Da ameaça ambiental ao impacto nos empregos: por que a Geração Z desaprova cada vez mais a inteligência artificial
Expectativa: a geração Z, dos nativos digitais entre 14 e 29 anos, é mais propensa a embarcar — e navegar sem muitas turbulências — nas águas da inteligência artificial. Realidade: muitos desses jovens estão ansiosos, desesperançosos ou até irritados com os impactos dela no presente e no futuro. Há até quem abandone o barco, banindo as ferramentas de suas vidas.
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Essa reação diante do senso comum vem amparada por dados de uma pesquisa da empresa de análise de dados Gallup, divulgada em abril, mostrando que o sentimento de entusiamo dos Gen Z com a IA caiu 14 pontos percentuais (agora é 22%) e a raiva aumentou nove pontos (está em 31%) do início de 2025 para o de 2026. O uso praticamente não se alterou, embora a evolução anual da tecnologia seja flagrante: 51% utilizam semanalmente, quase o mesmo número de 2025. Os dados focam nos Estados Unidos, mas a ambiguidade por aqui aparece nas universidades e no mercado de trabalho: os zennials podem até usar a IA, mas estão cheios de ressalvas.
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— Consistentemente, eles são um pouco mais sensíveis aos danos potenciais e estão dispostos a adotar uma postura de “esperar para ver” em relação à IA. Até que saibamos: “isso é bom ou ruim para o meu aprendizado? É bom ou ruim para o meu trabalho?” — diz Zach Hrynowski, pesquisador da Gallup, em conversa com O GLOBO por chamada de vídeo, que adianta: em 2027 o mesmo instituto lança uma pesquisa global, com diversas faixas etárias de mais 140 países, sobre o uso de IA.
Os pontos de interrogação na cabeça dos zennials passam pelo impacto ambiental dos data centers de grandes corporações como a OpenAI (dona do Chat GPT) e Google (a do Gemini) e as mudanças no mercado de trabalho com uma tecnologia generativa capaz de realizar tarefas complexas. A estudante de Letras carioca Marina Amorim, de 24 anos, por exemplo, já sente no bolso os efeitos da automatização na área de tradução, de onde vêm alguns de deus trabalhos como freelancer.
—Frequentemente, nos pagam menos para revisar a tradução da IA. Só que ela não é tão boa assim e acabamos ajustando o texto também sem receber por isso — diz a jovem, cuja irmã, a confeiteira e estudante de cinema Letícia, de 27 anos, segue a mesma cartilha de uso zero de IA e, inclusive, instalou uma ferramenta no navegador de internet para bloquear os resumos automáticos de IA que aparecem no topo das buscas do Google.
Impacto no trabalho
A ansiedade de muitos jovens, ainda na escola ou faculdade ou recém-saídos delas, vem na esteira da contradição: a inteligência artificial vai eliminar funções ou até mesmo profissões, mas a única opção viável é usá-la para não ficar para trás. É tipo “se correr o bicho, se ficar o bicho come”, uma situação um tanto aterrorizante para quem começa a vida adulta.
—Quando a IA não está roubando um trabalho, está otimizando-o num nível que as pessoas querem tudo para ontem — diz Carolina Luna, de 25 anos, assistente de marketing e estudante de cinema no Rio. — É angustiante. Nosso tempo sempre está voltado para a produtividade e performance.
Não é de se admirar, portanto, que essa angústia traga, a reboque, a nostalgia das décadas analógicas de 1990 e início de 2000. É a saudade desse tempo não vivido que explica o desejo da garotada por câmeras fotográficas analógicas ou digitais ou o frenesi em torno de séries e filmes que retratem esse período, como a recente “Love story: John F. Kennedy Jr. e Carolyn Bessette”, sucesso do Disney+ que se passa na Nova York dos anos 1990.
— Esses jovens nasceram com o conceito de que a tecnologia vai resolver problemas — diz Humberto Marques, professor da PUC Minas e parte da rede do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Inteligência Artificial Responsável. —Aí apareceu a IA, com um enorme hype, mas que não ajuda a resolver as questões humanas que estão incomodando essa geração.
Uma das preocupações desta geração, mais profunda do que estar empregada ou não, é estar viva. Os recurso do planeta dão conta de mais revolução? A garotada sabe, na ponta da língua, listar os impactos da construção de data centers de grandes empresas de tecnologia, que reconfiguram o espaço geográfico que ocupam e usam uma quantidade abissal de recursos hídricos para resfriamento de suas máquinas. Um relatório da Aliança de Sustentabilidade Digital do governo britânico, publicado no fim do ano passado, destaca que o consumo global de água deve aumentar de 1,1 bilhão para 6,6 bilhões de metros cúbicos até 2027 por causa da inteligência artificial generativa.
—Não podemos colaborar descaradamente com isso — diz o estudante de computação Gaspar Vieira, de 22 anos, de Niterói, que usa as ferramentas de forma comedida, apenas para ajudá-lo a escrever códigos de programação de softwares. — Olha a direção em que a indústria está indo, com desmatamento, consumo abusivo de água — enumera.
Senso crítico
Há um incômodo também com a forma como os mais velhos lidam com a situação. Se os zennials estão cabreiros, os millennials parecem muito mais empolgados, ou, na pior das hipóteses, mais resignados.
— Eles tentam cada vez mais integrar inteligência artificial em tudo, mais do que qualquer outra geração — diz a carioca Giovana Soares, de 22 anos, assistente numa startup de educação. — Se estivessem ocupando funções mais executoras, como as de estagiários, assistentes e analistas, e menos de liderança, sentiriam o mesmo incômodo que nós.
Parte da Comissão Permanente de Inteligência Artificial da UFMG, a professora Geane Alzamora olha para essas ponderações como parte de um momento pós-lua de mel com as novidades digitais.
—Estamos num momento de revisão crítica desse processo, de um uso mais sofisticado, mas não de negacionismo — diz a pesquisadora. — Quando aparece uma tecnologia nova, as pessoas ficam mesmo extasiadas. Mas agora começa a aparecer desconfianças quanto à qualidade do material produzido por IA generativa e como ele se insinua na vida cotidiana.
Por falar em qualidade, Giovana pede para repararmos: nas redes sociais, a geração Z atribui a tudo que é tosco o dedo eletrônico da IA. E ela dá um exemplo fresquinho do show de Shakira no Todo Mundo no Rio no fim de semana passado.
— Um monte de gente comentou a Shakira ia acabar colocando imagens da Moranguete e do Abacatudo no telão do show porque estava desesperador.
‘Parece desleixo’
Não entendeu a “ref” (abreviação de referência para os zennials)? A turma das redes sociais achou tão toscas as projeções usadas quando a cantora saia do palco que juravam ser um produto de IA, tal qual as novelinhas de frutas que dominaram as redes sociais nas últimas semanas.
—A gente faz muita piada porque se é a inteligência artificial é usada por grandes marcas a sério, parece desleixo.
