Da perda de confiança à fadiga mental: usar IA em excesso faz mal?

 

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No geral, a ideia de usar inteligência artificial no dia a dia está associada a aumentar a produtividade, agilizar tarefas e automatizar processos. Mas e quando essa relação se torna o oposto do que deveria ser, ou seja, cria mais ineficiência e angústia do que facilidades?

Nas últimas semanas, um termo ganhou espaço na discussão sobre IA: o “brain fry” (algo como “cérebro frito”), expressão usada em uma pesquisa da Harvard Business Review para nomear a fadiga mental associada ao excesso de inteligência artificial.

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A partir de uma pesquisa com 1.488 trabalhadores nos EUA, o estudo sugere que a IA pode tornar tarefas mais complexas no trabalho em vez de simplificá-las. O processo faz parte do incentivo das empresas para que seus funcionários usem cada vez mais esses sistemas, o que inclui até métricas de desempenho baseadas na adoção de IA.

O desgaste aparece entre quem precisa supervisionar essas ferramentas, principalmente as IAs chamadas de “agentes”, que funcionam de forma autônoma. Trabalhadores que têm esse papel relataram cerca de 14% mais esforço mental no trabalho, segundo o estudo.

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Dificuldade de concentração e decisões mais lentas estão entre os problemas associados ao “brain fry”, mais frequente nas áreas de marketing (26%) e recursos humanos (19,3%). Um dos ouvidos pelos pesquisadores disse o seguinte: "Eu me pegava relendo as mesmas coisas, repensando muito mais do que o normal e ficando impaciente. Meu raciocínio não estava comprometido, mas confuso.”

A terceirização cognitiva

A discussão ainda é emergente. No fundo, está ligada à tentativa de compreender quais serão, afinal, os efeitos do uso de IA para o comportamento e a cognição humana. Um ponto central é o impacto de delegar tarefas que envolvem pensar, aprender, interpretar o mundo e tomar decisões.

Em outro relatório da Harvard Business Review, alguns dos mesmos pesquisadores descreveram outro fenômeno ligado ao uso de IA no trabalho chamado de o “workslop” — quando documentos e apresentações gerados por IA acabam criando mais trabalho para colegas que precisam corrigir erros.

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Em “Híbridos: o Futuro do Trabalho Entre Humanos e Máquinas”, o cientista de dados Ricardo Cappra fala da “proletarização cognitiva” , que trata da perda de autonomia para a IA, em um processo que mina a criatividade e o senso crítico. Um dos sinais problemáticos é a incapacidade de iniciar tarefas sem recorrer à ferramenta, diz ele:

— Pensar dá trabalho, elaborar um argumento exige tensão e quando uma pessoa evita esse esforço sistematicamente e recorre à IA, ela acaba atrofiando parte do processo, perde a confiança no próprio repertório — afirma Cappra, que considera que a IA pode ser uma extensão das capacidades humanas quando usada de forma consciente.

Quem produziu isso, afinal?

Chegar a uma conclusão definitiva sobre o impacto da IA na cognição e no comportamento ainda deve levar tempo. O desafio é comparável ao que aconteceu com as redes sociais: apesar de estarem em uso há duas décadas, a ciência ainda discute quais são exatamente os mecanismos de dependência e os impactos psicológicos associados.

— Mas é claro que há um efeito — afirma Cristiano Nabuco, psicólogo especialista em dependências tecnológicas do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da USP (HC-FMUSP). Ele cita, no caso da IA, o processo de “sequestro cognitivo": — Na medida em que você passa a terceirizar tudo para o outro, deixa de aprimorar habilidades. A tendência é que você, enquanto pessoa, se dilua.

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A “diluição” aparece quando o indivíduo passa a ter dificuldade em distinguir o que foi produzido por ele e o que veio da IA. A autoria fica difusa, o que pode afetar a autoestima profissional. Aí surge uma dúvida recorrente: “Mas não fui eu exatamente que fiz isso, né?”.

Para a psicóloga Anna Lucia King, especialista em dependência digital e coordenadora da pós-graduação em Dependência Digital da Anhanguera, a tendência é que pessoas mais inseguras ou com necessidade de validação externa recorram com mais frequência à IA para tomar decisões.

— Além de precisarem se apoiar mais nessas ferramentas, são pessoas que acabam mais influenciáveis pelas respostas. E cada vez que fazem mais perguntas, a IA gera respostas mais de acordo com o que ela precisa — diz a psicóloga, que pondera que nem que nem todo uso intenso configura um quadro clínico, ou seja, uma dependência patológica. —O problema é saber usar com equilíbrio.

Os sinais da dependência em IA

Mas como medir a dependência em IA? Um estudo publicado na revista Computers in Human Behavior propõe uma escala baseada no grau de identificação dos usuários com afirmações sobre o uso da tecnologia, em um modelo semelhante ao aplicado a outras dependências.

A escala foi testada em seis estudos com mais de 1,3 mil participantes. Os pesquisadores identificaram três dimensões da dependência: preocupação cognitiva (a tecnologia passa a estruturar como a pessoa pensa e toma decisões); consequências negativas (como dificuldade de realizar tarefas sem essas ferramentas); e abstinência (marcada por irritação quando o uso é interrompido).

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— Embora os usuários recorreram à IA para se sentirem mais produtivos ou eficientes, o uso excessivo eventualmente enfraquece o pensamento crítico e aumenta a procrastinação — explica Adalia Goh, pesquisadora da Singapore Management University e coautora da pesquisa. — Por outro lado, é possível que indivíduos que já apresentam dificuldades nessas áreas tenham maior propensão a desenvolver dependência.

Segundo Goh, o próximo passo é acompanhar os participantes ao longo do tempo para entender se o uso intenso da IA leva a problemas como procrastinação e dificuldade de pensar sem a ferramentas, ou se pessoas com essas dificuldades recorrem mais à tecnologia..

O cérebro diante do ChatGPT

Uma das preocupações é sobre o quanto esse “apoio”, no longo prazo, afeta a capacidade de aprendizagem, por exemplo.

Um dos estudos que mais repercutiu sobre isso foi feito por pesquisadores do Massachusetts Institute of Technology (MIT), que mediram a atividade cerebral de 54 pessoas durante a produção de ensaios. Aqueles que usaram ChatGPT para escrever apresentaram menos engajamento neural, lembraram menos do próprio texto e tiveram mais dificuldade em reconhecer autoria do próprio trabalho.

Nabuco ressalta que ainda não há evidência suficiente para conclusões definitivas sobre os efeitos da IA no comportamento e na cognição humana. Mais estudos, com amostras mais representativas, ainda são necessários, avalia.

— Por enquanto estamos em “lua de mel” com a IA. O que as pessoas dizem é que é muito bacana e que traz benesses, e é natural que seja assim no primeiro momento. Na medida em que o tempo passar, vamos ver os efeitos colaterais — acrescenta o psicólogo.