporte mundial .
