Da França à Albânia, onda de protestos liderada por jovens se espalha pela Europa contra o custo de vida: 'Tentando fazer revolução'

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Fonte da notícia: O Globo O Globo

Uma onda de protestos tomou as ruas de vários países europeus neste fim de semana, impulsionada pela alta do custo de vida, pela deterioração dos serviços públicos e, em alguns casos, por denúncias de corrupção. Na França, os atos de sábado terminaram com mais de 1.800 presos e prédios públicos incendiados. Na Bélgica e na Itália, protestos estudantis e sindicais acabaram em confrontos com a polícia, e em Portugal manifestantes montaram um acampamento no centro de Lisboa contra o preço da moradia. Na Albânia, estudantes enfrentaram a tropa de choque pelo quinto dia seguido no sábado, exigindo a renúncia do primeiro-ministro, Edi Rama. Em comum, os protestos têm o protagonismo dos jovens e uma pressão econômica que se agravou com o custo da educação e a precarização das escolas, o preço da moradia e a perda do poder de compra. Após protestos com quase 2 mil presos: França contabiliza destruição de lojas e prédios públicos, e distúrbios viram instrumento eleitoral Quer morar fora? Veja guia interativo do GLOBO que reúne informações sobre 36 países Quer ler mais notícias de Mundo? Acompanhe o canal no WhatsApp França O maior dos atos ocorreu na França, onde entre 550 mil e 800 mil pessoas foram às ruas no sábado, segundo as autoridades e a central sindical CGT, respectivamente. A mobilização foi convocada pelo movimento dos Coletes Amarelos e uniu estudantes que protestam desde setembro por melhores condições nas escolas. À margem das marchas, majoritariamente pacíficas, houve saques e ataques a prefeituras. A de Limoges, um prédio do século XIX, foi em grande parte destruída por um incêndio.

incêndio que destruiu parte da prefeitura de Limoges Melaine Payzal / AFP Neste domingo, o país amanheceu contabilizando os danos. Mais de 1.800 pessoas foram presas e mais de 500 policiais, gendarmes e bombeiros ficaram feridos, segundo o ministro do Interior, Laurent Nuñez. Cerca de 1.500 lojas foram danificadas. O governo atribuiu a violência à “ultraesquerda” e ao partido França Insubmissa, cujo líder, Jean-Luc Mélenchon, acusou o premier Sébastien Lecornu de ser “responsável pelo caos”. Os prefeitos de Paris, Marselha e Lyon pediram uma reunião com o primeiro-ministro, e o presidente Emmanuel Macron fará um pronunciamento à nação às 20h no horário local (15h em Brasília). Bélgica Na Bélgica, algumas centenas de pessoas, em sua maioria jovens, protestaram no sábado no centro de Bruxelas, em atos inspirados em parte pela mobilização na vizinha França. Grupos estudantis, de acordo com a agência Reuters, protestam contra o aumento dos custos da educação e contra reformas que, segundo eles, podem tornar o ensino superior menos acessível. Muitos manifestantes usavam máscaras e gritavam palavras de ordem. A polícia usou gás lacrimogêneo e canhões de água. Contexto: Protestos contra o custo de vida na França mobilizam ao menos 550 mil pessoas; governo cita 1,2 mil detidos e 150 policiais feridos “O que está acontecendo em Bruxelas já não é um simples protesto”, escreveu no X o ministro do Interior belga, Bernard Quintin, que prometeu usar “todos os meios necessários para restabelecer a ordem diante dos desordeiros”.

Também houve protesto em Liège, no leste do país, onde estudantes já haviam se mobilizado neste mês contra o sistema de ensino francófono, citando o aumento dos custos e a dificuldade de acesso a material de estudo. Itália Na Itália, um dia de mobilização estudantil contra o custo de vida, os baixos salários e a insegurança no emprego terminou em confrontos em Bolonha e Milão. Em frente à estação ferroviária de Bolonha, jovens atiraram pedras e garrafas contra a polícia, que respondeu com gás lacrimogêneo e canhões de água. Em Milão, uma barricada foi incendiada diante da catedral, e a polícia tentou dispersar encapuzados da Galleria Vittorio Emanuele II, a galeria de luxo ao lado da praça.

