O governo retomou o mote da defesa da soberania nacional e elevou o embate com a família Bolsonaro, adversária eleitoral, ao reagir na sexta-feira à decisão do governo dos Estados Unidos de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas. Sem citar o nome do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), a quem enfrentará na tentativa de reeleição, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse que o opositor é um “traidor” da pátria por ter pedido ao presidente Donald Trump que a medida fosse adotada.
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As manifestações ocorreram de duas formas, ambas com conotação política: uma nota do Palácio do Planalto e um discurso de Lula durante evento em Sergipe. Flávio, por sua vez, esteve na sexta-feira pela manhã na casa do ex-presidente Jair Bolsonaro, em prisão domiciliar, e recebeu a orientação de seguir com o tema na pré-campanha eleitoral, na tentativa de desgastar o Planalto.
“Não somos moleques”
O assunto mobilizou a fala de Lula durante uma cerimônia de anúncio de investimentos da Petrobras. Ele fez referência ao próprio encontro que teve com Trump, no início do mês, quando esteve na Casa Branca. O presidente já havia afirmado que eles não tinham tratado sobre a mudança na classificação sobre facções, mas disse na sexta-feira que entregou documentos ao governo americano, um deles sobre crime organizado.
— O seu Marco Rubio (secretário de Estado dos EUA) não estava lá (na reunião). Possivelmente porque estivesse preparado para ajudar o filho de um bolsonarista que é candidato na eleição nesse país e não tem vergonha na cara de trair a nossa pátria. De ir aos Estados Unidos pedir intervenção americana no Brasil — disse Lula. — Nós não aceitamos ser tratados como moleques nem como se fôssemos uma republiqueta.
O governo era contra a medida, tomada dois dias após Flávio e Trump se reunirem.
“A segurança da nossa população é importante demais para ser manipulada politicamente por traidores que tentam confundir esses conceitos. Por falsos patriotas, envolvidos com o crime organizado, que pedem a autoridades estrangeiras a interferência em assuntos brasileiros”, diz a nota do Planalto.
O texto lembra ainda a ação do ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro e aliados quando o governo americano impôs o tarifaço a produtos brasileiros e sanções econômicas contra autoridades.
“É deplorável que mais uma vez integrantes da família Bolsonaro viajem aos Estados Unidos para defender intervenção estrangeira no Brasil, como já fizeram no tarifaço, que causou tantos danos ao nosso país”, afirma a nota.
O comunicado ressalta ainda projetos do governo na área da segurança, como a Lei Antifacção, aprovada no Congresso. Uma das preocupações do Planalto é evitar que a crítica à medida adotada pelos EUA soe como um discurso que “protege bandidos”, já que a esquerda historicamente é associada a uma postura mais leniente no combate ao crime do que a direita. O tom do texto, definido em uma reunião no Planalto, levou em conta esse aspecto — a divulgação ocorreu quase 18 horas após o anúncio dos EUA.
“Aprovamos uma lei de combate às facções e milícias com penas que chegam a até 80 anos de prisão, a maior prevista em toda a legislação brasileira. O governo do Brasil conduz o programa ‘Brasil contra o Crime Organizado’, que combate as facções e milícias desde o seu braço armado nas esquinas até o seu andar de cima”, ressalta a nota.
O caminho adotado é visto como uma forma de se contrapor a Flávio. Lula deseja frisar, segundo aliados, que a família Bolsonaro trabalha contra os interesses do país, já que a classificação das facções como grupos terroristas pode prejudicar empresas brasileiras.
A citação à atuação dos adversários eleitorais foi sugerida pelo ministro da Secretaria de Comunicação Social, Sidônio Palmeira, e avalizada por Lula. O texto também teve as contribuições da ministra Miriam Belchior (Casa Civil) e dos ministros Dario Durigan (Fazenda), Wellington Lima e Silva (Justiça) e Mauro Vieira (Relações Exteriores).
Na avaliação de interlocutores de Sidônio, a inclusão teve como objetivo evidenciar que a decisão dos EUA teve interferência direta da família Bolsonaro, com argumento de que não há motivo para esconder isso da sociedade.
O tom eleitoral também foi contemplado pela manifestação do ex-ministro Fernando Haddad, pré-candidato do PT ao governo de São Paulo. Em entrevista na sexta-feira, ele afirmou que Flávio e o governador do estado, Tarcísio de Freitas, deram um “novo tiro no pé”, porque a tentativa dos EUA é colocar o Brasil em uma relação de “subserviência”.
Impacto nas eleições
As pré-campanhas já começam a avaliar qual impacto a decisão do governo Trump terá nas eleições brasileiras. Para o cientista político Leandro Consentino, o anúncio tem potencial para render dividendos políticos para os dois lados.
— Flávio vai transformar isso num discurso pró-segurança pública, que é uma preocupação do eleitorado hoje, e num um sinal de colaboração com EUA, que é uma direita alinhada aos seus valores — afirma o professor do Insper. — Já o governo aposta na defesa de uma agenda de combate à criminalidade, mas que não pode sacrificar a soberania nacional em detrimento disso. O modus operandi passa pela classificação da oposição como entreguista e colaboracionista com Trump.
Já Flávio se reuniu com o pai na sexta-feira, após voltar dos EUA. Segundo aliados, o ex-presidente avaliou que a viagem teve saldo positivo e se mostrou animado com a decisão anunciada pela gestão Trump. Na conversa, segundo interlocutores, defendeu que o filho explorasse politicamente o episódio e reforçasse críticas ao governo na área de segurança, tema considerado um dos mais favoráveis ao bolsonarismo.
Nas últimas semanas, a pré-campanha de Flávio vinha sendo consumida pelos desdobramentos da crise envolvendo o banqueiro Daniel Vorcaro e pela necessidade de conter desgastes internos provocados pelo caso. À noite, Flávio participou do lançamento da chapa de Sergio Moro ao governo do Paraná.
