Da comida à gasolina, Europa corre para conter choque de preços causado pela guerra no Irã
Os governos europeus estão se mobilizando para conter a alta nos preços de energia e alimentos, enquanto a guerra no Oriente Médio ameaça provocar uma nova onda de pressão inflacionária. Na Alemanha, os postos de combustíveis só poderão alterar os preços uma vez por dia. Na Grécia, o governo vai impor um teto para a margem de lucro de empresas que vendem combustíveis e alimentos pelos próximos três meses. Já a Itália avalia usar a arrecadação extra de impostos sobre combustíveis, que cresce quando os preços sobem, para amenizar o impacto no bolso dos consumidores, além de punir empresas que tentem tirar proveito da crise.
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— Faremos tudo o que pudermos para evitar especulação sobre a crise — disse a primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, a parlamentares nesta quarta-feira. Segundo ela, o governo está “prestando a máxima atenção” às possíveis repercussões econômicas da guerra com o Irã.
Risco de salto inflacionário
As medidas mostram o quanto a União Europeia leva a sério a ameaça de um novo salto inflacionário provocado pelo conflito no Irã, que praticamente interrompeu o fluxo de mercadorias e energia pelo Estreito de Ormuz.
Isso deixou o bloco exposto a uma competição intensa no mercado global, e os líderes da UE devem se reunir em Bruxelas na próxima semana para discutir, entre outros temas, como reduzir os custos de energia.
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A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, afirmou que a instituição avalia um teto para os preços do gás natural como parte de um esforço mais amplo para reduzir o impacto do combustível nas contas de energia. A última vez que o bloco adotou uma medida desse tipo foi durante a crise energética após a invasão da Ucrânia pela Rússia — embora o mecanismo nunca tenha sido acionado.
Gás 50% mais caro na Europa
Até agora, 10 dias de conflito com o Irã já custaram aos contribuintes europeus € 3 bilhões (US$ 3,5 bilhões) adicionais em importações de combustíveis fósseis, disse von der Leyen.
— Esse é o preço da nossa dependência.
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Além das medidas nacionais e regionais discutidas na Europa, países da OCDE concordaram nesta quarta-feira em liberar 400 milhões de barris das reservas emergenciais de petróleo, coordenadas pela Agência Internacional de Energia. É a maior liberação já realizada.
Mesmo antes de Estados Unidos e Israel lançarem ataques contra o Irã, a Europa já enfrentava dificuldades para evitar o fechamento de fábricas por causa dos custos elevados. Uma sequência de crises - da pandemia de Covid-19 à guerra na Ucrânia - fez disparar os preços de bens essenciais e ajudou a alimentar movimentos populistas no bloco. A mais recente instabilidade no Oriente Médio está acelerando a busca dos governos por soluções rápidas.
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Os preços do gás na Europa subiram cerca de 50% desde o início do conflito, enquanto o petróleo está aproximadamente 25% mais caro.
Tentativa de frear preços
No mês passado, a Itália já havia iniciado um esforço unilateral para reduzir os preços de energia no país antes da última disparada, com um decreto que retiraria custos de carbono das contas de eletricidade — medida que autoridades agora esperam acelerar.
Outros países, como Polônia e República Tcheca, também pediram o enfraquecimento de partes do Sistema de Comércio de Emissões da União Europeia, um pilar central da política climática do bloco, para aliviar o peso sobre as empresas.
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A Áustria prometeu redistribuir aos consumidores qualquer arrecadação extra de impostos resultante da alta dos combustíveis. O país anunciou uma série de medidas nesta quarta-feira, incluindo a prorrogação de um programa estratégico de reservas de gás de 20 terawatts-hora, a antecipação para julho de um teto para tarifas de energia residencial e a obrigação de que fornecedores de combustível limitem reajustes de preços a três vezes por semana.
— Estamos enviando uma mensagem de que essa turbulência econômica não deve gerar especulação que amplifique um problema já existente — disse o primeiro-ministro da Grécia, Kyriakos Mitsotakis.
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Outros países ainda avaliam possíveis ações. O governo francês tem monitorado anomalias de preços em postos de combustível e realizará uma reunião na quinta-feira para discutir como proteger os consumidores do aumento de custos.
O temor é que, quanto mais tempo o conflito com o Irã se prolongar, mais intenso pode se tornar o choque de preços. Peter Kazimir, membro do Conselho do Banco Central Europeu, disse que a instituição pode ter de elevar os juros antes do esperado por causa da guerra e de seu impacto sobre a inflação.
— Estaremos prontos para agir, se necessário — afirmou à Bloomberg.