Barricada de papelão e lixo é incendiada durante confrontos entre manifestantes e a polícia em um protesto, na Piazza Duomo, em Milão PIERO CRUCIATTI/AFP Houve também confrontos em Turim, segundo a agência italiana Ansa. Em Roma, onde dezenas de milhares participaram de um ato sindical pacífico na Piazza del Popolo, o secretário-geral da Confederação Geral Italiana do Trabalho (CGIL), Maurizio Landini, anunciou uma greve geral para 20 de novembro, mesma data de uma greve estudantil prevista em escala europeia. Portugal Em Lisboa, centenas de manifestantes, em sua maioria jovens, montaram dezenas de tendas na Praça do Rossio, no coração turístico da capital, depois de uma marcha que reuniu milhares de pessoas em todo o país contra o preço da moradia e o custo de vida. A iniciativa ampliou um acampamento que começou no Porto e ecoa protestos que ocorrem há semanas na vizinha Espanha. Os preços da habitação em Portugal subiram 124% entre 2015 e 2024, cerca do dobro da média da União Europeia, segundo dados oficiais. Manifestantes protestam na Praça do Rossio, no centro de Lisboa Filipe Amorim/AFP — A classe social portuguesa que paga impostos, que mantém este país a funcionar, está sob ataque e a perder os seus direitos, nomeadamente o direito à habitação — afirmou a assistente social Elena Costa, de 46 anos.

No início da semana, o primeiro-ministro Luís Montenegro disse compreender a indignação, mas pediu aos rivais políticos que não importassem para Portugal “climas de instabilidade e protesto” que, segundo ele, não têm respaldo na sociedade portuguesa. A fala foi interpretada como uma referência à França. Albânia Na Albânia, os protestos chegam neste domingo ao sexto dia consecutivo de confrontos. No sábado, manifestantes mascarados, muitos deles estudantes do ensino médio e universitários, atiraram pedras e coquetéis molotov contra a polícia de choque que protegia o Ministério da Educação, em Tirana, segundo a rede britânica BBC. A polícia respondeu com canhões de água e gás lacrimogêneo, e há relatos de que balas de borracha foram usadas pela primeira vez. Oitenta pessoas já foram acusadas de desordem, e centenas foram presas ou estão sob investigação. 'Coletes amarelos': entenda o movimento que inspira nova onda de protestos na França Os atos, que começaram em junho, viraram um movimento contra o governo do primeiro-ministro Edi Rama, no poder há 13 anos, depois de denúncias de corrupção ligadas à sua administração. A promotoria especial prendeu recentemente a chefe do serviço secreto, Vlora Hyseni, acusada de ajudar um empresário próximo de Rama a escapar da Justiça. Rama nega ter conhecimento de irregularidades e atribuiu os protestos à oposição e à “agenda sinistra de atores estrangeiros”, sem dizer quais. À BBC, um estudante de Medicina de 19 anos que se identificou apenas como George deixou clara a influência francesa. — Fomos pacíficos por 135 dias. Agora estamos tentando fazer como na França, estamos tentando fazer uma revolução — disse. Tunísia Do outro lado do Mediterrâneo, mais de 3 mil pessoas marcharam no sábado em Túnis contra a alta do custo de vida e o retrocesso nas liberdades. O ato foi convocado pela central sindical UGTT e por partidos de oposição, sob forte presença policial. A Tunísia foi a única democracia a emergir da Primavera Árabe, em 2011, mas organizações de direitos humanos denunciam uma forte erosão das liberdades desde que o presidente Kais Saied concentrou poderes, em 2021. Pessoas se reúnem para uma manifestação antigovernamental ao longo da Avenida Habib Bourguiba, no centro de Túnis FETHI BELAID / AFP “Não há democracia sem liberdades” e “não há dignidade com pobreza”, diziam cartazes. — Temos o direito de viver com dignidade. As políticas atuais não tranquilizam os jovens, e a corrupção bloqueia tudo — afirmou a estudante de Odontologia Mayssa Batikh, de 21 anos. Com AFP

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